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O problema em cancelar um bailarico

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O problema em cancelar um bailarico

O problema em cancelar um bailarico

O problema em cancelar um bailarico


por Ricardo J. RODRIGUES/ 07.05.2020

Rogério de Oliveira mostra o cartaz de uma festa de verão no parque de Esch. Este ano, dezenas de bailes de emigrantes foram cancelados. Foto: António Pires

Maio e junho são os meses onde as associações de emigrantes organizam as maiores festas e recolhem fundos para apoiar causas sociais nas terras de origem. Para quem vive no interior de Portugal, essa ajuda é determinante. História daquilo que não se vai conseguir fazer por causa da pandemia.

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A interrupção da humanidade
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Amândio Matos, presidente da associação Amigos Emigrantes no Luxemburgo.
Amândio Matos, presidente da associação Amigos Emigrantes no Luxemburgo.
Foto: António Pires

Estavam dois porcos encomendados para assar no espeto, contratos assinados com uma banda de concertinas, outro com os DJs que haveriam de dar som ao bailarico até às três da manhã. O pavilhão do Hall Polyvalent de Schifflange estava marcado há meses, e Amândio Matos andava agora a tratar de arranjar mesas, pratos e talheres para os 500 a 600 comensais que esperava para o repasto. “Custou um bocado ligar a esta gente toda a cancelar as encomendas e os preparativos”, diz o presidente da associação Amigos Emigrantes no Luxemburgo. “Mas não há nada que me tenha doído mais do que telefonar à mãe do Henrique a dizer que tínhamos de adiar o jantar.”

Era para 20 de junho que estava marcado o convívio. Como todos os eventos organizados pela associação, era um jantar solidário, em que os fundos reverteriam a favor de uma criança com um problema grave de saúde. Neste caso Henrique Viriato, um rapaz de seis anos que vive em Figueira dos Cavaleiros, uma freguesia de 1.300 habitantes em Ferreira do Alentejo, e que sofre de paralisia infantil com um grau de 60% de incapacidade.

Henrique Viriato fez uma cirurgia no início de março e agora precisa de prosseguir com os tratamentos médicos.
Henrique Viriato fez uma cirurgia no início de março e agora precisa de prosseguir com os tratamentos médicos.
Foto: DR

“O objetivo era pagar-lhe uma sessão de terapia intensiva de um mês numa clínica especializada em Espinho, e que custa mais de cinco mil euros. Os pais contactaram-nos porque nos últimos três anos têm lutado para dar alternativas ao filho. Vimos os relatórios médicos e os apoios que tinham, consultámos as autoridades locais e os terapeutas. Os tratamentos estão de facto a contrariar o diagnóstico inicial, que condenava a criança a uma cadeira de rodas e a não poder falar”, diz Amândio Matos. Abre um dossier onde tem os casos das crianças que apoia. “Percebemos que aqueles pais estavam mesmo a precisar de ajuda.”

A pandemia trouxe um aperto no coração a Mafalda Marques, mãe de Henrique. A cada três meses, o rapaz faz cinco semanas de terapia do corpo e da fala – o que lhe permite, contrariando as expetativas do diagnóstico aos dois anos e meio, articular palavras e movimentar-se com um andarilho. No início de março, fez uma cirurgia de desprendimento muscular nas pernas. “Se o meu filho interromper os tratamentos agora, vai regredir. E o sonho é que ele ande”, diz por telefone.

A grande fonte de receita para os tratamentos do rapaz são tampas de garrafas, os pais criaram até um sistema de recolha para depois as entregarem numa empresa de reciclagem. “Antes do coronavírus, estávamos a receber uma tonelada por mês. Mas agora só recebemos 20% desse valor”, suspira Mafalda. “Sei muito bem que a restauração vai demorar tempo a voltar ao normal, e é deles que vem a maioria das tampinhas”

O marido é técnico agrícola, ela passou a tomar conta do filho a tempo inteiro. “Aprendi a fazer fisioterapia e faço com ele, desdobro-me por todo o lado a pedir apoios, organizo quermesses”, conta Mafalda. Cada semana que passa é uma batalha para financiar a recuperação de Henrique e, quando soube pela mãe de outra paciente de paralisia infantil que havia uma organização de emigrantes que lhe podia valer, contactou-os no próprio dia. A resposta demorou, mas decidiram apoiá-la. A festa de junho ia permitir pagar a sessão de tratamentos a seguir à operação. Era esse o plano.

