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O princípio da esperança

O princípio da esperança

Foto: AP
Editorial Luxemburgo 2 min. 18.05.2019

O princípio da esperança

Nuno Ramos de Almeida
Nuno Ramos de Almeida
Só reconstruindo o sentido de uma comunidade para a maioria será possível evitar o ascenso infernal de um mundo de todas as desigualdades.

Numa página do Contacto contamos a história de um cardeal polaco que não ficou indiferente à injustiça contra os mais fracos.

Quando o cardeal Konrad Krajewski percebeu que 450 pessoas que vivem num prédio devoluto em Roma tinham ficado sem eletricidade, decidiu ele mesmo ir ligar a luz.

O sacerdote esclareceu desta forma os seus atos no jornal Corriere della Sera: “Intervim pessoalmente para reativar os contadores. Havia mais de 400 pessoas sem eletricidade, com famílias e crianças e sem possibilidade sequer de ter os frigoríficos ligados. Assumo todas as responsabilidades pelo que fiz”.

Uma das histórias fruto dessa vontade de resistência que não me canso de escrever passou-se em Portugal, em plena ditadura. A 30 de janeiro de 1938, defrontaram-se no Estádio Nacional as seleções de Espanha e Portugal. Durante os hinos, os dignitários fascistas na tribuna, a multidão e os jogadores fizeram a saudação nazi. Todos? Não, quatro jogadores portugueses recusaram fazer o gesto. Artur Quaresma deixou os braços em baixo. Mariano Rodrigues Amaro e José Ribeiro Simões levantaram, desafiantes, o punho cerrado, e o guarda-redes, João Mendonça e Azevedo, juntou-se à contestação. No final do jogo foram detidos pela polícia política de Salazar. Artur Quaresma, tio-avô de Ricardo Quaresma, explicou em 2004 ao jornal Record porque se recusou a fazer a saudação fascista: “Tinha muitos amigos comunistas e oposicionistas, por isso foi uma atitude natural, embora não planificada.” Apesar de terem sido presos pela PIDE, foram libertados por pressão da direção do clube.

Na entrevista, Quaresma acrescentou outra razão para a coragem dos quatro destemidos jogadores contra tudo e contra todos. Ao que parece, todos eles eram do Barreiro. Apanhar da polícia era tenebroso, mas viver na vila operária com o ónus de ter feito a saudação fascista e ter dobrado a coluna era muito pior.

O ascenso dos extremismos identitários racistas na Europa, sem aparente contraponto popular em muitos países, deve-se em grande parte a uma globalização que levou ao fim das indústrias, em muitos países, que eram a base material da sustentação do mundo operário.

É neste deserto do fim das fábricas, do fim das coletividades e solidariedades operárias, que começou a morrer um mundo e, pelo medo e insegurança, vai-se instalando, no espaço vazio, a extrema-direita.

Só reconstruindo o sentido de uma comunidade para a maioria será possível evitar o ascenso infernal de um mundo de todas as desigualdades. Para inverter este processo de destruição social e ambiental é preciso constituir momentos deesperança e indignação, como os protagonizados pelo cardeal eletricista, que não aceitem a situação social existente, mas que sejam um princípio da esperança.

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