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O mundo perdido que os luxemburgueses ergueram no Brasil

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O mundo perdido que os luxemburgueses ergueram no Brasil

O mundo perdido que os luxemburgueses ergueram no Brasil

O mundo perdido que os luxemburgueses ergueram no Brasil


por Ricardo J. Rodrigues/ 08.04.2021

Fotos: António Pires

Há 100 anos, centenas de habitantes de Esch, Dudelange e Differdange começaram a emigrar para o Brasil. Instalaram-se no meio de Minas Gerais e edificaram a maior siderurgia da América Latina – através da qual se construiu Brasília. Dominique Santana, historiadora brasileiro-luxemburguesa, está a tentar recuperar a memória dessa colónia desaparecida.

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A cidade perdida no mato
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A cidade de João Monlevade no início dos anos quarenta.
A cidade de João Monlevade no início dos anos quarenta.
Foto: Arquivo pessoal Dona Neli

“Estamos habituados a pensar no Luxemburgo como um país que acolhe imigrantes, mas há uma centena de anos o movimento aconteceu ao contrário”, conta Dominique Santana, 33 anos, historiadora e realizadora nascida em Dudelange, mas com raízes cariocas. “Pouca gente sabe que, de um pequeno país do centro da Europa, hoje o mais rico do continente, emigraram centenas de pessoas para o Brasil.” Vinham das terras mineiras do sul à procura de novos jazigos de ferro. Acabaram por edificar uma comunidade industrial no meio de nenhures e levantar uma cidade no interior de Minas Gerais onde se temperou o aço que levantou uma boa parte do Brasil.

Uma centena de quilómetros a leste de Belo Horizonte, há uma cidade onde os nomes das ruas guardam apelidos luxemburgueses, onde um par de famílias ainda fala um Lëtzbuergesch carregado de sotaque tropical. Alguns restaurantes servem pratos muito parecidos ao knidellen mat Speck, bolas de massa com molho de bacon, ou Judd mat Gaardenbounen, pescoço de porco fumado com favas, e nas traseiras têm ainda jogos de quilles, a versão luxemburguesa de bowling. Pequenos sinais de um espólio que resiste ao esquecimento.

A história começa no fim da I Guerra Mundial. Se houve coisa que o conflito de 1914-18 demonstrou foi que a demanda pelo aço iria crescer nas décadas seguintes. As propriedades inoxidáveis tinham acabado de ser descobertas anos antes – e a garantia de resistência ao tempo era agora um facto. Num mundo em ruínas, subia ao palco da construção civil um material barato e resistente, capaz de reparar e construir novas infraestruturas a grande velocidade.

O sul do Luxemburgo era o epicentro da produção europeia. Nesta altura, operava a antecessora da ArcelorMittal, a ARBED – acrónimo de Siderurgias Reunidas de Burbach, Esch e Dudelange. Liderada pelo belga Gaston Barbanson, a empresa expandia-se rapidamente para França, Alemanha e Bélgica. Mas a visão de Barbanson era global e, em 1920, ele mesmo liderou uma expedição ao Brasil, para avaliar a possibilidade de construir uma siderurgia no outro lado do Atlântico.

A comitiva não tinha mais de meia dúzia de homens, sobretudo engenheiros e geólogos luxemburgueses, e também um agrónomo chamado Edward Luja. Duas semanas levou o navio de Antuérpia ao Rio de Janeiro. Daí, a expedição rumou a Belo Horizonte, e foi nos arredores da cidade que se fizeram os primeiros estudos. Luja e os outros técnicos avaliaram as condições, eram mais que perfeitas. Sobretudo nuns terrenos adiante, esquecidos nno fim de uma picada, onde só existia mata e uma pequena fazenda. Mas os sinais eram animadores. Por isso, em 1921, o gigante luxemburguês do aço compraria a Companhia Siderúrgica Mineira local e fundaria a Companhia Belgo-Mineira. Era o início de uma revolução.

