Escolha as suas informações

Opinião. Cadê a bandeira de Luxemburgo, mamãe?
Editorial Luxemburgo 13 min. 06.05.2019

Opinião. Cadê a bandeira de Luxemburgo, mamãe?

Opinião. Cadê a bandeira de Luxemburgo, mamãe?

Ilustração: Sibila Lind
Editorial Luxemburgo 13 min. 06.05.2019

Opinião. Cadê a bandeira de Luxemburgo, mamãe?

Apesar de ter nascido no Luxemburgo, o meu filho diz sempre “sou brasileiro e alemão” e nunca “sou luxemburguês”. Mas quando estamos no Brasil, ele pede para voltar para casa, em Luxemburgo. Já vivo há seis anos aqui, mas ainda me sinto imigrante. Por que não consigo chamar Luxemburgo de “minha casa”?

Naquele dia tão desejado de verão, estava eu e meu filho de quatro anos voltando da creche, quando ele vê um carro passando com duas bandeirinhas e grita:

- Olha, mamãe! Aquele carro tem duas bandeirinhas de Portugal! – diz ele sorrindo.

- Que legal! Que tal colocarmos bandeirinhas no nosso carro também? Podemos colocar uma bandeira do Brasil de um lado e uma da Alemanha do outro lado. – eu disse entusiasmada já que meu filho tem mãe brasileira e pai alemão.

- E a bandeira de Luxemburgo vai onde? – ele fica intrigado.

- De Luxemburgo? Pois é... Como é que vou te explicar essa? Luxemburgo não está jogando na copa. – eu disse interessada pela resposta do meu pequeno.

Apesar de ser brasileira e ter um marido alemão, meu filho nasceu em Luxemburgo. Eu e meu marido sofremos da síndrome de wanderlust e, depois de morarmos no Brasil e na Alemanha, resolvemos que poderíamos tentar a vida num terceiro país. E por que não um país tão rico e desenvolvido que até alemão impressiona? E assim paramos em Luxemburgo. Só não ficamos ricos. No nosso caso, desenvolvimento foi só pessoal, não financeiro.

- Por que não? – ele ficou curioso.

- Porque Luxemburgo não passou nas eliminatórias que são aqueles jogos de futebol que vão definir quem joga ou não na copa do mundo. – falei tudo isso na esperança dele mudar de assunto, pois nem eu entendo muito bem dessas regras de futebol.

- Hum. – ficou pensativo.

Quando o Benjamin perguntou “e a bandeira de Luxemburgo”, isso me deixou matutando por alguns dias. Como eu pude esquecer-me do país em que ele nasceu, vive, tem amigos e aprendeu a construir as maiores linhas ferroviárias de Lego? É claro que eu queria que o Brasil estivesse no pensamento dele. Imagine, ganharmos o hexa? Tirarmos do nosso coração o 7X1? Meu filho não lembra do 7X1 e para ele também tanto faz. Seu pai é alemão, então se o Brasil ou a Alemanha ganha a copa, ele será campeão. O Ben não sabe o que é ser brasileiro. Também não sabe o que é ser alemão. Nasceu num terceiro país, Luxemburgo. Que não é meu, nem do pai dele. Ele sempre diz “sou brasileiro e alemão”. Mas nunca disse “sou luxemburguês”. E, de repente, quer a bandeira de Luxemburgo?

Provavelmente, ele sente que nem eu, nem seu pai nos sentimos pertencentes a essa terceira terra. Quando ele viaja é para o Brasil ou para a Alemanha. Quem o abraça, o ama, conversa com ele é brasileiro ou alemão. Luxemburgo é um meio. Para mim, um meio de ganhar mais dinheiro, de ter um bom trabalho. Para o pai dele, um meio de pagar menos impostos. Mas para o Benjamin, Luxemburgo é um meio do quê?

