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Opinião. A última ceia
Opinião Luxemburgo 6 min. 27.11.2020 Do nosso arquivo online

Opinião. A última ceia

Opinião. A última ceia

Opinião Luxemburgo 6 min. 27.11.2020 Do nosso arquivo online

Opinião. A última ceia

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
O governo Luxemburgo mandou-nos confinar a meias. Para quem não vive no país explico o método luxemburguês: ao recolher obrigatório em vigor – tudo em casa às 23 horas – juntou-se o fecho dos restaurantes.

Com os países vizinhos confinados e sem restauração, bares e mesmo com as lojas fechadas, os governantes decidiram que tinham de evitar o turismo gastronómico e comercial. Belgas, franceses e alemães precipitaram-se durante os últimos fins de semana para passear, fazer compras e almoçar ou jantar. País de compromissos e de costumes ainda mais brandos que os portugueses, em vez de controlar os turistas covid na fronteira, o governo optou por fechar aquilo que mais franceses atraía ao grão-ducado.

Quando o primeiro-ministro anunciou um novo encerramento dos restaurantes precipitei-me para o telefone: tenho de marcar um jantar para o último dia de abertura!

Pensei demasiado tempo sobre o sítio onde me apetecia ir. Quando telefonei disseram-me: desculpe, mas para quarta à noite já estamos cheios, sabe que é o último dia...

Percebi que uma boa parte da população do Luxemburgo tem o mesmo amor por restaurantes que eu tenho. Mas em minha defesa devo mencionar um elemento fundamental: eu não sei cozinhar. A sério, mal sei estrelar um ovo e tudo aquilo que preparo fica sensaborão, quando não fica esturricado e irreconhecível.

Safo-me nos cachorros quentes (a pontuação depende do apetite dos meus sobrinhos), desenrasco-me numa omelete (que nunca sai inteira, mas prontos) e tenho doutoramento em micro-ondas (para obter o grau aconselho a universidade da vida que não sei onde é mas tenho visto várias menções no Facebook).

O meu gosto por restaurantes é, por isso, uma questão de sobrevivência e não uma mania. Tenho aquela veia lusa que me faz gostar de comer o prato do dia no bar da esquina ou de passar pelo restaurante ao fim do dia, a caminho de casa, para uma bela refeição acompanhada por meio copo de vinho tinto (que já fui controlado pela polícia várias vezes a 300 metros da entrada da minha garagem).

O restaurante é um sítio onde se vai da mesma forma como se vi à bomba de gasolina para encher o depósito, embora a primeira atividade seja mais prazerosa (exceto quando ando numa fase de snifar gasolina; aconselho a Shell).

Sempre me causou confusão a expressão francesa: “on se fait un restaurant?”, ou seja, “vamos fazer um restaurante?”, como quem coleciona cromos ou faz uma lista de pessoas com quem dormiu.

A primeira vez que ouvi a expressão inquiri os meus interlocutores. Que querem vocês dizer com isso? Explicaram-me que ir ao restaurante é um evento, um acontecimento, uma espécie de cerimonial. E isto é ainda mais verdade se o restaurante em questão for bom, de preferência gastronómico ou estrelado, ou se formos com um grupo de amigos.

Respondi que linguisticamente a expressão me confunde, porque o restaurante já está feito, já existe, e eu quando penso em ir jantar fora só pergunto: onde vamos comer? Porque é disso que se trata: comer.

Aliás, a simplicidade da expressão almoçar ou jantar fora contrasta bem com a importância que os nossos amigos francófonos, e mais especificamente franceses, atribuem ao ato quando dizem que vão “fazer um restaurante”.

Apesar da minha profunda portugalidade, na quarta-feira senti-me como um francês que vai “fazer um restaurante” como se esta fosse a última oportunidade, como se se tratasse de

uma última ceia, um ritual importante e determinante, como um almoço de boda ou um aniversário.

E lá marquei mesa (outra coisa que me irrita, ter de marcar) num restaurante um bocado piripipi demais para o meu gosto, mas era o único que ainda tinha lugares disponíveis, “só que no andar de cima pois na sala principal já está tudo cheio”. Tudo bem, o que importa é que há mesas.

Enganei-me bem. Logo que chegámos o empregado informou um colega que a mesa do senhor Reis é no andar de cima. Imediatamente, a minha companheira, de cultura gaulesa, olhou para mim, observou os empregados, e disse: lá em cima? Onde é lá em cima?

O empregado balbuciou que é na sala de casamentos, um sótão muito agradável, com mesas que respeitam as regras de distanciamento. E aqui em baixo não tem nada, perguntou a minha amiga, apesar de o restaurante estar manifestamente a abarrotar.

Como pode ver não temos nenhuma mesa disponível, explicou o empregado, olhando em redor com ar de “deixem-me ir trabalhar que não tenho tempo para perder convosco”.

Decidi intervir, até porque sou muito fraquinho quando se trata de fazer finca-pé com empregados de mesa: vamos lá acima ver a sala e decidiremos.

Aproveitei os doze degraus de solidão com ela para lhe explicar que “a esta hora não vamos encontrar mais nada” mas que, se ela insiste em não jantar ali, “podemos sempre ir ao McDonalds”.

O alpendre era chique, moderno, mas vasto, bastante vasto, dando a impressão de um pavilhão desportivo. Talvez antes das obras alguém tivesse ali jogado basquetebol. Mas as divisórias entre mesas e o distanciamento até me agradaram. Perguntei-lhe “que achas?”.

Ela já estava a chamar o empregado e não me ouviu. Pode ser na mesa junto à janela? Apontou para uma mesa pequena sem toalha e com uma espécie de arranjo floral. O empregado engasgou e tentou explicar aquilo que eu já tinha percebido: a mesa não é uma mesa para jantar, é uma mesa decorativa. Ela sussurrou “pois... não sei”, penteou-se com a mão esquerda e penetrou-me com o olhar destruindo centímetros quadrados da minha massa cinzenta. Vamos ficar onde o senhor quiser, acabou por dizer contrariada.

O empregado respirou fundo disfarçadamente e dirigiu-nos para uma ampla mesa a três metros de qualquer vizinho. Além de ser uma boa mesa anticovid vamos poder conversar sem sermos ouvidos, comentei.

E tu queres conversar de quê? Tens algum segredo a contar-me?

Percebi que esta última ceia não ia ser das mais agradáveis da minha vida. E não tive de esperar.

Quando vamos fazer um restaurante tem de se perguntar que tipo de sala é, onde se situa a mesa, e tudo isso, explicou-me.

Agradeci a ajuda. Disse-lhe que “chez nous”, em Portugal, a gente não está com essas coisas a não ser se houver vista mar e, que eu saiba, de Walferdange não se vê o mar. Por isso a localização da mesa, desde que não seja junto à porta da cozinha, me parece sempre bem.

Ela explicou (porque é importante para ela ter a última palavra) que esta era a primeira vez que ela fazia este restaurante e que a primeira impressão é muito importante e que claramente a sala de baixo é a mais importante e bonita, que a sala do alpendre é uma extensão quando eles têm muita gente e blá blá blá blá...

Desliguei. Optei pela atitude carneirística de acenar ligeiramente com a cabeça enquanto scrollava o menu no meu iPhone. O foie gras parece-me bem, acompanhado com manga. Interessante.

Ela disse que sim, mas que não queria partilhar a entrada porque estava mesmo com muito apetite. Que bom, disse eu, afinal é para isso que viemos ao restaurante, para comer.

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