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Opinião. Claude, o sem-abrigo que há em nós
Editorial Luxemburgo 4 min. 08.03.2019

Opinião. Claude, o sem-abrigo que há em nós

Opinião. Claude, o sem-abrigo que há em nós

Foto: Sibila Lind
Editorial Luxemburgo 4 min. 08.03.2019

Opinião. Claude, o sem-abrigo que há em nós

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Na maioria das línguas, a definição de sem-abrigo reduz uma pessoa a uma carência.

Tal como os apátridas, diz a escritora romena Corina Ciocarlie, num texto sobre a estranheza de ser estrangeiro, os sem-abrigo definem-se pelo que lhes falta - uma pátria, uma casa. É uma "existência que se define por via negativa, pela ausência, o vazio, a falta de uma referência fundamental". A maior parte das línguas expressa esta ausência. Os ingleses dizem "homeless" (sem casa), os franceses "sans domicile fixe" (sem domicílio fixo), no que é talvez um dos mais perversos eufemismos com que o Estado designa os excluídos de um direito fundamental que deveria garantir, a habitação. Em luxemburguês, tal como em alemão, diz-se "Obdachloser", sem telhado.

A definição reduz uma pessoa a uma carência. E quem carece, agradece o que lhe dão, como quem recebe uma benesse. "Beggars can't be chosers", dizem os ingleses. Como num espelho, o Estado tem com os sem-abrigo uma relação simétrica, assistencialista, providenciando para remediar uma falta: sopa dos pobres (que no Luxemburgo é instantânea) e uma cama no inverno. Fornece paliativos, em vez de erradicar as causas que fazem com que haja pessoas como nós, sem trabalho e a viver na rua. E mesmo com trabalho e sem abrigo, como mostra a história de Claude Bintner.

Durante vários dias, acompanhámos a vida deste luxemburguês. Quisemos ver o mundo pelos seus olhos. E o que vimos foi uma sucessão de indignidades. Ser revistado à porta do sítio onde se dorme. Ser revistado para poder ir comer. Ouvir de um assistente social a quem dissemos que Claude, ao fim de semana, era obrigado a vaguear nas ruas, a resposta: “Mas há os ‘foyer’ de dia em Bonnevoie” - leia-se a cantina em que se é revistado, depois de esperar ao frio, ou o Bistrot Courage, uma sala com café e sandes, a rebentar pelas costuras. O assistente social admitiu que nunca lá tinha estado. Num dia particularmente frio, fomos lá com Claude. Não havia lugar para nos sentarmos. Uns quantos homens jogavam xadrez. Entre os 50 homens que ali se concentravam, vários aguardavam em pé, à espera que a cantina onde se é revistado abrisse, à espera de serem horas de regressar ao dormitório de emergência, fechado das 9h da manhã às sete da noite. São muitas horas para aguentar de pé.

No Luxemburgo, a rede de apoio para quem cai tem malhas largas. Não é por falta de dinheiro. No segundo país mais rico do mundo, há um sistema de apoio tão absurdamente burocratizado que para dormir no único albergue disponível é preciso inscrever-se todos os dias. Há assistentes sociais, mas sem soluções. Há um problema de alojamento tal que a única resposta do Estado é enviar um trabalhador pobre, no limite das suas forças, para o dormitório para sem-abrigo. Que, convenientemente, fica perto do aeroporto, longe dos olhares de todos.

Os sem-abrigo perturbam. Convertemo-los em estranhos, em pessoas “sem”, a quem falta qualquer coisa, porque não podemos suportar que podíamos ser nós, que o horror pudesse acontecer-nos. E, no entanto, “nada do que é humano [nos] é estranho”, dizia Terêncio.

Paradoxalmente, muitas das reportagens sobre quem vive na rua reforçam a nossa boa consciência. No Natal, ficamos a saber pelos jornais que os sem-abrigo vão ter ceia melhorada. As notícias sobre a “Wanteraktioun”, o dormitório de urgência aberto exclusivamente no inverno, mostram os voluntários que se afadigam para distribuir sopa (instantânea) aos sem-abrigo. E vamos dormir descansados. A falta é deles, e o Estado e as associações providenciam. Mas nem só de sopa, de panela ou de pacote, vive o homem.

Claude não é só um “sem”. É um homem com sentido de humor. Com medos e angústias. Com alcoolismo, uma dependência que, aos 59 anos, fez estragos mas faz parte de si. Que corrige Descartes sobre a existência de Deus, adormece a ouvir Jimmy Hendrix e Paco de Lucia, e acha que, se tivesse uma guitarra, ainda seria capaz de tocar “The needle and the damage done”, a canção de Neil Young sobre a dependência da heroína. Nos dias que passámos juntos, Claude lamentou várias vezes que as pessoas não prestem atenção às letras das canções. Ouvimos muitas juntos. A de Neil Young diz assim: “I've seen the needle and the damage done / A little part of it in everyone”. Uma parte de Claude vive em todos nós.