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O retrato de um Luxemburgo em crise após o confinamento
Luxemburgo 5 min. 15.04.2020

O retrato de um Luxemburgo em crise após o confinamento

O retrato de um Luxemburgo em crise após o confinamento

Luxemburgo 5 min. 15.04.2020

O retrato de um Luxemburgo em crise após o confinamento

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Quais serão os trabalhadores mais afetados pela pandemia? Como ficará a economia do país? E ao rendimento das famílias? Um grupo de especialistas dá as respostas.

Ao todo são 27 Investigadores e economistas internacionais que trabalham no Luxemburgo, no Statec, no Liser e na Universidade do Luxemburgo que foram convidados pelo Research Luxembourg a criar a task force RECOVid, um grupo especial para analisar os efeitos da pandemia da Covid-19 na economia luxemburguesa. 

As primeiras estimativas agora divulgadas não são nada animadoras. Baixa produtividade, queda bruta do PIB, aumento de desigualdades sociais e famílias em dificuldade são alguns dos cenários apontados por este grupo. Os efeitos desta crise sanitária “poderão ser persistentes”, estimam.

Para minorar estas repercussões os apoios económicos do estado ainda nesta fase atual são muito importantes, devendo-se estender após o isolamento social.


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A duração do confinamento terá um peso importante na recuperação económica do país, declara este grupo de trabalho. 

“O confinamento pode reduzir a produção mensal do país entre 28% a 42%”, indicam estes investigadores no primeiro documento de trabalho. E esta percentagem depende também do estado da economia internacional e das políticas de apoio económico do país, frisam.

“Cada mês de isolamento provoca uma redução entre 2,0% a 3.5% do PIB anual do Luxemburgo”, refere a task force que analisou as economias de países como a Itália ou China que estão numa fase mais avança da pandemia. Ao mesmo tempo, a Europa já prepara a saída do confinamento, bem como o Luxemburgo.

O primeiro-ministro anunciou hoje que as empresas e serviços da construção civil vão recomeçar a funcionar a 20 de abril.

Custos altos do confinamento

Os custos da crise da Covid-19 são altos. “Dois mil milhões de euros são perdidos por cada mês de confinamento”. Sem apoios do estado e se esta medida de restrição durar dois a três meses, o prejuízo causado seria de 3,9 a 5,7 mil milhões de euros, lê-se no documento.

O estado de emergência já está a afetar milhares de trabalhadores, sobretudo o dos setores que foram encerrados como o da construção civil ou a restauração que se viu obrigada a fechar as portas. 


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O peso do custo da habitação

A perda de rendimentos já visível pode acentuar as desigualdades sociais, defendem os investigadores. Além de que os setores mais afetados são também aqueles que oferecem salários mais baixos. E quando mais durarem as medidas restritivas maior serão os problemas económicos de muitas famílias.

Os custos das rendas das casas, ou da mensalidade dos empréstimos para habitação, que antes da pandemia já era responsável pela maior fatia do orçamento familiar é um dos encargos que será mais difícil das famílias gerirem. E não só as mais pobres.

“No contexto dos elevados preços da habitação no Luxemburgo, esta pode ser uma questão não apenas para famílias que vivem com baixos rendimentos, mas também com uma distribuição de rendimentos muito mais elevada”, refere o documento.

Perdas totais na restauração

A task-force vai mais longe e traça estimativas de perdas em cada setor durante o confinamento. Na restauração e hotelaria as perdas das receitas podem ser totais, de 100%, uma vez que está tudo encerrado.  

Na construção civil, bem como nos serviços de comércio grossista, retalhista e de reparação, as receitas podem diminuir em 90%. Metade da indústria transformadora, tal como os serviços de transporte e armazém, podem ser afetadas. Os setores menos afetados, segundo os investigadores serão o imobiliário, serviços administrativos e de apoio, com perdas de 20%.


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“A principal preocupação com efeitos da crise - para além dos riscos para a saúde é, provavelmente o receio das pessoas em percam o seu emprego e/ou de verem o seu rendimento diminuir”, o que se agrava com a duração do confinamento, ressalva o documento.

A quem compensa o teletrabalho

E, se para uns, esta medida restritiva até pode compensar ao nível do rendimento, para outros significa grandes perdas. Um funcionário público que esteja em casa em teletrabalho, consegue poupar nos gastos da deslocação para o trabalho e nas refeições, por exemplo. Já para os trabalhadores da construção civil ou restauração, que estão encerrados, ou de serviços que não podem ser realizados à distância, como cuidados pessoais, ou operadores de máquinas industriais poderão sofrer quebras nos rendimentos. Para não falar dos trabalhadores com contratos de trabalho inseguros ou a curto prazo, que são muitos.

Os transfronteiriços

O alívio do confinamento e o regresso ao trabalho é também analisado pelo RECOVid. A realização dos testes sanguíneos para perceber a imunidade da população e preparar o retorno à vida ativa, tidos como medida fundamental, serão mais difíceis de dar respostas no Luxemburgo, devido ao número de trabalhadores que são transfronteiriços, apontam os investigadores. E isso pode comprometer o rápido regresso ao trabalho, dizem.


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O grupo alerta que os cenários traçados são baseados em estimativas, pois ainda não se sabe os reais prejuízos, e quebras de produtividade e quantos são com rigor os trabalhadores afetados.

Do ponto de vista económico, a crise atual não pode ser comparada com a crise financeira de 2008, porque é completamente diferente e poderá ter maiores prejuízos. A crise da pandemia está a provocar “uma crise imediata na economia real". Nos piores cenários pode gerar um colapso financeiro e os seus efeitos serem persistentes.

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