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Opinião. A difícil tarefa de aprender luxemburguês
Editorial Luxemburgo 5 min. 10.05.2019

Opinião. A difícil tarefa de aprender luxemburguês

Opinião. A difícil tarefa de aprender luxemburguês

Foto: Lex Kleren
Editorial Luxemburgo 5 min. 10.05.2019

Opinião. A difícil tarefa de aprender luxemburguês

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Sonho com a invenção de um 'chip' para perceber luxemburguês, mas suspeito que, nesse caso, os populistas fariam tudo para o proibir.

Há dois anos participei numa série de 'selfies linguísticas' publicadas no semanário Lëtzebuerger Land, um auto-retrato sobre os idiomas utilizados no Luxemburgo. O exercício fez-me refletir sobre a espinhosa questão linguística no país. Desde o referendo sobre o direito de voto dos estrangeiros nas eleições legislativas, em 2015, que movimentos populistas reclamam a primazia do luxemburguês, uma reivindicação que ataca o multilinguismo histórico no Luxemburgo e serve sobretudo para estigmatizar os quase 48% de estrangeiros. E fez-me pensar também nas minhas dificuldades para aprender luxemburguês, após quase vinte anos no país. 

Tenho a sorte de ter aulas no meu local de trabalho, uma facilidade que não está ao alcance da maioria dos estrangeiros, que têm de se inscrever nos concorridos cursos pós-laborais e conseguir tempo para o fazer. Fiz uma primeira tentativa de aprender luxemburguês em 2007 e recomecei as aulas em 2017. Dois anos depois, com duas aulas por semana no último ano, continuo com um nível básico, suficiente para perceber apenas algumas frases, se conhecer o contexto. As mais das vezes, quando encontro palavras em luxemburguês, sinto-me como quem vê uma cara vagamente familiar na rua: reconheço-a de algum lado, mas não consigo lembrar-me de quem é - isto é, do que a palavra quer dizer. Por isso, os testes de luxemburguês (tenho mais um para a semana) continuam a provocar-me um terror que não me lembro de ter sentido sequer nas orais na Faculdade de Direito de Coimbra. 

Tenho a sorte de ter também uma excelente professora, uma pessoa culta e interessada, que não reduz o ensino à aridez da gramática: uma língua é também uma cultura e uma visão do mundo. A primeira vez que tive vontade de aprender luxemburguês foi para tentar perceber as letras do cantor e compositor Serge Tonnar, um dos artistas mais interessantes neste país. E é um prazer perceber algumas palavras ou poder dizer algumas frases em luxemburguês, de forma ainda canhestra, com péssima pronúncia e muitas hesitações - uma tentativa a que a maioria dos luxemburgueses reage com simpatia, como nós quando alguém tenta falar a nossa língua materna. Mas é também uma frustração continuar a ter um nível tão incipiente depois de tantas aulas, a milhas da fluência que me permitiria perceber tudo o que é dito. 

A verdade é que, tal como a maioria dos estrangeiros, tenho muito poucas ocasiões de praticar. Ao contrário do que se passa num país monolingue, no Luxemburgo não há uma verdadeira situação de imersão linguística, e os idiomas usados dependem em grande parte da profissão e do círculo familiar. É frustrante ouvir dizer que "os estrangeiros não se esforçam" por aprender o idioma caro aos luxemburgueses, uma acusação repetida nas redes sociais e pelos populistas, e não é sequer verdade. Todos os anos milhares de pessoas se inscrevem nos cursos de luxemburguês no Instituto Nacional de Línguas. Mas aprender luxemburguês em adulto, como sabe quem tentou, não é fácil, sobretudo para um imigrante romanófono. Acresce que, para quem chega ao Luxemburgo, a primeira necessidade é aprender francês, o idioma mais falado no país e o mais pedido no mercado de trabalho. Conheço trabalhadores da construção que tentaram aprender francês, e imagino as dificuldades de quem o tenta fazer no final de uma jornada dura de trabalho. Acusá-los de "não fazer esforços" é um insulto e uma imbecilidade. Todos os estrangeiros fazem esforços de adaptação a uma realidade diferente da sua: um recém-chegado ao país tem de navegar num labirinto de línguas e locais diferentes, da escola para os filhos ao supermercado, e aprender a descodificar usos e costumes e exigências legais.  

A segunda geração de portugueses fala luxemburguês, e há mesmo alguns da primeira geração que o aprenderam, apesar dos constrangimentos e dificuldades, as mais das vezes porque trabalharam num ambiente em que o ouviam com frequência ou em que ele era pedido, como em cafés. Merecem a nossa admiração. Mas é profundamente injusto apontar o dedo a quem não o fala, num país com três idiomas oficiais e com políticas linguísticas ambivalentes: se por um lado é exigido aos adultos que o aprendam para obter a nacionalidade ou aceder à Função Pública, por outro continua a ser considerado uma língua insuficientemente desenvolvida para escolarizar as crianças ou para escrever a legislação. 

Numa sátira que escreveu a propósito do referendo de 2015, o escritor francês Claude Frisoni dizia que a defesa agressiva do luxemburguês (no livro, o “bislama”) tinha como verdadeiro objetivo “dar mais importância ao que nos diferencia, mas sobretudo ao que nos tranquiliza, nos dá um sentimento de sermos únicos, de sermos mais fortes”. É que, como observava uma das personagens do livro, falar o idioma local é a única coisa “que ninguém no mundo faz melhor" que um nacional: até “uma criança de cinco anos fala melhor que qualquer professor universitário, investigador, filósofo [ou] génio de outro país“, e aqueles que aprendem o idioma em adultos “nunca o dominarão tão bem como aqueles que o receberam em herança“. 

Sonho com a invenção de um 'chip' para perceber luxemburguês, mas suspeito que, nesse caso, os populistas fariam tudo para o proibir. Dá mais jeito apontar o dedo aos estrangeiros e acusá-los de "não fazer esforços", ignorando a real situação do país e estigmatizando quase metade da população para obter dividendos políticos. 

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