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Onde está Steve Duarte?
Luxemburgo 6 min. 05.11.2019

Onde está Steve Duarte?

Steve Duarte.

Onde está Steve Duarte?

Steve Duarte.
Luxemburgo 6 min. 05.11.2019

Onde está Steve Duarte?

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
O ataque da Turquia às posições curdas no norte da Síria permitiu a fuga das prisões de centenas de jihadistas do Daesh. O governo do Grão-Ducado admite não saber do paradeiro do português Steve Duarte, que ainda em julho disse numa entrevista à RTP que pretendia ser julgado no Luxemburgo, país onde nasceu. Se conseguir chegar à Europa, é isso mesmo que pode acontecer.

 O Luxemburgo não faz ideia de onde pára Steve Amieiro Duarte, jihadista de origem portuguesa que nasceu no Grão-Ducado e aderiu ao Daesh em 2014. Capturado no início deste ano pelas forças curdas em Banghouz, o último reduto da organização terrorista na Síria, Duarte estava detido numa prisão no sudeste do país. Mas o ataque turco às forças do Curdistão, no início de outubro, pode ter virado as peças do tabuleiro.

Versão resumida dos factos: a 9 de outubro, depois de os Estados Unidos anunciarem a retirada do território, o presidente turco Recep Erdogan lançou uma operação militar na Síria contra as milícias curdas das Unidades de Proteção Popular (YPG). Até à intervenção de Moscovo e das tropas do governo sírio, no dia 22, os curdos ,principais aliados de Washington no combate ao terrorismo, viram-se sozinhos e abandonaram muitas das suas posições.

O problema é que os curdos tinham sob custódia cerca de 12 mil prisioneiros do Daesh, e entre estes 2.500 a 3.000 estrangeiros. Na semana passada, o ministro da Defesa russo, Serguey Shoygu, corroborou que o “risco de evasão” de que a ONU tanto se queixava se tinha confirmado: pelo menos 500 fundamentalistas fugiram das prisões e encontram-se agora em parte incerta. E que este número pode ser bem mais elevado.

A procuradoria-geral luxemburguesa pura e simplesmente não sabe se, entre estes homens, está Steve Duarte. “Infelizmente, não sabemos qual é o seu atual paradeiro”, disse Henri Eippers, porta-voz do Ministério Público, ao Contacto. O nosso jornal abordou também o Ministério dos Negócios Estrangeiros português, que se escusou a abrir o jogo: “Não temos nada a declarar sobre este caso específico. A associação ao Estado Islâmico ou a outros grupos terroristas constitui um complexo e sensível problema de segurança para todos os países europeus.”

Esta eventual fuga pode revelar-se uma enorme dor de cabeça para o Grão Ducado. O governo de Bettel tem estado alinhado com a diplomacia francesa, exigindo a criação de um tribunal de guerra específico para os jihadistas do Daesh, à semelhança dos que foram criados no Ruanda e na antiga Jugoslávia. Só que o Luxemburgo emitiu um mandado de captura internacional para Steve Duarte, o que significa que, se o português conseguir chegar à Europa, será detido e julgado nesse país.

Ilustração de Florin Balaban

O lugar onde Duarte estava detido fica próximo da fronteira iraquiana. Como ali existe pena de morte, os acordos de extradição não se aplicam – se tiver fugido e for capturado no Iraque, o português será julgado no território e poderá receber a pena capital. Mas, se atravessar o Mediterrâneo, ou se chegar ao Luxemburgo, o caso muda de figura.

“Steve Duarte nasceu no Luxemburgo, cresceu no Luxemburgo e radicalizou-se no Luxemburgo. Somos por isso obrigados a assumir as nossas responsabilidades”, disse a semana passada a ministra da Justiça Sam Tanson no Parlamento. Duarte tem apenas passaporte português, e à partida não seria provável que pudesse ser extraditado para o Grão-Ducado. Mas o facto de o país ter emitido o mandato de captura abre a porta a uma nova realidade. As declarações de Tanson contradizem diretamente a posição que o ministro dos Negócios Estrangeiros luxemburguês, Jean Asselborn, tinha dado em junho ao Luxemburger Wort: “Steve Duarte é um cidadão português e por isso não é responsabilidade nossa.”

No final de julho, em entrevista à RTP, o jihadista reiterou o que já tinha dito um mês antes ao canal de televisão curdo Rudaw: “Quero ser julgado e cumprir pena no meu país, o Luxemburgo.” Na segunda entrevista assumia algumas culpas: “Mereço ir para a prisão. E depois regressar à minha vida, cuidar dos meus dois filhos.” Duarte casou na Síria com uma francesa de origem argelina. Mas, por outro lado, negou sempre as suspeitas de que tinha colaborado numa execução de prisioneiros do Daesh em 2016.

