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O pequeno país que está prestes a tornar-se a maior potência na exploração espacial
Luxemburgo 7 min. 10.08.2019

O pequeno país que está prestes a tornar-se a maior potência na exploração espacial

O pequeno país que está prestes a tornar-se a maior potência na exploração espacial

Foto: DR
Luxemburgo 7 min. 10.08.2019

O pequeno país que está prestes a tornar-se a maior potência na exploração espacial

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
No Luxemburgo estão a concentrar-se as maiores empresas do mundo para a corrida ao 'ouro' espacial: os recursos minerais dos asteroides

Apesar de ocupar um espaço pequeno no planeta Terra, o Luxemburgo pretende dar cartas na exploração espacial. 

O Grão-Ducado acolhe o primeiro operador de satélites do mundo, o SES, sendo líder nas telecomunicações por satélite e é um dos pioneiros na legislação e desenvolvimento da exploração mineira do espaço. O Luxemburgo prepara-se para ser o primeiro nesta corrida ao ‘ouro’ espacial.

E agora ganha também destaque nas viagens espaciais. Uma equipa de cientistas liderada por David Duday, do Luxembourg Institute of Science and Technology (LIST) foi selecionada pela Agência Europeia Espacial (ESA) para desenvolver os novos revestimentos de superfície antimicrobianos de largo espectro e não tóxicos para o interior das naves espaciais tripuladas.

Tecnologia de ponta evita doenças nas viagens espaciais

Os revestimentos que cobrem o interior das naves em que viajam os astronautas nas missões espaciais são fundamentais para evitar o desenvolvimento e propagação de micróbios patogénicos que podem provocar doenças a bordo.

“O objetivo é que daqui a 10 ou 15 anos, as naves das futuras missões espaciais tripuladas já sejam construídas com as nossas superfícies antibacterianas no seu interior”, declarou ao Contacto David Duday, o coordenador deste projeto ‘ESA NBactspace’, da Unidade de Nanomateriais do Departamento de Investigação e Tecnologia de Materiais do LIST.

As equipas do LIST são pioneiras neste tipo de tratamentos antibacterianos. E este que já está a ser desenvolvido, tendo o projeto a duração de 18 meses, irá garantir a segurança e bem-estar dos astronautas. Nestas viagens, que podem ser de três dias em caso da tripulação ter como destino a Lua, ou durar entre cinco a 10 meses, se for até Marte, os astronautas irão estar num espaço pequeno e fechado propício ao desenvolvimento de certas bactérias e fungos como explica David Duday.

“O nosso tratamento é concebido para limitar a proliferação das bactérias patogénicas que mais se encontram nas naves espaciais tripuladas, as bactérias gram + e gram – e fungos patogénicos. Estes diferentes patogénicos podem provocar infeções pulmonares e outras doenças graves quando se concentram em grandes quantidades num espaço confinado”, indica ao Contacto este cientista.

Investigação ambiciosa

Por isso, o desenvolvimento de um composto antibacteriano eficaz para as superfícies do interior das naves espaciais é tão importante. Este tratamento será dado em todo o interior, desde “os painéis estruturais, portas, ‘handrail’, painéis elétricos, filtros, permutadores de calor, entre outros”, diz David Duday.

A partir de 2030 as naves espaciais podem já incluir os revestimentos antibacterianos da equipa do LIST. Segundo David Duday esta é uma equipa multinacional composta por cientistas de dez nacionalidades, francesa, luxemburguesa, italiana, espanhola, colombiana, argelina, indiana, chilena, belga, alemã. De momento, não há nenhum português

“Esta investigação ambiciosa irá gerar abordagens sem precedentes para o tratamento de revestimentos antimicrobianos sustentáveis que possam ir para o espaço”, lê-se no comunicado publicado no site do LIST sobre o anúncio da equipa de David Duday ter sido selecionada pela ESA.

Tecnologia com aplicação na medicina  

Para além da importância que este avanço traz para a exploração espacial também será muito útil aqui na Terra. Esta tecnologia destinada ao interior das naves espaciais pode ser também utilizada em ambientes hospitais de modo a evitar a proliferação das bactérias multirresistentes, por exemplo, ou ainda em aparelhos ou implantes médicos.

“Desde os anos 80 que o Luxemburgo se tornou um país visionário sobre o potencial da indústria de satélites”, relembra David Duday salientando que é aqui que está instalado o SES, o primeiro operador mundial de satélites. 