Em cinco anos de vida, a associação Amigos Emigrantes apoiou uma vintena de crianças com doenças neurológicas, sobretudo paralisias. Fê-lo sempre da mesma forma: organizando jantares e bailes cujos lucros revertem a favor de um caso que a organização verifica.

“Temos 15 miúdos em lista de espera, por isso sabemos que o nosso trabalho é importante. Há muitos casos em que as pessoas ficam entregues à sua sorte, a Segurança Social não lhes dá mais alternativas. E é aí que nós entramos. Só que agora não podemos, e não sabemos quando vamos poder”, lamenta Amândio Matos, embrulhando as mãos uma na outra.

A maioria das 60 associações de emigrantes portugueses no Luxemburgo são pequenos clubes, grupos de convívio e ranchos folclóricos. Há uma dúzia delas que ao longo do ano organiza bailes para apoiar corporações de bombeiros, lares de terceira idade e crianças com problemas de saúde em Portugal. As maiores festas acontecem em maio e, sobretudo, em junho. Mas, este ano, a pandemia veio trocar-lhes as voltas.

António Valente, vice-presidente do CLAE
Foto: António Pires

As festas da diáspora, de todas as diásporas, estão a ser canceladas na Europa. “E por causa disso há escolas que vão continuar sem telhados, material pedagógico que não vai chegar ao destino, situações de saúde que não vão ser resolvidas”, diz António Valente, vice-presidente do CLAE, ou Comité de Ligação das Associações de Estrangeiros no Luxemburgo. “Temo um efeito bola de neve no cancelamento de apoios sociais, até porque não sabemos quanto tempo durará a pandemia. Então como fazemos para que o confinamento físico não confine também a solidariedade?”

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Geografia emocional
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Fernanda Figueiredo, presidente da Associação Portuguesa de Walferdange
Fernanda Figueiredo, presidente da Associação Portuguesa de Walferdange
Foto: António Pires

As paredes da Associação Portuguesa de Walferdange são um monumento à festa rija. Ali estão pendurados cartazes dos artistas que a organização trouxe ao Luxemburgo ao longo dos últimos 24 anos. Marante e o conjunto Diapasão, Toy, Leandro, os brasileiros Lucas e Matheus. Este ano já estavam os bilhetes de avião comprados para Sandra e Ricardo, um dueto de madeirenses de origem venezuelana que vinham fazer a festa na noite de São João. Os lucros da festa reverteriam a favor de dois irmãos de Valpaços que sofrem de miopatia central, e para pagar três mil máscaras que a associação ia oferecer a lares de terceira idade nas aldeias do Caramulo.

“Temos muitos anos no terreno, o que nos permite ter dinheiro em caixa e vamos cumprir estas ajudas a que já nos tínhamos comprometido. Mas daqui para a frente teremos de parar com os apoios, porque ficámos sem maneira de angariar fundos”, lamenta Fernanda Figueiredo, a presidente da organização, sentada em cima das grandes panelas onde a cada três meses se cozinha um jantar solidário.

Atrás da porta da sede da Associação Portuguesa de Walferdange estão fotografias de pessoas ajudadas pela organização. Quase todas vivem no interior de Portugal.
Atrás da porta da sede da Associação Portuguesa de Walferdange estão fotografias de pessoas ajudadas pela organização. Quase todas vivem no interior de Portugal.
Foto: António Pires

O método com que a Associação Portuguesa de Walferdange encontra os casos obedece acima de tudo a este critério: o conhecimento de terreno. “Somos quase 20 na direção, e cada um vai trazendo casos que conhece nas suas terras, de gente que está em apuros e precisa de ajuda”, explica Fernanda. “Depois decidimos entre todos qual é a prioridade. Às vezes são aparelhos ortopédicos, outras vezes são apoios para as proteções civis locais, outras ainda são reforços para bombeiros e assistência aos mais idosos.” Em 2019, a Associação Portuguesa de Walferdange distribuíu 18.298,49 euros em apoios.

“As organizações portuguesas operam sobretudo nas zonas mais deprimidas e despovoadas do país, que também é onde os apoios sociais menos chegam”, explica António Valente, do CLAE. “Chegam às freguesias mais abandonadas, e aos casos mais invisíveis” Aponta uma explicação para esta tendência: se foi das aldeias que os emigrantes saíram há 50 anos, deixando-as à beira do deserto, é para os mesmos lugares que viram a solidariedade.

