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Opinião. A generosa Amália
Editorial Luxemburgo 3 min. 23.05.2019

Opinião. A generosa Amália

Opinião. A generosa Amália

Foto: Contacto
Editorial Luxemburgo 3 min. 23.05.2019

Opinião. A generosa Amália

Sérgio Ferreira Borges
Sérgio Ferreira Borges
Leio no Contacto que a autarquia de Differdange recusou o nome de Amália Rodrigues para a toponímia local, por uma suposta ligação da fadista ao regime fascista. O assunto pode não ser tão simples como parece.

Leio no Contacto que a autarquia de Differdange recusou o nome de Amália Rodrigues para a toponímia local, por uma suposta ligação da fadista ao regime fascista. O assunto pode não ser tão simples como parece.

Amália nunca foi uma anti-fascista, nunca se opôs ao Estado Novo. Era uma mulher despolitizada, que nasceu num meio onde sempre foi venerada a autoridade do Estado, fosse ele qual fosse. Por isso, nunca ousou criticar o salazarismo. Por sua casa, passou muita gente, de diversas ideologias e com diferentes compromissos. Muitos fascistas, é certo, mas muitos opositores de Salazar, é indesmentível. 

Um dia, convidou Carlos Paredes para ir à sua casa da Rua de S. Bento. Queria que o grande mestre tocasse alguma da sua obra, para umas visitas ilustres.

Carlos Paredes lá foi, com o indispensável Fernando Alvim. Ao cimo daquelas escadas, deparou-se com o imponente retrato da artista, pintado por Luís Pinto-Coelho. Era a primeira coisa que se via, quando ali se chegava. Paredes já o conhecia, mas não se cansava de o admirar. Pousou a guitarra junto do piano, situado do lado oposto. E começou a volta à sala, para cumprimentar os circunstantes. Reparou então que, um deles, era o senador brasileiro de extrema-direita Carlos Lacerda, apoiante da tortura de anti-fascistas no seu país.

Carlos Paredes recuou, evitou o cumprimento e requereu a Amália uma pequena conversa, a sós. Explicou-lhe que não podia tocar para um homem como Carlos Lacerda. O resto da conversa, que me foi contada por Carlos Paredes e anos mais tarde confirmada pela própria Amália, não correu nada bem. Amália não compreendia como um simples guitarrista se podia escusar a tocar para tão ilustre criatura. As relações entre ambos não mais se consertaram.


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Mas há outra Amália. Aquela que um dia recebeu o poeta José Carlos Ary dos Santos e o jornalista Ruben de Carvalho. Mais íntimo, foi Ary que começou a conversa. Iam ali para lhe pedir dinheiro para as famílias dos presos políticos, que passavam por necessidades dramáticas. Amália disse que, no momento, não tinha dinheiro disponível, mas fazia questão de ajudar. Tirou os brincos, duas pulseiras, o relógio e deu-lhes. Ausentou-se por uns minutos e regressou com um cordão de ouro que lhes passou para a mão. "Acham que isto pode ajudar alguém?"– perguntou. Foi Ary dos Santos quem me contou este episódio.

O seu compositor predileto, Alain Oulman, foi preso pela PIDE, em 1966, e Amália bateu a todas as portas, protestando contra a arbitrariedade. A censura retirou-lhe do mercado, pelo menos, duas obras, a "Mãe preta" e o "Fado de Peniche". Em 1971, contra os conselhos de muita gente, gravou fados com música de Alain Oulman e poemas de Manuel Alegre, há muito proscrito pelo regime. Amália tinha coragem suficiente para atitudes destas.

Verdade é que o regime precisou dela e usou-a, explorou-a, até aos limites do concebível. Mas Amália nunca se serviu do regime. O seu talento permitia-lhe viver sem as benesses do regime. Depois de alguma excitação inicial, como foi o cerco à sua casa, a democracia acabou por aceitar Amália, na imensa complexidade da sua personalidade. Muitas vezes irascível, com uma enorme falta de paciência, mas intuitiva e inteligente. Sempre generosa, com uma enorme sensibilidade para com adesdita alheia. Pensava muito nos outros, nos que mais precisam.

Algures nos anos 80 do século passado, a saudosa locutora Maria Leonor, já muito doente, "ordenou-me" que fosse a casa da Amália, pedir-lhe que cantasse, de borla, na gala da Unicef, no Coliseu. Azar, a gala calhava no aniversário de Amália e estava marcado um grande jantar lá em casa. Meditou por uns segundos e disparou: "aí tenho de ir". Aliviado, perguntei-lhe como resolveríamos o 'cachet' dos guitarristas. "Eles têm de ganhar, porque não têm culpa das minhas borlas. Mas eu pago o 'cachet' deles".

Não pretendo branquear nada, nem ninguém, embora me custe aceitar que alguém ainda pense que esta mulher foi uma fascista. Mas enfim, talvez haja opiniões melhores que a minha.

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Gary Diderich