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O turismo reabre, mas em sobressalto

  • Ascensão e queda
  • Crescimento interrompido
  • Um derradeiro esforço
  • O pontapé possível
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O turismo reabre, mas em sobressalto

O turismo reabre, mas em sobressalto

O turismo reabre, mas em sobressalto


por Ricardo J. RODRIGUES/ 29.05.2020

Foto: António Pires

Em Vianden, coração turístico do Grão-Ducado, donos de lojas de souvenirs, restaurantes e hotéis contam os minutos para poderem voltar a abrir portas. Sabem que 2020 vai ser um ano perdido, mas o que verdadeiramente temem é que nada volte a ser como antes.

Ana Roleira é dona do Café de la Poste, em Vianden. Está com medo do que possa acontecer no fim do ano. "Trabalhamos no verão para viver no inverno."
Foto: António Pires

Se vier uma segunda vaga de coronavirus é que é o diabo, suspira Ana Roleiro enquanto pega num banco alto de madeira e o coloca por cima do balcão. Repete o gesto uma dúzia de vezes – o Café de la Poste, em Vianden, segue fechado há dois meses e meio mas todos os dias a dona da casa faz a limpeza do espaço. “Eu agora já só penso em quando é que posso abrir isto outra vez”, e agarra-se à esfregona para a passar pelo chão. “Assim pronto, vou continuando a preparar tudo e, quando tiver autorização, já levo as coisas adiantadas.”

A pandemia veio tirar o tapete ao setor do turismo e, no Luxemburgo, há poucos lugares onde isso seja tão visível como em Vianden. A tradição manda que, da Páscoa aos Finados, a cidade se encha de visitantes. Mas, ainda que os dias desta primavera de 2020 estejam a ser gloriosos, as ruas permanecem desertas e os estabelecimentos fechados.

Quando na segunda-feira, 25 de maio, o primeiro-ministro Xavier Bettel anunciou a abertura dos cafés, bares e restaurantes (as esplanadas a partir de quarta, 27, o interior dos espaços a partir de sexta, 29), houve uma alegria contida. Os negócios podem recomeçar a funcionar, sim, mas será que os clientes vão aparecer?

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Ascensão e queda
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Vianden é um dos mais reconhecíveis postais turísticos do Luxemburgo.
Foto: António Pires

O turismo estava a crescer nos últimos cinco anos. “No castelo passámos de 180 mil visitantes anuais em 2014 para 220 mil em 2019”, diz Claude Tonino, burgomestre de Vianden. “O teleférico foi usado o ano passado por 80 mil pessoas. E estávamos a investir para trazer mais gente, com obras de restruturação na piscina e no parque de caravanismo. Também temos um projeto para recuperar um antigo mosteiro e torná-lo em pousada da juventude.” E depois veio a Covid-19.

Claude Tonino, burgomestre de Vianden.
Claude Tonino, burgomestre de Vianden.
Foto: António Pires

Tonino propõe uma volta pelo parque que circunda a cidade. A dedo aponta a muralha que envolve o casario. “Temos aqui três tipos de turista – os que vêm apenas um dia para visitar o castelo, os que ficam mais tempo para explorar a natureza e os motards.” Ao fundo ouve-se de facto o ruído dos motores e, no feriado da Ascensão, as ruas encheram-se de motorizadas alemãs que passaram a fronteira e vieram ensaiar no Luxemburgo uma espécie de espreguiçar de desconfinamento. À porta do Café de La Poste, Ana Roleiro abanava a cabeça. “Até parece que quer vir gente. Que pena que não os possamos servir.”

O autarca, como a maioria dos comerciantes, teme que o fascínio das viagens dê lugar ao medo. “Um quarto dos visitantes de Vianden são holandeses, que vêm passar os fins de semana na montanha porque não as há nos Países Baixos. É para eles que temos de apontar as baterias”, opina. “Precisamos de um turismo qualificado, que fique mais tempo.” A sua teoria é esta: depois da pandemia, os turistas vão ter medo de andar aos magotes. Então é bem provável que haja menos filas para o castelo, menos concentrações motards ao fim de semana – e mais casais e famílias a hospedar-se durante dias. “Apostar na qualidade, não na quantidade, é neste momento a melhor garantia.”

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Crescimento interrompido
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Há 80 mil pessoas a utilizar anualmente o teleférico de Vianden. Mas não em 2020.
Há 80 mil pessoas a utilizar anualmente o teleférico de Vianden. Mas não em 2020.
Foto: António Pires

A última década tem sido positiva para o turismo luxemburguês. De acordo com ao Statec, o número de dormidas dos visitantes estrangeiros no país tem aumentado consistentemente – em 2018, os últimos dados disponíveis, passou a barreira dos três milhões. O setor representa 6,5% do Produto Interno Bruto e dá emprego a mais de 20 mil pessoas no Grão-Ducado.

Na região de Vianden, o crescimento é de 4% ao ano. Um quarto dos turistas que aqui chegam – 56 mil - são holandeses, depois vêm 30 mil alemães, 17 mil belgas e 10 mil norte-americanos. Portugueses são apenas 5.700 mas, como explica o presidente do município, são essenciais para fazer o setor funcionar. “A maioria dos hotéis, restaurantes e lojas estão em mãos luxemburguesas, mas nos portugueses está o grosso da força de trabalho.” São os empregados dos cafés, os funcionários das lojas, as senhoras que limpam os quartos nos hotéis.