Uma vez estávamos na casa dos avós, em janeiro, num dia quentíssimo de calor. Eu achando aquilo tudo maravilhoso. Na casa de meus pais, com direito a mimos deles, mas eu reparei que o Ben estava cansado, suando como um meio-alemão e de repente ele se aproxima e fala “quero voltar para casa”. Eu não entendi e disse pra ele “mas nós estamos em casa”. E ele diz “não, minha casa é em Luxemburgo”. Claro! Para ele nossa casa era lá. Mas quando eu volto para o Brasil, eu volto pra casa. Como pode isso? Moro há seis anos em Luxemburgo, mas não moro em casa? Onde moro então?

O sentimento de ser imigrante parece um sintoma psiquiátrico. Tenho que ir no médico ver se ele tem algum remedinho pra isso passar. Em Luxemburgo mesmo, me sinto constantemente diagnosticada – imigrante! Não porque sofro de qualquer xenofobismo, ou alguém contra imigrantes me mandando ir embora. Bem pelo contrário. Metade da população aqui é de imigrantes. Luxemburguês é coisa rara e muitos nem se dão ao trabalho de criticar os imigrantes, já que esse país nem funciona sem nós. O problema está mesmo naquilo que não consigo decifrar! Por que não me sinto em casa? Por que não consigo chamar Luxemburgo de “minha casa”?

Eu tento apaziguar meu coração de várias maneiras. E minha desculpa é sempre essa: porque aqui se fala tantas línguas, três oficiais – Francês, Alemão e Luxemburguês e porque não sou proficiente em nenhuma, aí, também, não me sinto pertencente ao país. Se não tenho uma língua em que sou proficiente, como posso me exprimir, conversar, desabafar sem a minuciosidade linguística que preciso para me explicar nesses momentos? Posso me sentir pertencente a um mundo, se pouco sei desse mundo e tenho pouco repertório linguístico nele? O que faz então, eu me sentir tão “brasileira”?

Seria a língua, então, o elo entre o sentimento de pertença a um local e o bem estar no lugar que você mora? Por isso, meu filho, em raras ocasiões, lembra que a casa dele é Luxemburgo? Mas o que ele realmente é? É alemão e brasileiro? Porque o conhecimento linguístico determina o nosso eu? Ou é o conhecimento linguístico que traz aquilo que é realmente importante para a determinação do meu eu: a cultura, as relações e experiências com outras pessoas.

- Ben, o que você mais gosta do Brasil? – na vontade de descobrir o que faz a gente nos sentir pertencente a algum lugar, eu dou uma de detetive.

- Da vovó e do vovô. – falou ele sorrindo.

- E das coisas? Não de pessoas, do que você mais sente falta?

- Do pão-de-queijo. – fala ele.

Não da praia? Penso eu.

- E o que você não gosta no Brasil?

- Dos fios na rua e dos bandidos. – faz uma cara de medo.

Dos fios na rua ele quer dizer sobre o fato da eletricidade não ser subterrânea. Isso sempre o impressionou. A quantidade de “fios” na rua. Mas não acho que era dos fios que ele particularmente não gostava. E sim dos meus berros quando via fio elétrico solto “Não encosta nisso aí!”. E bandidos, acho que é minha culpa também. De tanta história que conto de bandido e do quão frequente falo, quando estou no Brasil, que não vou levar minha carteira, pra evitar de o bandido a pegar, por exemplo, que ele ficou encucado com esse grupo de pessoas.  


Expatriado ou imigrante, eis a vexante questão
O que distingue um expatriado de um imigrante? Assim à primeira vista, uns viajam com mala de cartão, outros com mala de porão, em business class.

Então o que ele sente falta é da alta culinária brasileira e das pessoas. É esse o elo? A língua é importante para criar conexões valiosas entre as pessoas e claro, para lermos receitas de pães de queijo e poder tornar aquela instrução na comida mais saborosa que tem para ele? Como ele não falou arroz com feijão, meu Deus? Todo dia me pergunta se tem arroz e feijão de janta.

