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Opinião. Os turistas de Tchernobil
Editorial Luxemburgo 3 min. 18.06.2019 Do nosso arquivo online

Opinião. Os turistas de Tchernobil

Visitantes compram snacks e recordações numa loja, após a visita guiada à zona de exclusão de Tchernobil.

Opinião. Os turistas de Tchernobil

Visitantes compram snacks e recordações numa loja, após a visita guiada à zona de exclusão de Tchernobil.
Foto: AFP
Editorial Luxemburgo 3 min. 18.06.2019 Do nosso arquivo online

Opinião. Os turistas de Tchernobil

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
De zona radioativa a destino de férias, Tchernobil é um sinal dos tempos.

Tchernobil era o nome do horror, depois da catástrofe nuclear em 1986, até se tornar numa série de televisão e se converter em atração turística. Há 33 anos, a explosão de um reator na central nuclear situada na Ucrânia (então parte da União Soviética) libertou cem vezes mais radiação que as bombas que caíram em Hiroshima e Nagasaki. Por essa razão, foi decretada uma zona de exclusão num raio de 30km. A cidade vizinha, Pripiat, foi evacuada, e vai continuar inabitável durante milhares de anos – 20 mil, segundo algumas estimativas –, mas isso não dissuade os turistas que agora se aventuram no território. “É seguro”, garantem as agências de viagens que cobram 90 euros pelas visitas guiadas às casas e ruas abandonadas da cidade-fantasma.

Os jornais dão conta do fenómeno, noticiam as críticas às poses jocosas dos turistas, a falta de respeito pelas vítimas, tal como acontece em Auschwitz há anos. Entrevistam-se psicólogos que explicam o fascínio por Tchernobil e os motivos por detrás do chamado “turismo negro”: enfrentar a morte, dizem uns; a adrenalina do risco, apontam outros. Mas é num comentário à Reuters, citado no Público, que se se encontra a mais provável e prosaica razão que atrai as massas até à zona de exclusão, quando um estudante de 18 anos, turista como os outros, lamenta a popularidade do local: “Já há muitos turistas aqui e isso acaba um pouco com a experiência de estar numa cidade completamente abandonada”.

Guy Debord, na “Sociedade do Espetáculo”, já alertava para o esvaziamento da experiência, num mundo em que tudo se converteu num produto comercial. Por isso é que os turistas multiplicam as fotos e selfies: quando a experiência – a descoberta pessoal e intransmissível – deixa de ser possível, o vazio de quem vai de férias para se evadir mas acaba no sítio-exclusivo-para-onde-todos-vão (Veneza, Barcelona, Porto, Tchernobil) tem de ser compensado por sucedâneos. Quem paga são os amigos e a família, que têm de gramar com as fotos.

“Stalker” é um filme de Tarkovsky de 1979 que para muitos prefigura o desastre nuclear de Tchernobil, e é também o oposto desta banalização da tragédia. Tal como na Ucrânia, no filme o Governo decretou uma zona de exclusão, após uma catástrofe cujas razões são mantidas secretas. Só um guia – o ’stalker’ do filme – se aventura na Zona, guardada por militares.

O que há na Zona? Tudo e nada. Apesar dos seus proclamados perigos, a Zona parece um lugar em tudo igual aos outros, com campos, cascatas, um cão vadio, uma casa abandonada, destroços industriais. Uma das regras para escapar aos perigos da Zona é esta: os viajantes nunca devem repetir o mesmo percurso. É difícil não ver nela um aviso contra a monotonia, a repetição dos mesmos passos, mesmo quando esses passos nos levam a destinos exóticos ou sinistros. A ilusão de que não repetimos o mesmo todos os dias é a matéria de que se faz o desejo, e a Zona é o local onde os desejos mais íntimos se tornam realidade, para quem alcança uma sala que é o destino dos três viajantes no filme. Cuidado com aquilo que não sabes que desejas. Que desejam os turistas? Ter uma experiência única. Que obtêm? Selfies iguais a milhões de selfies.

Ver “Stalker” é uma forma de meditação: cada plano afasta-nos do mundo acelerado em que vivemos para entrar numa atmosfera sagrada. O escritor inglês Geoff Dyer, num livro sobre o filme, resume assim a Zona: “Estamos noutro mundo que não é mais do que este mundo visto com uma atenção sem precedentes”. Com uma atenção desmesurada em cada plano, Tarkovsky transcende o espaço e captura o tempo: vemo-lo no rosto dos atores, ouvimo-lo no restolhar das plantas, sentimo-lo nos passos cautelosos dos viajantes. É uma viagem através do tempo, a dimensão que nenhum avião, nenhuma visita guiada, consegue proporcionar-nos. Os turistas que visitam Tchernobil voltarão provavelmente tão vazios de experiências autênticas como os que fazem fila nas múltiplas Disneylândias em que se converteu o mundo. Essa é a sua – e a nossa – tragédia.