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OPINIÃO: A sociedade fracturada
Luxemburgo 3 min. 23.09.2016 Do nosso arquivo online

OPINIÃO: A sociedade fracturada

OPINIÃO: A sociedade fracturada

Luxemburgo 3 min. 23.09.2016 Do nosso arquivo online

OPINIÃO: A sociedade fracturada

OPINIÃO, por Hugo Guedes - Duas perguntas ao leitor(a): Sabe qual é a língua oficial dos Estados Unidos? E da Austrália? Se respondeu “inglês” caiu na armadilha – estes países não têm língua oficial.

OPINIÃO, por Hugo Guedes - Duas perguntas ao leitor(a): Sabe qual é a língua oficial dos Estados Unidos? E da Austrália? Se respondeu “inglês” caiu na armadilha – estes países não têm língua oficial.

São terras de imigrantes e utilizam predominantemente uma língua importada de paragens distantes (a inglesa) mas, pelo menos no sul dos EUA, o espanhol, impulsionado por imigrações mais recentes, é incontornável, como antes das guerras mundiais também tinha sido o alemão. De resto, estas dinâmicas sociedades onde “igualdade de oportunidades” não são palavras vãs passam pouco tempo a preocupar-se com a língua que cada um fala em sua casa e mais com o potenciar das qualidades de cada um na procura do enriquecimento pessoal e, por arrasto, no desenvolvimento de cada comunidade e do país como um todo, país esse que todos sentem como indubitavelmente seu. Até ao momento, não consta que se tenham dado mal com estas opções.

Viajemos agora até um lugar muito diferente – o Grão-Ducado do Luxemburgo. Pequeno acidente da conturbada História europeia, canto de territórios mais vastos que transbordou recentemente dos mesmos e partilha um dialecto francónio com regiões limítrofes mas separadas por fronteiras marcadas a muito sangue. Este pequeno país também é terra de muitos imigrantes de diferentes proveniências, mas as semelhanças com os EUA ou a Austrália praticamente acabam aí: é que a sociedade luxemburguesa está rachada ao meio.

As estatísticas são fáceis de verificar: no Luxemburgo, a riqueza está, de forma esmagadora, concentrada em metade da população. Os direitos de voto que permitem escolher os destinos do país são exclusivos da mesma metade da população, ainda que os impostos sejam pagos por todos. Os (confortáveis e bem pagos) empregos na Função Pública são detidos de forma esmagadora pela mesma metade da população, bem como os cargos dirigentes da maioria das empresas, a parte de leão do inflacionado parque residencial do país, ou os diplomas certificados do ensino secundário, com a ajuda preciosa do regime linguístico vigente. Há igualdade de oportunidades e aproveitamento de altas capacidades, sim, mas só nesta metade, onde todos são branquíssimos, os nomes de família não variam muito, fala-se a tal língua germânica: são os habitantes de etnia luxemburguesa.

Para alguns destes, no entanto, tudo isto parece ainda não chegar. Volta e meia, a pobre língua luxemburguesa é usada como arma de arremesso para a criação de barreiras adicionais à vida da “outra” metade, assegurando dessa forma que o bolo continue escandalosamente mal distribuído entre insiders e outsiders. É o caso actualmente com a “petição 698” (ver artigo na página 5), que tem grande repercussão nas redes sociais e rapidamente obteve os votos necessários para ser discutida no Parlamento, e onde se defende que o luxemburguês passe a ser língua oficial dominante no território, relegando francês e alemão para estatutos secundários e esporádicos. O vocabulário do luxemburguês é muito incompleto e pede emprestado mais de 5.000 palavras ao francês, não contando com termos tecnológicos e científicos, mas ainda assim a língua é usada para dividir e marginalizar, em vez de para unir e comunicar.

Nem vale a pena apontar para os exemplos da Suíça, Malta, a Irlanda ou o Dubai, que nunca se isolariam no casulo incompreensível das suas línguas locais sabendo que isso significaria a morte, a médio prazo, dos negócios e da economia. A petição 698 encerra um mal disfarçado nacionalismo tóxico, que já nem sequer se limita à nostalgia por algo que nunca existiu: um proponente apelida o êxito da ideia de um verdadeiro “Volkssturm” – a referência é às milícias populares criadas por Goebbels para suposta defesa de um acossado e desesperado regime nazi, já no final de 1944.

Sinal dos tempos que vivemos certamente, mas a última coisa que uma sociedade já fracturada necessita é de um protofascismo que legitime, acentue e perpetue esta divisão entre duas metades da população; tal Estado será insustentável a médio prazo. Veremos qual o destino da petição 698 – que será votada, hélas, pelos representantes da metade reinante.

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