Escolha as suas informações

O religioso luxemburguês que defendeu os índios e testemunhou a mortandade da pandemia
Luxemburgo 12 min. 20.12.2020 Do nosso arquivo online

O religioso luxemburguês que defendeu os índios e testemunhou a mortandade da pandemia

O religioso luxemburguês que defendeu os índios e testemunhou a mortandade da pandemia

Luxemburgo 12 min. 20.12.2020 Do nosso arquivo online

O religioso luxemburguês que defendeu os índios e testemunhou a mortandade da pandemia

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
“Quem trouxe ao Maranhão a praga dos holandeses, a praga das bexigas, a fome e a esterilidade?”, perguntava o padre António Vieira. No centro da denúncia deste choque mortal entre dois mundos estava o padre português e o seu sucessor luxemburguês. Conheça a vida pouco conhecida deste religioso do Grão-Ducado que defendeu os indígenas.

“Estava o Maranhão ardendo com a peste das bexigas, de sorte que muitas vezes faziam os padres missionários as covas com suas próprias mãos para enterrar os mortos, por haver aldeias onde não se achavam dois índios em pé e deixaram os pais os filhos, fugindo para o mato, para lhes não pegar um mal tão pestilencial e não acabarem a mero desamparo por falta do necessário, assim para a cura como para o sustento da vida, e ainda que o zelo dos padres não perdia trabalho nenhum, não se escusando ao perigo que causava este mortal contágio, cujo ar e mau cheiro só bastavam para pegar aos corpos humanos esta peste, que lançava de si um fedor abominável, mudando a cor do índio, de si sobre vermelha, em uma cor tão preta e em alguns com tanta força que lhes iam caindo pedaços de carne; acendia mais esse contágio vir a ser o tempo quente, em que as doenças andam mais acesas”, relatava o religioso Jean-Philippe Bettendorff, que aportuguesou o seu nome nas terras da Amazónia, na sua “Crónica da missão dos padres da Companhia de Jesus no Estado do Maranhão”.

João Felipe Bettendorff é um missionário que merece especial atenção. Segundo o conhecido historiador da Companhia de Jesus, Serafim Leite, Bettendorff era, depois do Padre Antônio Vieira e do Padre Luiz Figueira, a personalidade mais importante da Missão no século XVII. Ele foi o primeiro cronista do Estado do Maranhão e Grão-Pará, onde a Companhia de Jesus atuava de uma forma tão empenhada quanto na região das Sete Missões no sul do Brasil e no Paraguai.

“Por falta de livros tinta e papel, não deixassem de aprender, lhes mandei fazer tinta de carvão e summo de algumas ervas, e com ella escrevia em as folhas grandes de pacobeiras e para lhes facilitar tudo lhes puz um pauzinho na mão por penna, e os ensinei a formar e conhecer as letras assim grandes como pequenas no pó e arêa das praias, com que gostaram tanto que enchiam a aldêa e as praias de letra.”, relatou o prelado.

Cristovão Marinheiro com a tradução em latim dos sermões do Padre António Vieira, datada de 1708.
Cristovão Marinheiro com a tradução em latim dos sermões do Padre António Vieira, datada de 1708.
Foto: António Pires

Cristovão Marinheiro, da Biblioteca Nacional do Luxemburgo, realça a trágica atualidade dos escritos de Bettendorff nos atuais tempos de pandemia: “As passagens sobre doenças que nós pensávamos que eram do passado tornam-se outra vez atuais. Aqui há em comum o jogo da globalização, num momento que uma doença aparece num sítio, ela rapidamente vai para outra parte do mundo.” (ver caixa).

Na segunda metade do século XVII, o jesuíta luxemburguês Jean-Philippe Bettendorff influenciou profundamente a formação da sociedade colonial na Amazónia portuguesa. Foi um defensor da autonomia das aldeias dos indígenas. Uma lei, promulgada em 1686, por sua iniciativa, garantiu a proteção da população indígena das missões e traçou a “linha vermelha” para a política das autoridades portuguesas e depois brasileiras em relação aos indígenas até meados do século XX.

