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O vírus poliglota chega à terra em que os políticos falam luxemburguês
Editorial Luxemburgo 2 min. 03.03.2020

O vírus poliglota chega à terra em que os políticos falam luxemburguês

O vírus poliglota chega à terra em que os políticos falam luxemburguês

Florin Balaban
Editorial Luxemburgo 2 min. 03.03.2020

O vírus poliglota chega à terra em que os políticos falam luxemburguês

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Não é aceitável que a informação oficial sobre o coronavírus no Grão-Ducado seja apenas dada em luxemburguês. Não se pode ignorar metade dos interessados, como a sua vida e das suas famílias fossem menos iguais, para o Estado luxemburguês, que todas as restantes.

O governo do Luxemburgo, quando anunciou ao mundo o começo dos transportes públicos gratuitos, deu uma conferência de imprensa com tradução simultânea em francês, alemão e inglês e, a pedido, para espanhol. Esse mesmo executivo quando convocou a comunicação social, com caráter de urgência, para alertar a população da chegada do coronavírus ao Grão-Ducado falou numa língua que metade das pessoas que vivem no Luxemburgo não entende. 

 O idioma é um símbolo de identidade, mas é sobretudo um veículo de comunicação. O Luxemburgo não deixa de ser o Luxemburgo e a sua rica história não se perde se for usada também uma das outras duas línguas oficiais do país, que é entendida pela grande maioria dos residentes: o francês. 

Ao insistirem em comunicar unicamente em luxemburguês, num assunto de vida e de morte, os governantes demonstram a falta de atenção que metade da população lhes merece. O mais grave é que nem se dão conta disso. Não percebem que o luxemburguês só pode ser um instrumento de integração para a parte das pessoas que o domina. Para os outros, o luxemburguês pode ser um mecanismo de exclusão se não for bem empregue. 

 Metade das pessoas que vivem neste país é privada do acesso às discussões parlamentares que traçam o seu destino: não só não podem votar, como não entendem o que lá se discute. 

 É verdade que a imprensa em língua francesa, alemã e portuguesa tenta contribuir para ultrapassar esta barreira, mas as pessoas devem ter o direito a aceder em direto, sem mediações, ao que se decide sobre elas. Todos os debates parlamentares deviam ter tradução nas três línguas oficiais do país. Isso significa naturalmente um custo económico, mas é um peso infinitamente menor do que deixar de fora da cidadania mais de metade da população. 

 Se isso é verdade quando construímos vida, é ainda mais imperativo quando se quer evitar mortes. Não é aceitável que a informação oficial sobre o coronavírus no Grão-Ducado seja apenas dada em luxemburguês. Não se pode ignorar metade dos interessados, como a sua vida e das suas famílias fossem menos iguais, para o Estado luxemburguês, que todas as restantes. 

É compreensível num país em que metade das pessoas são estrangeiras, em que o seu número cresce 10 mil imigrantes por ano, que os luxemburgueses se preocupem com a sua identidade. Mas a identidade do Grão-Ducado foi construída na diversidade cultural muito antes da chegada dos imigrantes. A existência de três línguas oficiais é a prova desses múltiplos cruzamentos. É preciso dizer que a identidade de um país se faz em diálogo enriquecedor com todos os que aí vivem. 

É importante haver boas políticas de integração para vivermos juntos. Mas é preciso esclarecer que isso não se pode confundir com assimilação. A riqueza de um território está na diversidade das pessoas que o habitam. Qualquer imposição de uma cultura em relação às outras é uma forma de liquidar esse capital.

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