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Opinião. Os filhos do Estado Islâmico
Editorial Luxemburgo 3 min. 11.04.2019

Opinião. Os filhos do Estado Islâmico

Opinião. Os filhos do Estado Islâmico

Foto: AFP
Editorial Luxemburgo 3 min. 11.04.2019

Opinião. Os filhos do Estado Islâmico

Sérgio Ferreira Borges
Sérgio Ferreira Borges
Haverá, neste momento, cerca de 20 crianças de ascendência portuguesa retidas em campos de refugiados, controlados pelas milícias curdas na Síria. São filhas de jihadistas, a quem a aventura da filiação no autoproclamado Estado Islâmico não correu bem.

Nos últimos dias, morreu uma dessas crianças que estavam internadas no Hospital de Al Hayat. Duas semanas antes, tinha sido atingida por um bombardeamento em Baghouz.

As famílias reclamam o repatriamento destas crianças e das respetivas mães, mas os dias vão-se passando sem qualquer solução. Por isso, acusam o Governo de lentidão e de estar preso a uma teia burocrática que vai aumentando o perigo de vida dos seus familiares.

Nada disto é tão fácil como possa parecer. Para conseguir o repatriamento, Portugal precisa de um porta-voz em Damasco, coisa que, nesta altura, não existe. Nem sequer existe embaixador português na capital da Síria. O embaixador acreditado naquela capital é o embaixador em Nicósia, a capital do Chipre, onde reside. Há serviços consulares, mas que estão reduzidos ao mínimo.

Aqui está a primeira dificuldade, mas existem muitas outras. Por exemplo, não se sabe até onde chega a administração do Estado sírio. E é bem provável que as milícias curdas tenham mais poder nestas regiões do que Damasco. E assim sendo, como é que Portugal pode dialogar com os curdos?

Depois, há os perigos inerentes a uma operação deste tipo. As crónicas de guerra dizem que o Estado Islâmico colapsou, mas regularmente surgem notícias de combates, o que significa que as forças jihadistas, embora em agonia, ainda têm meios militares respeitáveis.

Num quadro destes, que tipo de operação é que Portugal podia montar para resgatar aquelas pessoas? Bastaria uma ação de logística ou seria preciso envolver uma força militar? E como nem toda a gente está no mesmo local, a operação teria de multiplicar-se por vários sítios.

Há seis dias, a Alemanha confirmou o resgate de dez crianças, mas a informação é escassa, nomeadamente no que diz respeito aos meios utilizados. Pior sorte teve uma criança britânica que acabou por morrer, o que gerou enorme controvérsia no país.

Há quem aponte a Cruz Vermelha Internacional como a entidade especialmente vocacionada para executar operações deste tipo. Mas esta instituição debate-se com o mesmo problema dos Estados europeus – ainda não encontrou o interlocutor com quem possa negociar.

Portugal não está sozinho nesta questão. Outros países europeus estão igualmente interessados em resgatar crianças e mães, mas também não encontraram ainda qualquer solução.

A França, por exemplo, tem o maior número de cidadãos em situação crítica. E, apesar de ser o país europeu com mais possibilidades de dialogar com as autoridades de Damasco, ainda não conseguiu desencadear uma operação de resgate.

É preciso um outro país que possa interceder e dialogar, numa primeira fase, com Damasco e depois com as forças curdas que dominam no terreno. Esse país pode ser a Rússia mas, pelo que se sabe, ainda não foi feito qualquer esforço nesse sentido junto da diplomacia de Moscovo e do seu chefe, Sergei Lavrov.

Há ainda outros problemas de segurança interna que muita gente tem colocado e com alguma razão. Além de crianças e mães, há também jihadistas, aparentemente arrependidos, que querem regressar à Europa. Neste caso, as opiniões dividem-se. Alguns comentadores e agentes políticos entendem que deve promover-se esse regresso, sujeitando depois os ex-combatentes a um processo de “desradicalização”. Se bem entendo o que isto quer dizer, devem ser alvo de nova lavagem cerebral para eliminar os efeitos da anterior.

Não me parece que os resultados dessa lavagem sejam de sucesso garantido. As cabeças são fracas e podem sofrer nova recaída, o que levanta problemas de segurança interna. No caso português, pode até acontecer que o país seja colocado no radar do Daesh, do qual tem estado milagrosamente excluído.

As crianças não podem sofrer as consequências dos erros dos pais. Mas Portugal também não.

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