“Havia um problema teológico: Primeiro são selvagens, uma vez que são convertidos passam a ser cristãos. E nessa altura têm a possibilidade de ter uma proteção jurídica e isso para os colonizadores é um problema, porque lhe dão os direitos e eles pertencem a populações maioritariamente escravizadas. Havia portanto a necessidade de encontrar um equilíbrio para permitir que eles trabalhassem para os colonizadores e ao mesmo tempo dar-lhes certas proteções jurídicas. O problema é pragmático, os colonizadores que estão lá por uma razão. Bettendorff é enviado para Lisboa, em 84, para defender esse equilíbrio”, explica Cristovão Marinheiro.

Livro sobre o religioso.
Livro sobre o religioso.
Foto: António Pires

Nascido no vale de Alzette

Jean-Philippe Bettendorff nasceu a 25 de agosto de 1625 em Lintgen, no vale de Alzette, de uma família abastada e religiosa. O seu pai, Matthieu Andreæ Bettendorff, era um juiz de paz e presidente da câmara da aldeia sob a autoridade da Abadia de St. Maximin em Trier, nessa altura o maior proprietário de terras da região.

Embora nascido num século de guerra constante, o jovem Jean-Philippe adquiriu uma sólida formação humanista. De facto, de 1635 a 1659, viajou por toda a Europa Ocidental. Estudou Humanidades no Colégio Jesuíta no Luxemburgo, Filosofia na Universidade de Trier, Direito Civil na Universidade de Cuneo no Piemonte, o noviciado da Companhia de Jesus em Tournai, estágios pedagógicos em vários colégios jesuítas na Holanda espanhola e, finalmente, Teologia em Douai. Era, já nessa altura, fluente em seis línguas, nomeadamente latim, francês, alemão, italiano, flamengo e espanhol, tendo depois aprendido o português e várias línguas indígenas. Embora sonhasse, como a maioria dos jovens jesuítas, ser enviado para o Oriente, foi designado na primavera de 1659 para a Missão do Maranhão, considerada uma das mais difíceis e ingratas. O Maranhão era nessa altura o nome comum da colónia localizada no norte da América Portuguesa. Corresponde à atual Amazónia brasileira. No outono de 1659, pouco depois da sua ordenação sacerdotal, Jean-Philippe e um confrade de Artois partiram para Portugal. Em Lisboa, o jovem missionário do Luxemburgo aprendeu português e tupi, a língua ameríndia mais falada na América portuguesa.

O luxemburguês trabalhou com Padre António Vieira, na imagem, e sucedeu-lhe.
O luxemburguês trabalhou com Padre António Vieira, na imagem, e sucedeu-lhe.

A 20 de janeiro de 1661, Bettendorff, juntamente com o seu compatriota Gaspar Misch, que se tinha juntado a ele em Lisboa, chegaram à Amazónia, onde passariam o resto das suas vidas. Oito meses após a sua chegada, uma revolta dos colonos levou à expulsão da maioria dos missionários, incluindo o seu superior Padre António Vieira. Em breve Bettendorff foi notado no meio do pequeno grupo que tinham conseguido escapar. De 1662 a 1693, ocupou quase sem interrupção os cargos de reitor do colégio e superior da Missão. Em 1684, após uma segunda revolta dos colonos, foi para Lisboa onde, como procurador, defendeu a causa dos missionários e dos índios cristianizados. Após o seu regresso, procurou completar a consolidação do projeto jesuíta na Amazónia.

O quadro que "mostra" a chegada de Cristovão Colombo ao novo mundo, em 1492.
O quadro que "mostra" a chegada de Cristovão Colombo ao novo mundo, em 1492.