Mas então o que importa nesse sentimento de pertença a um país são as conexões humanas? Eu me sinto brasileiríssima em Luxemburgo. Também porque tenho aqui amigos brasileiros e procuro fazer “coisas brasileiras”, como capoeira, churrasco e falar alto no ônibus, apesar do silêncio europeu. Mas, quantas vezes no Brasil me senti pouco brasileira? Senti-me até imigrante lá. Porque, no fim, também sou imigrante no Brasil. Minha família, por parte de pai, é descendente de libaneses e portugueses e, por parte de mãe, de alemães. Curiosamente, meus descendentes também saíram da Alemanha, de Portugal e do Líbano para tentar a sorte em outro país.

Para os meus descendentes de alemães que foram para o Brasil, no início do século XIX, o governo brasileiro lhes prometeu terras, escolas, hospitais, empregos. Mas o que eles realmente obtiveram? Terras. Eles tiveram que construir as próprias escolas, hospitais e ruas. E o fizeram bem por muitos anos, mas tudo era feito em alemão, já que ninguém deles aprendeu o português. E como aprenderiam? Se ficaram isolados do resto do Brasil.

Por décadas, então, esses alemães, moradores em terras canarinhas, aprenderam a ler e escrever em alemão. Falavam com o médico em alemão e festejaram em alemão. Provavelmente não tiveram esse dilema que eu e o Ben temos – pertencemos a quê? A quem? Já que esses alemães imigrantes no Brasil ainda falavam sua língua.

Durante a segunda guerra mundial, já que o Brasil ficou contra a Alemanha, o governo brasileiro achou justo também proibir os alemães, residentes no Brasil, de falarem em alemão. Porque é isso! A língua é o centro, é o elo. Sem a língua alemã, tornar-se-iam esses alemães brasileiros? Aprendendo o português brasileiro, sentiriam e seriam esses alemães, finalmente, brasileiros?

O governo chegou com suas tropas e disse: “A língua alemã está agora proibida, tudo deve ser em português”. Os alemães, provavelmente, se olharam e se perguntaram em alemão: “was sagt er?” (“o que ele disse?”). Assim, foram deixados nessas terras alguns vigias de língua. Quem falasse em alemão ia preso. E a língua alemã acabou restrita ao uso dentro de casa, já que as pessoas temiam os laranjas. E centenas de escolas foram fechadas, já que o governo não proveu professores que falassem português e os professores alemães não podiam mais dar aula. Essas regiões tinham índice zero de analfabetismo e depois da vinda das tropas de Getúlio Vargas, além de mudas, metade da população caiu no analfabetismo e muitas escolas foram abandonadas ou fechadas.

Com toda essa situação de desgraça, os alemães não se sentiram brasileiros. Provavelmente, até encontraram um inimigo. Afinal, quem me proíbe de me relacionar com meus avós? Porque se não podemos falar nossas línguas, o que o governo acabou fazendo é tornando as conexões humanas fracas, sem graça, sem vida, sem cor.

Aqui, em Luxemburgo, 50% da população é de imigrantes e, desses, 24% são portugueses. Por isso, meu filho, durante a copa, via tanta bandeira portuguesa. Numa polêmica no ano de 2014, foi proibido de falar o português nas escolas. Claro, as crianças portuguesas brincavam entre elas em português. Mas a população não aceitou bem essa proibição. Todo mundo ficou horrorizado e isso repercutiu na mídia, o que fez as pessoas falarem muito da importância da língua materna. Falaram também que perder a língua materna é uma perda muito grande para uma criança. Não só para a criança, não é? Quem perderia muito com isso são os pais, já que é a língua deles, a que eles se sentem mais confortáveis em explicar o mundo, em brigar e brincar com seus filhos. Obrigando crianças e pessoas a não falarem a língua que eles mais se sentem proficientes e confortáveis, é uma situação embaraçosa. Como vou proibir o Benjamin de cutucar o nariz em outra língua? O que isso faria com minha auto-estima? Já que minha auto-estima é construída a partir da qualidade das minhas relações socias e qualidade só tenho se eu conversar muito com meus sociais.

