Escolha as suas informações

Opinião. A rua da Sophia

Opinião. A rua da Sophia

Foto: Aurimages
Editorial Luxemburgo 4 min. 22.05.2019

Opinião. A rua da Sophia

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
A terceira aglomeração do Luxemburgo será a primeira que finalmente – finalmente! – homenageia os portugueses do país através da sua toponímia. Parabéns! Esperemos que Esch-sur-Alzette, a capital e as restantes comunas do país sigam agora o bom exemplo.

Deve ser a primeira vez que esta coluna "na rua da grande cidade" versa sobre uma rua específica – uma futura rua da pequena cidade de Differdange. A terceira aglomeração do Luxemburgo será a primeira que finalmente – finalmente! – homenageia os portugueses do país através da sua toponímia. Parabéns! Esperemos que Esch-sur-Alzette, a capital e as restantes comunas do país sigam agora o bom exemplo.

Se a vereação desta "cidade do aço" merece ser congratulada por ter dado um passo de reconhecimento há muito devido ao lado português do país, então o voto unânime que na semana passada escolheu Sophia de Mello Breyner para nome danova rua é admirável e, tal como a obra de Sophia, revelador de um profundo bom gosto. A escritora e poetisa (ou poeta, como preferia apresentar-se, já que a declinação no feminino lhe parecia uma diminuição condescendente da sua arte) é um vulto enorme da cultura portuguesa do pós-Pessoa, e a sua escrita límpida, despojada, luminosa, revela um talento que não podia ser contido nas amarras machistas e mordaças políticas do Portugal em que lhe coube viver.

Não é irrelevante para a igualdade de género que a escolha tenha recaído sobre uma das duas únicas mulheres que, juntamente com dez homens, repousam para sempre no panteão nacional de Lisboa (em Coimbra há duas mais). Claro, a alternativa teria sido a congénere de panteão, Amália Rodrigues. Mas há muito boas razões pelas quais Amália não seria uma boa primeira (e até ver única) escolha para ser rua-símbolo dos portugueses no Luxemburgo.


Com Amália afastada, Differdange aprova rua Sophia de Mello Breyner "Anderson"
A autarquia de Differdange deu hoje luz verde a uma lista de nomes para um novo bairro em construção que inclui a poetisa portuguesa.

Amália tinha uma voz incomparável, era uma enorme artista, um talento de nível mundial. No entanto, a sua associação ao regime ditatorial que mandava para a guerra e/ou a miséria – ou a emigração – a esmagadora maioria dos portugueses conspurca, logicamente, o seu valor enquanto símbolo. Os discos mantêm-se intactos, mas a homenagem torna-se desconfortável, e haveria uma ironia enorme em fazê-la junto dos descendentes dos operários que vieram parar a Differdange devido ao regime que Amália ajudava a promover. Claro que a sua relação com o mesmo não é linear; a artista também ajudou autores proscritos, e nem fazia política "direta". Mas a sua proximidade às altas figuras do Estado Novo era inegável. Quando Salazar caiu da cadeira, Amália enviou ao ditador umas quadras reveladoras: "Ponha-se-me bom depressa / Meu querido presidente / Depressa, que essa cabeça / Não merece estar doente".

Para rebater um argumento citado neste jornal, sim, é óbvio que a obra de Wagner é afectada (aliás infectada) pelo facto de o compositor ser virulentamente antissemita. Não se dissocia a obra de Shostakovich de saber que ele era o "compositor do regime" soviético. Ninguém hoje em dia daria a uma rua o nome de Michael Jackson, molestador de menores, ou Morrissey ou Eric Clapton, apoiantes de partidos supremacistas de extrema-direita. Há incontáveis exemplos de obras maravilhosas criadas por pessoas com ideias horríveis. A arte continua lá, mas é essencial saber interpretá-la também à luz de quem a criou, e saber que se trata de um ser humano falível – o endeusamento do artista leva-nos direitinhos à grande desilusão. Esse debate continua a ser feito em todo o mundo, e Amália não deve (nem quereria, provavelmente) ser envolta neste manto mítico de que ainda goza.


O fado dos proletários
Onde se fala do fado e do fardo do inteletual branco em educar os pobres operários e mulheres a dias supostamente ignorantes e a precisar de elites esclarecidas.

Há outra excelente razão para preterir uma cantora de fado: não obstante a propaganda do Estado Novo, Portugal nunca foi só fado, e o fado nunca foi Portugal. O fado, música com origens no Brasil e no Médio Oriente, é um cantar típico de Lisboa (e Coimbra). Não representa as raízes culturais e etnográficas de mais de metade dos portugueses. E francamente já causa náuseas a repetição de estereótipos aberrantes que qualquer pessoa que conheça Portugal em 2019 sabe serem falsos: não somos só pobretes e alegretes, não comemos só sardinhas com tinto carraspão, não nos lamuriamos pelos cantos lamentando a impotência e ouvindo um faduncho. Somos diversos e inclassificáveis, cidadãos de pleno direito neste mundo.

Este ano celebra-se o centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner, tornando a homenagem luxemburguesa ainda um pouco mais bela. Ela talvez concordasse, mas deixando entrever a vida de asfixia: o seu primeiro livro, escrito em 1944, termina com: "Por mais bela que seja cada coisa/ Tem um monstro em si suspenso." Para Sophia, a liberdade era ânsia e projecto de vida pelo qual lutou como oposicionista activa do regime. E essa liberdade chegou numa manhã de Abril, que apoetisa descreveu em "O nome das coisas", com palavras que sempre darão arrepios:

"Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo"


Notícias relacionadas

Déi Lénk nega ter associado Amália ao fascismo, mas foi a primeira razão que invocou
O partido Déi Lénk divulgou um comunicado na sexta-feira em que desmente ter invocado a associação de Amália com o regime de Salazar para afastar o nome da fadista, proposto para nomear uma rua pela comissão de integração de Differdange, de que fazem parte imigrantes portugueses. Essa foi no entanto uma das razões avançadas pelo porta-voz do partido em entrevista ao Contacto.
Gary Diderich
Cantora belga de origem portuguesa: Wendy Nazaré estreia-se em concerto no Luxemburgo
É uma das novas promessas da música pop-folk e fala português. Wendy Nazaré tem dois álbuns editados na Bélgica – “Pas de pareil” (2009) e “À tire d’ailes” (2012) – e vai estar pela primeira vez no Luxemburgo no próximo sábado, dia 29 de Novembro, na Kulturfabrik. Para Wendy, o concerto vai ser um reencontro com o seu lado português.
Wendy Nazaré e a sua música são o resultado de uma mestiçagem com influências de vários cantos do mundo