A festa faz-se com fumeiro e sardinhas encomendadas do país de origem. No último jantar, no início de março, alargaram o apoio a uma associação guineense que queria reconstruir uma escola destruída numa chuvada (ver caixa). Sócios pagam 25 euros pelo repasto, não-sócios pagam 30, sem as bebidas incluídas. “As pessoas não se importam de dar um pouco mais quando reconhecem que estão a ajudar alguém”, aponta.

Depois das notícias de desvio de apoios em Pedrógão Grande, para onde a associação tinha enviado mil euros, na sequência dos incêndios de 2017, redobraram os cuidados. “O facto de apoiarmos casos nas nossas aldeias de origem também nos permite ir ao terreno, verificar que o dinheiro se vai destinar de facto ao fim que é proposto”, esclarece. “Nunca entregamos dinheiro vivo em mão, antes pagamos uma obra, uma terapia, um equipamento. É a melhor forma de nos defendermos de uma burla. Foi isso que as pessoas sentiram depois de Pedrogão e tivemos de arranjar uma maneira de tornar as coisas transparentes e credíveis.”

Na arca congeladora da associação estavam três leitões e dois pedaços grandes de vitela já reservados para a festa de São João. Na semana passada, Fernanda Figueiredo descongelou os produtos, cortou-os e dividiu-os em 11 sacos, que depois distribuiu por famílias carenciadas no Luxemburgo. No fim sentou-se a olhar para a sua obra, resignada. Está a tentar cumprir um derradeiro ato de justiça com a carne, mas sabe que, pelo menos até ao fim deste ano, já não poderá apoiar ninguém na aldeia. “É precisamente quando as pessoas mais vão precisar de nós que lhes vamos faltar.” Levanta-se, encolhe os ombros e depois começa a arrumar a grande panela onde era suposto cozer o arroz do São João.

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Aprender a respirar
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Conselheiro das comunidades portugueses e presidente de uma das mais antigas associações no Grão-Ducado, Rogério de Oliveira está preocupado com a quebra dos apoios sociais.
Conselheiro das comunidades portugueses e presidente de uma das mais antigas associações no Grão-Ducado, Rogério de Oliveira está preocupado com a quebra dos apoios sociais.
Foto: António Pires

No dia 27 de abril, a secção europeia do Conselho das Comunidades Portuguesas entregou uma moção ao governo português pedindo uma linha de apoio financeiro ao associativismo na diáspora. Lisboa respondeu três dias depois dizendo que ainda era cedo, mas acelerando a entrega dos financiamentos aprovados o ano passado. Rogério de Oliveira não só foi um dos assinantes dessa moção (é um dos dois conselheiros portugueses no Luxemburgo) como preside à Associação Cultural e Humanitária da Bairrada, fundada em 1997. É um decano do associativismo no Grão-Ducado.

“Fomos a primeira associação no país fundada com o objetivo de apoiar causas sociais. Os anos têm-me mostrado que a miséria de que fugi em 1971 continua bem presente em Portugal.” Pega num livro onde estão resumidos os casos que a organização foi apoiando, muitos deles publicados em artigos de jornal. “Ao ajudarmos, também denunciamos situações invisíveis e intoleráveis, tornamo-las incontornáveis.” São causas, diz, são batalhas.

A Associação da Bairrada tem 23 anos, mas continua a ter sede na casa do seu presidente. A maioria das organizações de emigrantes não são subvencionadas.
Foto: António Pires

Mas a pandemia é mesmo um problema. Segundo o Banco de Portugal, em 2019 a emigração no Luxemburgo enviou 112 milhões de euros para casa. “Este número vai reduzir-se drasticamente em 2020, não me restam dúvidas”, diz Rogério de Oliveira. E, para muitas associações de emigrantes, não é apenas o apoio que prestam nos países de origem que está em causa – é a própria sobrevivência.

António Valente, do CLAE, tem consciência de que estão a chegar tempos difíceis: “Muitas associações não são subvencionadas, vivem de jantares, cursos de línguas, passeios, aniversários. Precisam dos eventos para ajudar quem mais precisa. E também para pagarem as contas e se manterem de portas abertas.” Mas não deixa de fazer uma crítica: “Nalguns casos, nos primeiros dias da pandemia, barricaram-se e deixaram de atender telefones, deixando os mais necessitados ao abandono – quando deveriam ser precisamente o veículo de informação sobre como pagar rendas, faturas, compras.” Ou seja, é precisamente numa emergência que as associações são mais necessárias.

