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Opinião. O zero absoluto na escala de Cahen

Opinião. O zero absoluto na escala de Cahen

Foto: Shutterstock
Editorial Luxemburgo 3 min. 18.01.2019

Opinião. O zero absoluto na escala de Cahen

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
O Luxemburgo, sempre na vanguarda da inovação, criou uma nova escala de temperatura. No dormitório para sem-abrigo, acima de três graus negativos, imigrante sem-papéis não entra.

Acha que está frio? É relativo. Enquanto para si estão zero graus centígrados, um americano dirá que são 32 graus Fahrenheit. Para um esquimó, é verão. E se compararmos com a escala de Kelvin - que define o zero absoluto, a temperatura mais baixa possível, como -273,15° graus Celsius -, está um calor de ananases.

O Luxemburgo, sempre na vanguarda da inovação, criou uma nova escala. No dormitório de urgência para sem-abrigo, o frio também é relativo. Acima de três graus negativos, imigrante sem-papéis não entra. Proponho batizar esta escala de frio com o nome da sua inventora, a inefável ministra da Família, Corinne Cahen.

Ponto prévio: os sem-abrigo no Luxemburgo são pessoas extremamente organizadas. Se quiserem dormir nas camaratas situadas num pré-fabricado ao lado do aeroporto, abertas de 1 de dezembro a 31 de março, têm de fazer uma reserva, como qualquer turista no Airbnb. Com vantagens para o turista, que pode reservar, querendo, várias noites no mesmo sítio. O sem-abrigo, não: ainda que deseje usufruir da hospitalidade do governo luxemburguês durante todo o inverno, trocando a rua pelo único dormitório para “sem domicílio fixo”, tem de se registar cada dia em Bonnevoie, a dez quilómetros do abrigo.

Dormir ou não dormir abrigado, eis a questão, talvez sonhar com melhor oferta hoteleira, um hotel de cinco estrelas, o luxo de um teto a que chamar seu, mas ter sempre e só a mesma opção, a rua ou o dormitório do aeroporto, e mesmo assim ter de fazer a reserva todos os dias no único estabelecimento disponível. Já os sem-papéis, antes de terem a certeza de poder entrar, ainda têm de estar atentos aos termómetros e torcer para que o mercúrio não suba acima dos -3 graus centígrados. Na escala de Cahen, o ponto de congelação, que acreditávamos ser o zero, fica afinal três graus abaixo.

Há quem conteste a nova escala, não por infringir as leis da termodinâmica, mas por provocar calafrios a quem acha que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que celebrou em dezembro 70 anos, continua a vigorar no Luxemburgo, que aliás comemorou a efeméride com pompa e circunstância. Foi durante essas celebrações que um filantropo imoderado pôs a boca no trombone e criticou a escala de Cahen. É que o regulamento do abrigo de emergência, uma iniciativa humanitária para evitar que os sem-abrigo morram de frio no segundo país mais rico do mundo, estabelece que os sem-papéis não podem ser impedidos de entrar. Tudo porque, garante a ciência, o ponto de congelação é o mesmo para o cidadão com passaporte, o imigrante sem-papéis e, supõe-se, a prodigiosa ministra da Família.

Questionada pelo Parlamento, a ministra não vacilou. A escala de Cahen, explicou, foi criada para evitar que uns quantos sem-papéis, que a Polícia diz serem agressivos, pusessem em perigo os restantes sem-abrigo. O perigo, no entanto, parece ser relativo: abaixo de três graus negativos, em vez de congelarem, os perigosos sem-papéis ficam subitamente dóceis como cordeiros e podem então usufruir dos beliches ou dos colchões assentes em paletes da chamada Ação Inverno. Sabia-se que o frio conserva. Agora ficámos a saber que também regenera.

O mundo devia pôr os olhos no Luxemburgo. Em vez da prisão, que acentua o potencial criminogénico dos indivíduos, talvez pudéssemos congelá-los. Haverá sempre quem ache que a medida viola os direitos humanos. Mas já se sabe que estes, como as temperaturas, também são relativos.


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