“Hoje, o Luxemburgo deseja desenvolver novas atividades espaciais, como o ‘Space mining’", relembra este cientista. Neste contexto, avança Duday, o LIST que já se tornou referência no “domínio da conceção e fabricação de novos revestimentos antimicrobianos e de novos materiais para aplicações espaciais, vem reforçar a posição do Luxemburgo neste setor”, vinca o cientista sublinhando que o objetivo final “é tornar-se líder neste nicho de mercado”.

No espaço vai falar-se... em "luxemburguês"

“Tenho certeza de que, daqui a 10 anos, a língua oficial do espaço será o luxemburguês.” A afirmação é de Étienne Schneider, ministro da Economia e o principal impulsionador do desenvolvimento da indústria de exploração mineira espacial no Grão-Ducado e da criação da Agência Espacial do Luxemburgo.

A Space Resources é o programa de exploração de asteroides e outros “objetos não terrestres” que podem ser alvo de mineração ou usados diretamente no espaço como fonte de energia. "Ou ainda serem usados para construir foguetões, satélites ou outro equipamento para ser usado para lá da atmosfera terrestre", explica o site da Space Resources.  Contudo, indica esta agência governamental, há minerais ou outros elementos que podem ser trazidos para terra para apoiar as necessidades económicas de uma população em crescimento.

Na corrida espacial ao ouro, platina e água 

Nem é preciso viajar para muito longe no universo para esta exploração de recursos não terrestres. Perto do nosso planeta existem mais de 13 mil asteroides, fontes riquíssimas de minerais como ouro, platina e água.

A própria Lua ainda tem tudo para explorar no que a estes minerais diz respeito.  E, se se descobrir água neste satélite da Terra abre-se todo um novo universo de uma nova indústria por explorar… no espaço.

A seguir aos EUA, o Luxemburgo é o segundo país do mundo e o primeiro da Europa a ter desenvolvido legislação específica para esta exploração de recursos além planeta Terra. Mas fez mais do que isso.

O Luxemburgo apresenta apoios financeiros e medidas muito atrativas para as grandes empresas de exploração espacial se sediarem aqui no Grão-Ducado. E tal está a acontecer. Já houve mesmo empresas norte-americanas a instalarem-se no Luxemburgo, e os EUA são quem dominava esta exploração espacial. Este país também apresenta facilidades e atrativos para as empresas de exploração mineira no espaço se instalarem por lá, só que o Luxemburgo oferece melhores condições. Além das empresas norte-americanas já existem no Grão-Ducado  empresas japonesas, europeias ou até coreanas. Até ao ano passado mais de 200 empresas e start-ups viradas para o espaço, provenientes de 20 países concentravam-se neste pequeno país, mas muitas mais estão a chegar e ainda virão.

 ”Esta agência espacial que estamos a criar não será uma cópia da NASA ou da ESA, mas será uma agência espacial cujo único focus é o uso comercial de recursos espaciais”, precisou o ministro da Economia, em 2018.

 Muitas empresas e milhões

Um fundo de 200 milhões de euros foi criado e dado como apoio inicial para a nova indústria espacial. Seguiu-se um novo fundo e mais milhões. 

Trata-se do Fundo Espacial do Luxemburgo, de cerca de 100 milhões de euros que foi apresentado como “uma parceria público-privada, onde o Governo terá uma parcela de 30% a 40%”, explicou Schneider no ano passado,

Neste país que quer dominar a exploração de recursos minerais espaciais já se encontram as principais empresas do ramo, como enumera o site bit2geek: a Space X, a mais importante no abastecimento dos voos da Nasa; as duas principais empresas de mineração de asteroides do mundo, as norte-americanas Deep Space e Planetary Resources, que já possuem uma parceria com o Luxemburgo. A Planetary Resources tem investimentos do empresário Richard Branson, do grupo Virgin, e de um dos fundadores do Google, Larry Page. O Luxemburgo terá comprado uma participação a esta empresa por 25 milhões de euros.

 Seguem-se a japonesa iSpace da Google Lunar X Prize, a Blue Horizon, pertencente à empresa espacial OHB da Alemanha que trabalha com tecnologias de suporte à vida, a Contec, que é a primeira empresa espacial coreana a instalar-se no Grão-Ducado.

Segundo o ministro da Economia esta nova industria espacial já representa 1,8% do PIB nacional, sendo a maior parcela destinada a este setor dado em qualquer país europeu. Atualmente já trabalham mais de 800 pessoas nesta área, no Grão-Ducado.

Um estudo encomendado pela Agência Espacial do Luxemburgo estima que nos próximos 30 anos a exploração de recursos naturais no espaço irá gerar receitas até 170 mil milhões de euros.

O desejo de Étienne Schneider está a um passo de ser concretizado: tornar o Luxemburgo na maior potência do mundo da exploração de minerais no espaço.

 

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