Os portugueses são o grosso dos mais de 20 mil trabalhadores do setor turístico no Luxemburgo.
Os portugueses são o grosso dos mais de 20 mil trabalhadores do setor turístico no Luxemburgo.
Foto: António Pires

Quando foi decretado o estado de emergência, houve medidas de apoio para o turismo. Cafés, bares e restaurantes tiveram direito a candidatar-se a ajudas a fundo perdido, e o Governo garante que os empregados tenham os ordenados pagos até ao fim do ano. Para reativar as dormidas em hotéis e parques de campismo, o Governo prometeu oferecer um voucher de 50 euros a cada residente, incluíndo os transfronteiriços. “São boas medidas, que não nos deixam cair no imediato”, diz a dona do Café de la Poste. “Mas aqui somos como a formiga, amealhamos de verão para aguentar o inverno.” Nos dias frios não são poucas as vezes em que chega ao fim do dia com uma caixa de 40 euros, num domingo estival é bem capaz de chegar aos 800. “E agora diga-me lá, se este verão está perdido como é que vai ser o nosso janeiro?” Encolhe outra vez os ombros e abana a cabeça. “Só rezo para que os turistas venham.”

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Um derradeiro esforço
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A loja de souvenirs de Sylvie está em liquidação total.
Foto: António Pires

A loja de souvenirs de Sylvie Hut está em liquidação total. Fica na parte baixa de Vianden, junto à margem do rio Our, ao lado das esplanadas que nesta altura do ano costumavam estar cheias de gente. “Oh, agora só quero que o desconfinamento avance para vender as últimas coisas e fechar as portas.” As prateleiras estão já meio vazias. Há imans com o nome da cidade, autocolantes com o brasão de armas de Vianden, canecas e copos onde foi impressa a fachada do castelo.

“Os meus pais abriram esta loja há 60 anos, quando eu tinha sete. Toda a minha vida girou à volta deste lugar”, diz, e roda o olhar pelo espaço, como se quisesse guardá-lo na memória antes da despedida. Está reformada há uns anos, e sabia que mais tarde ou mais cedo lhe faltariam forças e paciência para continuar atrás do balcão. Agora a pandemia veio acelerar tudo. 

Numa loja de souvenirs prestes a fechar portas para sempre.
Numa loja de souvenirs prestes a fechar portas para sempre.
Foto: António Pires

 Sylvie Huss está afinal numa idade de risco, e nos dias de maior movimento mais de uma centena de pessoas entram-lhe pela porta adentro. “Além disso tomo conta da minha mãe, que tem 90 anos”, diz. Então como é que ela pode continuar a vender souvenirs aos turistas se isso é um risco tremendo? “É triste fechar as portas, mas é ainda mais triste ver a cidade vazia.”

Tem a convicção de que vêm aí tempos duros para a comunidade onde cresceu. “Desde pequena que me habituei aos magotes de gente e agora tenho sérias dúvidas de que as coisas voltem ao normal.” Os grupos de idosos provavelmente vão deixar de aparecer, disso ela está certa. “Eram metade do turismo.” Mesmo os novos vão redobrar cuidados. “Ainda que eu mantivesse o negócio da minha família, as probabilidades de ele deixar de ser viável eram muitas.” E depois corrige-se a si mesma: “Aliás, eram todas.”

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O pontapé possível
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O Hotel Victor Hugo, o busto do escritor francês e Ben Kraus à espera dos turistas.
O Hotel Victor Hugo, o busto do escritor francês e Ben Kraus à espera dos turistas.
Foto: António Pires

Está um rapaz loiro, de cabelo comprido atado num rabo de cavalo, a limpar o passeio à mangueirada. “Oh, estamos mais do que a postos para a reabertura”, diz Ben Kraus, 27 anos. Ele é o filho dos donos do Hotel Victor Hugo, que há dois meses e meio não tem nenhum dos 30 quartos ocupados. Fica mesmo junto à ponte do rio Our, diante da estátua do escritor francês, e do outro lado da rua da sua casa-museu.

Victor Hugo, autor de "Os Miseráveis" ou "O Corcunda de Notre-Dame", passou aqui largas temporadas entre 1862 e 1871. Em Vianden admirava não apenas o castelo como a floresta montanhosa que a rodeava, e “a pequena aldeia de casas pobres com telhados de colmo”. Aqui escreveu durante meses um poema que neste momento soa a ironia: "L’Année Terrible" – o Ano Terrível, e onde se pode ler este trecho: “Sinto a vergonha de crescer. Uma praga desce, outra sobe. Não importa, temos de continuar. A história precisa disso. Este século está no banco dos réus e eu sou a sua testemunha.”

Ben não conhece o poema, mas também pensa no que será este século. “Cresci aqui a minha vida toda. Havia tantas gente que se fechava a Grand Rue só para peões, e havia milhares de pessoas a subir e descer a colina durante todo o dia.” Este vazio arrepia-o, não reconhece nas ruas vazias o seu Luxemburgo. “A minha mãe diz que o medo vai mudar tudo, que nem na esplanada os turistas se vão querer sentar. E eu respondio-lhe que temos de dar o pontapé nesta crise, que é a maior que alguma vez vivemos. A partir de quarta feira, mesmo que o trabalho escasseie, vou ficar aqui na esplanada a torrar ao sol. Para ver se inspiro mais gente sentar-se também.”

Foi a única solução de que se lembrou e é com ela que responde à angustia dos pais. Nas ruas de Vianden as portas começam lentamente a abrir-se. Agora só falta os turistas virem.

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