Mas o que é realmente a língua materna? A língua materna do meu filho Benjamin é o português brasileiro. Porque, coitado... Nunca ninguém o perguntou qual é sua língua paterna. Agora, o que isso significa para ele? Por enquanto, é a língua com a qual ele se sente mais confortável, já que é a que ele tem mais vocabulário. O pai dele disse que falo muito, por isso, ele sabe melhor o português. Mas será sempre a língua que ele mais dominará? Num sistema escolar em que o luxemburguês é falado, provavelmente uma hora será a língua que ele mais domina. Como faço então para que ele sinta que o português é muito importante para ele e que ele não o queira perder?

Dificilmente ele vai achar o português importante se eu não manter contato com meus familiares e amigos no Brasil. É a relação com outras pessoas que vai fazer ele sentir que vale a pena manter essa língua. Claro que se ele gostar de ler livros em português, cantar belas músicas brasileiras e, ocasionalmente, um sertanejo, o que vai em algum grau o manter falando o português. Mas sem as conversas com a vovó e a tia Lili, o português na vida do Ben corre o risco de perder o valor.

O meu alemão perdeu o valor para mim. Não meu marido, a língua mesmo. Gerações e gerações de descendentes de alemão falaram entre si o alemão. Depois, esse alemão deu uma abrasileirada e tornou-se o Hunsrückisch e hoje muitas pessoas estão fazendo de tudo para manter esse dialeto. Minha mãe, assim que emigrou de Santa Catarina para São Paulo, parou de falar Hunsrückisch comigo. Ela até sentia vergonha de falar o dialeto, porque muitos tiraram sarro de seu sotaque. E por isso achou melhor falar só o português comigo e com minha irmã.


Historiadora brasileira quer guardar as memórias dos imigrantes no Luxemburgo
Em que baú e gavetas os imigrantes guardam as suas memórias? Anita Lucchesi pediu aos estrangeiros que as partilhassem no site "Memorecord", um projeto que reúne "não só aquilo de que nos lembramos mas o que queremos sobretudo lembrar”.

Vinte anos depois, eu conheço um alemão. Ironias da vida... Ah, se eu falasse o dialeto alemão, apesar de ele talvez o achar engraçado, poderíamos ter uma conversa em alemão. Agora eu tenho que voltar a estudar, aprender o Hochdeutsch, porque ninguém em Luxemburgo vai falar Hunsrückisch comigo. E, lá no meu coração, uma parte de mim sente essa perda. Principalmente quando visito meus familiares do extremo oeste de Santa Catarina e os escuto falando esse dialeto.

Eu os vejo transformados, quando falam o Hunsrückisch. Algo muda em nós quando falamos nossa língua. Porque a língua vem junto de sentimentos, de conhecimento sobre o local em que a língua é falada. As piadas são outras porque o costume, a cultura são outros. E tudo isso você perde quando não aprende sua língua materna. Tudo isso me refiro a essas conexões humanas que são tão eternas que não se encontram muitas vezes em amizades fora de seu país.

Por isso, meu filho tem que falar o português brasileiro. Porque quero que ele converse com meus primos, que conte os mais novos babados para meus pais, que ensinem minha irmã a fazer linha ferroviária de Lego com a precisão de uma bula. Que torçam para o Brasil na copa, porque sabem gritar GOL e se emocionar com a narração do sétimo gol do Brasil contra a Alemanha.

Depois de meus ascendentes há séculos morando no Brasil, eu trouxe os seus genes de volta para de onde saíram. Os alemães de que descendo, da região de Hunsrück, fica aqui do ladinho de Luxemburgo.  Quem diria que eles um dia voltariam. Quem diria que um dia esses genes achariam que finalmente a Alemanha está melhor que o Brasil e por isso daria para eles voltarem? Dá-me esperança de que um dia meus genes vão querer voltar ao Brasil. Porque um dia eles vão achar que o Brasil está dando melhores condições para a população, do que Luxemburgo. E, daí, eu espero que meus genes serão falantes do português brasileiro e, assim, o primeiro passo para o retorno estará feito já que, na bagagem, estará a língua deles de herança. E até lá, quem sabe, meus genes já serão mais que nove vezes campeões?

Cíntia Ertel Silva

O artigo foi escrito em português do Brasil

A autora é brasileira e trabalha como investigadora na Universidade do Luxemburgo