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O rapaz que sonhou com café
Luxemburgo 6 min. 25.06.2021 Do nosso arquivo online
Portugueses no Luxemburgo

O rapaz que sonhou com café

Portugueses no Luxemburgo

O rapaz que sonhou com café

Fotos: Vasco dos Santos
Luxemburgo 6 min. 25.06.2021 Do nosso arquivo online
Portugueses no Luxemburgo

O rapaz que sonhou com café

Vanessa CASTANHEIRA
Vanessa CASTANHEIRA
Mais do que um vendedor , Vic é um idealista que que quer “democratizar” o café ao permitir que todos tenham a possibilidade de apreciar um café de qualidade.

Há mesas espalhadas pelos passeios junto ao Parc De Strasbourg, na capital, que mostram um ambiente diferente do habital naquela zona. Chávenas e copos de café – frappé ou glacé -, até porque as temperaturas dos últimos dias convidam mais a bebidas frescas do que quentes, denunciam um espaço novo e de outra movida. Na esquina está uma porta aberta. É ali o Bloom, anunciado como “Speciality Coffee and Handcrafted food”. O que não se sabia era que ao balcão, atrás da máquina da café está um português. Chamam-lhe Vic, diz não gostar de dizer o nome e a equipa respeita a decisão. Descobrimos que Vic, mais que um apreciador de café, é um apaixonado por café. Mais que comerciante, é um idealista que que quer “democratizar” o café ao permitir que todos tenham a possibilidade de apreciar um café de qualidade. Não o café que habitualmente tomamos, na fugacidade e urgência diária, mas como uma bebida maior cheia de segredos e histórias que devem ser ouvidas e contadas.

O primeiro café foi tomado aos “cinco ou seis anos, não consigo precisar”, diz. E em tom de brincadeira exclama “isto é mesmo de português!”. Mas a verdadeira paixão começa na adolescência com as primeiras viagens. Dava por si a procurar coffee shops nas cidades por onde passava.

Hoje faz dezenas ou centenas de quilómetros só por um café. Triér fica a apenas 40 quilómetros da capital do Luxemburgo, mas durante seis meses, entre 2019 e 2020, Vic conduziu todos os sábados de manhã até aquela cidade alemã para tomar o seu café. A maioria vai ao café mais próximo ou que até fica em caminho. Também é presença assídua em Antuérpia, que entre os apreciadores de café, é o place to be. Há uma rota de café que é de passagem obrigatória.

Esta paixão por café transformou-se em respeito. Do respeito passou ao sonho. Nascido na Carragozela, na Serra da Estrela, chegou ao Luxemburgo com quatro anos com uma família numerosa. Vic é quarto filho de sete. Estudou e começou a trabalhar na Luxair. À partida tinha a vida estabilizada e o que se chama de emprego para a vida. A empresa permitiu-lhe viajar. Permitiu-lhe alimentar a curiosidade em torno do café. Permitiu-lhe descobrir estilos de vida que iria adotar. E assim se criou o sonho: queria trabalhar com café, queria sentir o cheiro, sabor e toque. Conhecido pela sua paixão, foi convidado a gerir um espaço com que se identificava. Até que num dia, no início de 2020, recebeu um telefonema. “O telemóvel tocou e do outro lado disseram-me que o Bloom estava à venda e se eu tinha interesse em ficar com ele”, conta. Aceitou de imediato, sem pensar muito. O espaço era o que Vic queria e com que se identificava. Via-se lá dentro não apenas como coffee lover, mas também como anfitrião.

Transformou o Bloom ainda mais à sua imagem e de acordo com os seus ideiais. É clean, simples, com madeira a dar também um ambiente robusto. Mudou de café para o The Barn Berlin, que ganhou o prémio de melhor torrefação europeia em 2019. Mais que o prémio, Vic explica que também acredita no modelo de negócio e no valor justo pago pelo café. É aqui que Vic faz viajar para as fazendas sul-americanas e africanas de produção de café e fala dos produtores. Lamenta que a maioria não conheça a origem do café, a forma como é produzido ou que condições têm os produtores, os responsáveis máximos pela qualidade do grão. “A The Barn paga três vezes mais o preço do café e isso é quase que uma homenagem a um produto que deve ser apreciado e tratado como o vinho”, diz “Todos os anos existem as chamadas Special Tea&Coffee que são degustações onde a pontuação máxima de 80 pontos significa entrada direta para a The Barn”, continua. De Berlim vem para o Luxemburgo “e quebram-se cadeias e redes de distribuição que se traduz em maior equidade para o produtor”, esclarece. A título de curiosidade, em 1972 o café era 79% mais caro.

Atrás do balcão ou mais próximo dos clientes Vic submerge-se quando fala sobre café e sobre as suas diferenças. Pega em sacos e pede para sentirem o cheiro. Numa prova às cegas, muitos iam errar e nem saber que se trata de café. “o café tem notas específicas e, por exemplo, o

expresso, é mais soft e frutado que o café de filtro”, explica. Continua com “à medida que o café arrefece, as notas sobressaiem”. E quantas vezes se ouve “o café arrefeceu, já não presta”? Entre os especialistas é errado.

Entre as explicações com café e sacos de café nas mãos ouve-se Vic dizer que um saco tem notas de caramelo, cacau e chocolate e assim não é ácido demais, enquanto outro é mais forte. Questionado porque razão há cafés com aroma de frutas, Vic garante que a flora em redor das plantações determinam muitas vezes as notas dos café. “A planta recolhe tudo o que há em seu redor, parece que aglomera em si a realidade à sua volta e tudo o que está plantado”, garante. Dúvidas houvesse, experimenta-se o Gesha Villa Luciana e as notas que sobressaiem são de pêssego, laranja e jasmin. Mas o café proveniente de Chiapas no México já tem aroma de baunilha e pistacho, enquanto Wush Wush de Huilia na Colômbia mistura um aroma de fruta tropical com cacau.

Para Vic, o Bloom não tem espaço para blends, a mistura de sementes. Prefere saber a origem certa do café que vende. Prefere garantir a especificidade de cada tipo. No fundo, Vic quer que o Bloom seja uma experiência de aromas e sabores que também ultrapassam o café. Quer que quem lá passe tenha uma experiência diferente.Mesmo na cozinha, Vic procura ter uma oferta que se demarca do habitual. Na janela anuncia-se “handcrafted food”, poderia ler-se “comida feita com coração”.

Volta-se ao homem que está ao balcão. Fala um português tímido. Diz-se que pode falar inglês mas acaba por confessar que já está mais à vontade e continua em português. Não é uma renúncia, até porque na conversa vê-se que Vic não tem uma origem, tem várias. Nasceu no meio da Serra da Estrela, cresceu num país europeu central e cedo se familiarizou com várias culturas e identidades. Fala cinco línguas, tem um passaporte. Diz que não se sente só português ou só luxemburguês. No fundo acredita que esta distinção nem faz sentido na Europa atual. É vegatariano. E tem a certeza que os fertilizantes são a garantia de melhor produção e qualidade. Acredita e tem estilos de vida alternativos. E gosta de carros. Diz que “fazem barulho e são rápidos”. O homem que serve café atrás do balcão e que tem pingos de café nas sapatilhas e nas calças é também português.

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