Algumas organizações tentam adaptar-se. A Associação da Bairrada e a Santa Casa da Misericórdia no Luxemburgo, por exemplo, estão a organizar uma campanha de recolha de fundos online para comprar ventiladores para os hospitais portugueses. Mas é uma gota do mar de solidariedade que todos os anos se abria nos últimos dias de primavera. A pandemia conseguiu criar este efeito borboleta, em que o cancelamento de um bailarico no Luxemburgo provoca uma tempestade numa aldeia em Portugal.

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Uma escola para Ponta Zé
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A escola de Ponta Zé, na Guiné, tem atualmente paredes abertas e nenhum telhado.
A escola de Ponta Zé, na Guiné, tem atualmente paredes abertas e nenhum telhado.
Foto: Gena Djaló

Gena Djaló está inconsolável. Agora que as coisas estavam a arrancar, pumba, o sonho parece ruir. Quando saiu de Bissau, há 33 anos, prometeu a si própria que só voltaria uma vez por década. “Custava-me demasiado ver a miséria guineense, a maneira como as pessoas, por mais valor que tivessem, não tinham oportunidades de triunfar.” Seguiu para Portugal com duas alternativas: ou se tornava médica ou cabeleireira. Aconteceu a segunda, e com os anos conseguiu abrir o seu próprio salão em Leiria, ganhar a vida de cabeça levantada, por duas filhas na Universidade.

Em 2013 a crise portuguesa não a deixava respirar – 60% da sua clientela era brasileira, e a austeridade estava a fazê-los tornar a casa. Uma prima que morava no Luxemburgo convidou-a a vir conhecer o país. Gostou, percebeu que havia oportunidades, trabalhou para ganhar dinheiro e abriu um salão na avenida da Liberdade. Depois, em 2017, voltou à Guiné, onde não ia há dez anos.

Gena Djaló, presidente da Associação Coração da Guiné-Bissau.
Gena Djaló, presidente da Associação Coração da Guiné-Bissau.
Foto: António Pires

“Um dia o meu irmão levou-me a ver a escola de Ponta Zé, uma povoação de pescadores a 11 quilómetros de Bissau, que tinha ficado destruída durante as cheias”, conta. Muitas das crianças que ali estudavam caminhavam uma dezena de quilómetros por dia para ir aprender a ser gente, e outros tantos no retorno a casa. “E agora não tinham telhado nem paredes para os abrigar, não havia um quadro na parede, nada. E eu só pensava que no meio daqueles miúdos podia estar alguém com capacidade de mudar o mundo, mas sem qualquer oportunidade para fazê-lo.”

No ano seguinte passou várias noites sem dormir a pensar naquilo, até que um dia acordou decidida a fazer algo. Começou a congeminar a construção de uma escola nova, pediu um projeto de arquitetura, um orçamento para as obras. Agora havia uma perspetiva, e custava 55 mil euros edificá-la. No início deste ano, pagou uma viagem do seu bolso à Guiné para encetar contactos com o ministério da Educação. Conseguiu certificação do governo: a escola era um bom plano e uma benção.

Tinha uma cliente no cabeleireiro que fazia parte da direção da Associação Portuguesa de Walferdange. “Combinei um encontro com a presidente para perceber qual era a melhor forma de ajudar e ela foi incansável no aconselhamento. No último jantar-convívio que eles fizeram, entregaram dois mil euros à minha casusa. As coisas estavam a compor-se.

O projeto arquitetónico da escola que Gena Djaló quer construir na Guiné-Bissau.
O projeto arquitetónico da escola que Gena Djaló quer construir na Guiné-Bissau.
Foto: António Pires

 Explicaram-lhe que lutar sozinha era inglório, tudo seria mais transparente se ela criasse uma associação. Então, no dia 7 de março, nasceu a Coração na Guiné. “Tínhamos planeado um piquenique solidário a 23 de junho, dia da festa nacional do Luxemburgo. Ainda não tínhamos dinheiro para as fundações, mas esperávamos tê-lo depois da época das chuvas, em outubro.” Só que dias depois de abrir a sua organização de solidariedade, veio a pandemia roubar paredes e telhado ao seu projeto. Gena está inconsolável. Não sabe o que fazer, mas sabe que, dê por onde der, vai construir uma escola em Ponta Zé.

 

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