Em 1695, ano de de má lembrança para o Maranhão, a cautela acabou assoberbada pela pressão dos moradores e do comandante, que ansiavam a chegada dos escravos para os pôr ao trabalho e ameaçaram processar as autoridades pelas perdas e danos, caso não viessem embarcações.

“O que parecia ser para remédio dos moradores converteu-se em sua grande ruína”, escreveu o religioso luxemburguês que sucedeu ao padre António Vieira como superior da missão dos jesuítas no estado do Maranhão e Grão-Pará. Ancorado o barco, libertada a carga, “entraram gentes e as febres, que mataram muita gente”, dos mais pobres aos mais influentes.

“Ia morrendo tanta gente dessas moléstias, e, entrando as bexigas, depois deles partidos, morreu gente sem comparação muito mais. Começou o mal pelas bexigas brancas de várias castas, e logo seguiram-se as pretas, a que chamam pele-de-lixa, as bexigas sarampadas e outras dessa casta, muito pestíferas, as quais fizeram tanto estrago nos índios, assim forros como escravos, e mais nos tapanhunos [nome dado aos africanos no Brasil na altura], que é uma dor do coração somente referi-lo; caíram e foram morrendo tantos, que às vezes não havia quem acudisse aos vivos e enterrasse os mortos”, descreveu o missionário.

“São tantos os castigos que se poderiam referir, que para fazer menção deles seriam necessários muitos capítulos; não falo na peste das bexigas, chamadas pele de lixa, com que Deus castigou todo o Estado, depois dos povos se terem levantado contra os padres missionários da Companhia de Jesus, porque este castigo é tão notório que se não pode negar; negou-o contudo um certo religioso que, ouvindo dizer que Deus castigava o Estado por terem os moradores expulsado os padres missionários da Companhia, disse que não os castigara por isso, mas por eles não expulsarem a todos. Deus Nosso Senhor lhe dê arrependimento deste dito seu, antes que parta deste mundo para lhe dar rigorosa conta em o outro.”, escreveu nas suas Crónicas do Maranhão, cerca de dez livros e 682 páginas que rezam a sua missão.

O mesmo navio que introduzira a doença no Maranhão passou a mesma para o Pará. Na ilha de Marajó, a primeira atingida, quase todos os índios sucumbiram. “O mesmo sucedeu aos tupinambases e aos maraguases, havendo dias de adoecerem vinte, trinta, quarenta pessoas”, testemunha Bettendorf.

Morreu de doença hepática a 5 de agosto de 1698 em Belém. Jean-Philippe Bettendorff, consciente da importância da Companhia de Jesus na empobrecida e isolada colónia da Amazónia, também esteve envolvido em muitos outros campos. Como economista pragmático, difundiu o cultivo do cacau para exportação. Como artista dotado, propagou o estilo barroco, através da pintura de retábulos e da construção de igrejas. Como jurista consciencioso, defendeu os direitos dos índios e criticou os governadores e capitães. Finalmente, como missionário cheio de zelo pastoral, escreveu pelo menos quatro catecismos para os índios e fundou irmandades para os colonos. O corpus dos seus escritos inclui uma crónica detalhada da Missão do Maranhão, um catecismo bilingue Português-Tuipi, e uma abundante correspondência oficial com a cúria jesuíta em Roma com cerca de cinquenta cartas. A sua vontade como noviço e as disposições relativas à sua herança são os únicos documentos da sua vasta obra que estão no Luxemburgo.

“A biblioteca do Luxemburgo não tem os originais das suas obras, ele é considerado um autor luxemburguês e no Brasil é um autor brasileiro. Os autógrafos estão onde ele os deixou. Nós aqui no Grão-Ducado só temos um autógrafo que estão nos arquivos nacionais, que é num documento de uma procuração, para poderem gerir os bens, que ele deixa quando parte para Lisboa. Os impressos deles não estão aqui o os originais”, lamenta Cristovão Marinheiro.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.