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“O português podia ser ensinado aos luxemburgueses”, defende professora de Oxford
Luxemburgo 3 min. 02.10.2018

“O português podia ser ensinado aos luxemburgueses”, defende professora de Oxford

“O português podia ser ensinado aos luxemburgueses”, defende professora de Oxford

Foto: Marc Wilwert
Luxemburgo 3 min. 02.10.2018

“O português podia ser ensinado aos luxemburgueses”, defende professora de Oxford

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Victoria Murphy é professora de Linguística na Universidade de Oxford, e fez parte do júri das provas de doutoramento sobre os mecanismos para reforçar a língua materna das crianças portuguesas. A académica canadiana não escondeu a surpresa por o Luxemburgo não ter programas em que o português seja mais valorizado.

Contacto: Num país com com uma proporção tão elevada de portugueses, estranhou que não haja instrumentos de ensino mais adaptados a esta realidade, como os programas de imersão bilingue que existem nos Estados Unidos e no Canadá, de onde é originária. Porquê?

Professora Victoria Murphy: Não me surpreende que as crianças portuguesas no Luxemburgo tenham dificuldades para desenvolver a sua língua materna, porque é uma constação comum internacionalmente para crianças de uma minoria linguística. Tipicamente, vêm de um estrato sócio-económico mais baixo, e frequentemente a língua que falam não é vista como tendo o mesmo estatuto da língua do país em que vivem. O que é único no Luxemburgo é a proporção elevada de crianças portuguesas, e aí há oportunidades a desenvolver, num contexto educativo. Há vários países do mundo que têm programas de educação bilingue, quando há uma percentagem suficiente de imigrantes, como o espanhol nos Estados Unidos. Chamam-se 'dual immersion programs' e é uma forma de educação bilingue que foi iniciada na Flórida por pessoas que tinham fugido de Cuba, e que queriam que os filhos continuassem a falar inglês, mas sem prejudicar a aprendizagem do inglês. Nestes programas, as crianças que falam espanhol como língua materna e as crianças que falam inglês são educadas juntas, na mesma turma, e metade do dia é passado em inglês e a outra parte em espanhol, o que permite às outras crianças aprendê-lo, sendo, como é, uma língua importante nos Estados Unidos e no mundo. Estes programas também transmitem uma mensagem importante às crianças que falam espanhol como língua materna: que o idioma delas é importante, tanto que as crianças que não o falam estão a aprendê-lo. É uma mensagem sócio-política importante para crianças que vêm de um meio mais desfavorecido: a sua língua e a sua cultura são valorizadas naquela sociedade. Obviamente, no Luxemburgo a paisagem linguística é mais complexa, com mais de três línguas. Mas não é inconcebível, à luz das fortes provas do trabalho da Rute Tomás e da pesquisa que a Pascale Engel e a sua equipa estão a fazer, que alguns programas educativos poderiam incluir estes programas. Faria sentido: com uma tão grande proporção de pessoas que falam português, poderia ser útil para os luxemburgueses aprender português.

Em 2014, o jornal Contacto denunciou que havia crianças castigadas em creches quando falavam português. Isso tem uma consequência na imagem que as crianças têm da própria língua. Os programas de que fala não parecem estar muito longe?

Medidas punitivas por falar a língua materna na escola é uma coisa perturbadora: vai contra todos os estudos que conhecemos sobre desenvolvimento da língua, mesmo que a razão fosse apenas a de tentar desenvolver o seu luxemburguês. E envia uma mensagem a estas crianças: “Não queremos saber da tua língua para nada, tanto assim que se a falares na escola, vais ser castigado!”. Por que razão quereriam as crianças desenvolver a sua língua materna? Há muita pesquisa que indica que o reforço da língua materna ajuda nas outras línguas, e esta forma de proceder, policiando o uso dos idiomas na turma, cria um problema. Por isso, sim, talvez o Luxemburgo esteja ainda muito longe de desenvolver programas de educação bilingue [com português], mas talvez venha com o tempo e com o entendimento de mais pesquisa.

Disse durante a dissertação desta tese de doutoramento sobre a importância do reforço do português que este trabalho era político.

E é, a educação e o multilinguismo têm sempre uma carga política importante. Os políticos nunca têm decisões fáceis de tomar quando há várias línguas. É um assunto muito complexo, e os políticos normalmente querem respostas simples. “Com que idade se deve começar a ensinar francês às crianças no Luxemburgo?”. Parece uma questão simples, mas a resposta não é fácil. Mas há uma abundância de estudos nesta matéria, e o Luxemburgo ganharia em conhecê-los, nomeadamente sobre educação bilingue.

Paula Telo Alves


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