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Opinião. Bom conselho
Editorial Luxemburgo 1 3 min. 21.06.2019

Opinião. Bom conselho

Opinião. Bom conselho

Foto: Shutterstock
Editorial Luxemburgo 1 3 min. 21.06.2019

Opinião. Bom conselho

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Na série das músicas que nos salvam, "Bom Conselho", de Chico Buarque, é das que é vital ouvir. E é de graça.

Em 1972, estava o Brasil sob a ditadura militar, quando saiu "Bom Conselho", num álbum ao vivo com Caetano Veloso. Como em tantas músicas do agora prémio Camões, a letra põe o mundo de pernas para o ar, para que o possamos ver com novos olhos. 

Primeiro ele, para quem puder pôr o som alto:

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A canção é uma sucessão de provérbios, ou melhor, a sua negação. A começar pelo título. Diz a sabedoria popular que, se os conselhos fossem bons, não se davam, vendiam-se. Em vez disso, Chico Buarque diz: "Ouça um bom conselho / Que eu lhe dou de graça". Depois, vira tudo do avesso: "Espere sentado / Ou você se cansa"; "Está provado, quem espera nunca alcança"; "Brinque com meu fogo / Venha se queimar"; "Aja duas vezes antes de pensar"; "Devagar é que não se vai longe".

A música desafia o ouvinte a fazer orelhas moucas às ideias feitas, ao rame-rame do conformismo, à inércia, ao status quo, e convida à ação: "Aja duas vezes antes de pensar". É uma contestação à ordem estabelecida: desafia cada um a pensar por si, o exato oposto da passividadade acrítica de quem se sujeita a uma ditadura ou ao pensamento único.

E quando Chico Buarque canta "faça como eu digo / faça como eu faço", é também uma afirmação de princípios contra a duplicidade da ditadura, que prega uma coisa e faz o seu contrário. Mas agir bem, contra as prescrições do senso comum e dos poderes dominantes, é mais fácil de dizer do que fazer, porque exige independência e coragem, mesmo quando não se vive em ditadura. A independência dos lançadores de alerta, como os que denunciaram os vergonhosos acordos fiscais do Luxemburgo, quando todos repetiam que "era legal", agindo com a certeza de quem sabe que a substância vale sempre mais do que a forma. E que, ainda que a lei o permitisse, há leis injustas e ilegais, e é preciso, como Antígona, ter a ousadia de desobedecer aos éditos que violam os nossos princípios.

Depois, é preciso coragem. A coragem de se expor a perseguições em tribunal, sem o apoio sequer da opinião pública luxemburguesa, disposta a fechar os olhos por beneficiar deste enriquecimento sem causa. Ou a audácia, física e moral, do fotojornalista José Lopes Amaral, um português do Luxemburgo que desafiou a Polícia para defender repórteres de Hong Kong. "Fiz o que fiz sem pensar", disse ao Contacto.

Na Europa, em 2019, ainda há quem, por agir "duas vezes antes de pensar", seja tratado como um criminoso. O português Miguel Duarte foi constituído arguido pelo crime de auxílio à imigração ilegal. O seu crime? Ter salvo milhares de refugiados que tentavam atravessar o Mediterrâneo. O barco da organização em que é voluntário, a ONG alemã Jugend Rettet, foi apreendido, depois de a organização ter recusado assinar o "código de conduta" imposto pelo governo de Salvini, cujo único objetivo é impedir a salvação de náufragos.


Miguel, o português que pode passar 20 anos na cadeia por salvar imigrantes
Miguel Duarte tem hoje 26 anos, ajudou a salvar da morte certa, no mar, cerca de 14 mil migrantes. É acusado pela justiça italiana, juntamente com outros tripulantes de uma embarcação humanitária, de auxílio à imigração ilegal. Pode ser condenado a 20 anos de cadeia. Uma acusação que pretende impedir as organizações humanitárias de salvar milhares de migrantes de morrerem afogados. O Contacto falou com ele.

A opinião pública, amorfa, comove-se a espaços com uma ou outra criança afogada, mas a política continua a ser a mesma: "Vive e deixa morrer". Se os continentes fossem pessoas, a Europa estaria no banco dos réus pelo crime de omissão de auxílio. Em vez disso, persegue quem cumpre com bravura os seus deveres humanos. Indigno.