O possível regresso a casa provoca reações diversas no Luxemburgo. Se por um lado a ministra da Justiça reitera que o país está preparado para o regresso, o CSV desconfia: “É preciso fazer todos os esforços para que Steve Duarte não possa voltar ao Luxemburgo”, disse Laurent Mosar no debate parlamentar de 22 de outubro. “Não sei se o centro penitenciário de Schrassig dispõe de meios para prender uma pessoa com tamanha perigosidade.” Ninguém diz, no entanto, que a emissão de um mandado de captura pelo Ministro tenha sido um erro. Neste caso, a defesa da medida foi feita pelo partido Pirata: “O mandado evitará que, a partir do momento em que entre num país da União, ele possa permanecer à solta e com liberdade de movimentos. E esse era um passo que tinha de ser dado”, disse Sven Clement.

Originário de uma família da Figueira da Foz, Steve Duarte nasceu há 32 anos em terras luxemburguesas e cresceu em Meispelt, no cantão de Capellen. Em 2014, pouco depois de se radicalizar, o Contacto traçou-lhe o perfil. Steve era um rapaz “tímido e calmo”, segundo os seus amigos de infância,“tinha alguns problemas na escola”. Depois de reprovar um ano, mudou-se para a escola de Arlon. Mais tarde, trabalhou numa fábrica de cosméticos.

Gostava de rap e, em 2011, editou um álbum chamado “En Attendant”, pela editora ZobiboZ Records. Sob o nome artístico Pollo, teve no single de estreia o seu maior sucesso: “Un Jeune Lyceen” fala de um massacre numa escola perpretado por um franco-atirador, mas os seus amigos recusam ver na letra algum indício da violência que estava para vir.

É no entanto nesta altura que Duarte se converte ao Islão, começando a frequentar a mesquita de Esch-sur-Alzette. Daí embarcou para a Síria para integrar o Al-Furqan, célula de propaganda do Daesh. Casou, teve dois filhos e adotou o nome Abu Muhadjir Al Portughali. As autoridades desconfiam que, em 2016, era dele o rosto tapado do jihadista que prometeu atacar Portugal e Espanha. Steve negou sempre estas acusações.

 

As autoridades acreditam que este homem é Steve Duarte - e que usou esta arma para matar uma pessoa em 2016 ao serviço do Daesh. O jihadista nega.
As autoridades acreditam que este homem é Steve Duarte - e que usou esta arma para matar uma pessoa em 2016 ao serviço do Daesh. O jihadista nega.
Foto: D.R.

 

À RTP, o português disse que tentara durante três anos abandonar as fileiras da organização terrorista, mas nunca o fizera por medo de represálias. O Daesh nasce em 1999, como cisão da al-Qaeda do Levante (Síria e Iraque), e ganha força em 2003, com a invasão norte-americana do Iraque. Mas é em junho de 2014, ao declarar-se um califado, que o movimento terrorista verdadeiramente cresce – reivindicando autoridade sobre os muçulmanos de todo o mundo. Nesta altura, milhares de estrangeiros engrossam as fileiras da organização para travar uma guerra na Síria e no Iraque, a partir de onde o grupo pretende expandir-se para todo o globo.

A máquina de propaganda do Daesh, que Steve Duarte integrava, semeou o terror global com atentados terroristas, decapitações e execuções sumárias, que eram divulgadas pela internet para todo o planeta. No final de 2015, o Daesh estava no auge, dominava grandes partes do território sírio e iraquiano. Conquistara inclusivamente Mossul, a maior cidade do Curdistão iraquiano e terceira maior do país. Apoiados pelos Estados Unidos da América, os curdos ripostaram e foram conseguindo libertar cada vez mais localidades. Até à queda de uma última povoação: Baghuz, a 23 de março deste ano. Foi nesta altura que o português foi capturado.

No passado sábado, 26 de outubro, Abu Bakr al-Baghdadi, líder do Daesh desde 2013, suicidou-se durante um raide das forças especiais norte-americanas no Norte da Síria. As autoridades desconfiam que o seu sucessor é conhecido como Abdullah Qardash, nome de código “O Professor” ou “O Destruidor”, antigo militar iraquiano leal às tropas de Saddam Hussein que estudou ciências islâmicas na universidade de Mossul e se radicalizou em 2004, quando foi preso pelos soldados de Washington. 


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