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Opinião. Royal-Horror
Editorial Luxemburgo 4 min. 07.06.2019

Opinião. Royal-Horror

Opinião. Royal-Horror

Foto: Guy Jallay
Editorial Luxemburgo 4 min. 07.06.2019

Opinião. Royal-Horror

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Pagávamos para não ter de ver este Royal-Hamilius, mas ao preço a que está o metro quadrado, a autarquia preferiu fechar os olhos.

O edifício central dos Correios, na praça Hamilius, é mais do que um edifício histórico. Construído no séc. XIX, tornou-se num dos locais mais conhecidos do Luxemburgo, uma referência sólida e imponente, a anunciar que ali começava o centro da cidade.

Durante anos, recém-chegados ao país encontraram-se em frente aos Correios. Ao fim-de-semana, as escadas do edifício faziam as vezes de praça pública: marcava-se ali encontro com os amigos e à chegada havia beijos e abraços, gente ainda à espera, a perscrutar os autocarros com olhar ansioso, adolescentes a namorar nas escadas. Dali seguia-se para os cafés do centro, e também aí o edifício servia de ajuda à navegação: explicava-se que era "na rua à esquerda, quem está de frente para os correios".

Hoje é preciso um mapa para encontrar o edifício, escondido por trás de prédios espelhados, esmagado pelos apartamentos que se vendem a 15 mil euros por metro quadrado. Numa das construções quase terminadas, parte do chamado projeto Royal-Hamilius, os anúncios promovem uma penthouse com "vista exclusiva para o edifício dos Correios". Um simples T1 com 60 m², no edifício Monterey, vende-se pela módica quantia de 906 mil euros, segundo a agência imobiliária Unicorn. A vista, que antes era pública e livre de encargos, foi privatizada: agora, olhar para os Correios custa um balúrdio. O projeto de uma das galerias comerciais prevê uma parede transparente com vista para o edifício do séc. XIX, capitalizando nos Correios para vender cafés e refrigerantes. Obrigam-nos a ver a fealdade dos prédios em betão e a ter de consumir para ver o que antes era de todos.

O "direito à vista" não está consagrado na Constituição, provavelmente porque ninguém imaginava que a voracidade do capitalismo chegasse aos píncaros do absurdo. Em Londres, os proprietários de apartamentos luxuosos com vista para a Tate Gallery, a mais de quatro milhões de euros por casa, processaram o museu. Queixavam-se que os visitantes conseguem ver os seus apartamentos envidraçados, quando sobem ao terraço do museu, e exigiam que este fosse fechado. Podiam instalar cortinas, como sugeriu o diretor da Tate. Ou aceitar simplesmente que quem tem paredes de vidro para ver a paisagem londrina, paga a peso de ouro, não pode atirar pedras aos vizinhos - os visitantes do museu que, pelo preço do bilhete, sobem ao terraço para ver a catedral de Saint Paul, o rio Tamisa, a cidade a perder de vista. O tribunal deu razão ao museu, mas a simples existência do processo mostra a que ponto chegou o atrevimento e a mercantilização da vida em sociedade. Num mundo em que tudo se compra, quem tem dinheiro acredita que tem o direito exclusivo de usufruir da cidade. 

Mas voltemos à capital luxemburguesa, convertida num estaleiro de construção do norte ao sul da cidade. Na última edição da revista de arquitetura Archiduc, critica-se outro mastodonte arquitetónico, o centro comercial Cloche d'Or. O edifício, sem aberturas para o exterior, simboliza "uma visão que coloca o comércio como cimento federador da vida de bairro", mas sobretudo "um urbanismo deixado nas mãos dos investidores", preferindo "o lucro financeiro" a "uma cidade convivial, concebida para o encontro e a partilha". "Noutros tempos, o coração do bairro era ocupado pela praça da aldeia, o pátio da igreja, uma praça arborizada com algumas lojas, uma mercearia, uma agência dos correios, um café com esplanada", lamenta a revista. Hoje, "o coração do bairro é um centro comercial". Com corações assim se fazem habitantes exangues e bairros sem alma.   

Em "A Sociedade Autofágica", o filósofo alemão Anselm Jappe recorda uma história da mitologia grega citada nas "Metamorfoses", de Ovídio. O rei Erisictão, da Tessália, mandou abater uma árvore sagrada para fazer tábuas para construir um palácio. De nada serviram os avisos dos deuses. Como castigo, foi condenado a ter sempre fome, uma fome devoradora que não se satisfaz com nada. Quanto mais comia, mais faminto ficava. Devorou rebanhos, cavalos, todas as provisões do reino, vendeu a filha em troca de comida, comeu toda a população. Insatisfeito, acabou por arrancar os braços e devorar-se a si próprio, numa automutilação que antecipa a voracidade capitalista. Que avidez é esta que não se satisfaz com nada?, pergunta Jappe. "Nenhum alimento é capaz de a aplacar", porque a sua fome "não tem nada de natural", não responde "a uma necessidade específica". "A sede de dinheiro não pode jamais aplacar-se, porque o dinheiro não tem por função colmatar uma necessidade precisa".     

A que necessidades da população responde o Royal-Hamilius, pejado de espaços comerciais e de apartamentos de luxo, num país à míngua de habitação a preços acessíveis? A que necessidade responde a privatização da vista para os Correios para uns poucos, por uns poucos - os responsáveis da autarquia da cidade do Luxemburgo?

Em vez da praça pública onde todos se podiam encontrar, teremos no futuro uma rede de centros comerciais. Pagávamos para não ter de ver este Royal-Horror, mas ao preço a que está o metro quadrado, a autarquia preferiu fechar os olhos.