A tal fazenda ao fundo da picada fora fundada em 1817 por um engenheiro francês chamado Jean-Antoine de Molevande, que já nessa altura comandara um estudo minerológico sobre a região e encontrara grandes jazigos de ferro. “Era o cenário ideal para a expansão. Havia grande disponibilidade de minério, mas também de água e de madeira, que permitia fazer carvão e ter combustível para as fornalhas”, conta Dominique Santana. Em 1927, o engenheiro luxemburguês Louis Ensch viaja para o Brasil e assume o comando da Belgo-Mineira. Imediatamente percebe que o futuro da indústria tem de tomar o caminho da terra batida.

Abre-se uma linha de caminho de ferro, lança-se a primeira pedra para a construção de uma enorme siderurgia. Getúlio Vargas, presidente brasileiro, há de vir inaugurar a usina em 1935. A travessia do Atlântico intensifica-se, agora chegam cada vez mais trabalhadores especializados do sul do Luxemburgo. Na antiga fazenda controem-se casas, escolas, até um estádio de futebol. A povoação é batizada de João Molevande, em homenagem ao primeiro prospetor de minério. Hoje, tem 80 mil habitantes.

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O achamento da "Colônia"
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Foto: Arquivo pessoal Dona Neli

Dominique costuma dizer que não foi ela que encontrou esta história, foi a história que a encontrou a ela. Nasceu e cresceu no Luxemburgo, mas tem as suas raízes no Rio de Janeiro. “Eu ia passar algumas temporadas da minha infância e da minha adolescência ao Brasil, mas foi depois de concluir o meu mestrado que percebi que queria passar uma boa temporada lá”, conta. Tinha feito a licenciatura em Bruxelas, seguira para Berlim, mas em 2014 ela e o marido luxemburguês compraram um bilhete só de ida para o outro lado do charco.

“Foi só adulta que quis verdadeiramente descobrir as minhas origens”, atira, e nesse processo um presente veio parar-lhe às mãos. O pai era um português do Porto que partira na adolescência para o Rio e trabalhava nos restaurantes da família, a mãe uma psicóloga com gabinete por cima de um dos cafés. “Eles conheceram-se nos anos setenta e na década seguinte decidiram sair do país por causa da ditadura militar. Portugal tinha acabado de entrar na CEE e isso garantia mobilidade na União. Vieram para o Luxemburgo, mas atrás ficaram muitas raízes no Brasil.”

Foto: António Pires

Avós, tios e primos eram passaporte para mergulho profundo no terreno. “Cheguei nove dias antes da Copa do Mundo, imaginava uma grande confusão mas na verdade foi tudo muito tranquilo. Um dia, em casa da minha tia, conheci a cônsul honorária do Luxemburgo no Rio de Janeiro.” Simpatizaram uma com a outra e um dia combinaram um café num centro comercial do Leblon. Haveria de ser essa conversa a mudar tudo.

Marie-Christiane Heuwert-Meyers foi o seu primeiro contacto com o acento tropical da língua luxemburguesa. “Ela contou-me que tinha nascido em João Monlevande, que era filha de um engenheiro que viera de Esch para trabalhar deste lado do Atlântico. E depois falou-me dessa cidade industrial que os luxemburgueses tinham criado no meio da mata. Fiquei completamente chocada.” A história caíra-lhe assim ao colo, mas até 2016 não fez nada com ela.

“Nessa altura a cônsul deu-me uma lista com alguns contactos de luxemburgueses da região. Queria que eu os convidasse para as celebrações da Festa Nacional, que em 2016 iam decorrer no Copacabana Palace”, explica. Havia muita gente a quem se revelara impossível encontrar o rasto, mas nos nomes que localizou repetia-se a mesma narrativa: havia uma segunda e terceira geração de gente nascida numa cidade de aço no meio de parte nenhuma. “Mas a importância daquela comunidade, e daquela indústria, era tal que até o Grão-Duque Jean tinha ido visitar João Monlevade.” O espanto multiplicava-se.

Historiadora de formação, não podia deixar as coisas ficarem vagas na sua cabeça. Começou a investigar a história da siderurgia, percebeu que – tal como no Luxemburgo – a companhia fizera-se ArcelorMittal e crescera ao ponto de ser a maior siderurgia da América Latina. Uma linha de comboio ligava agora Monlenvade ao país inteiro, que apostava no desenvolvimento das infraestruturas. “Uma boa parte de Brasília foi construída com o aço que os luxemburgueses forjavam em Minas Gerais.”

Assim que Juscelino Kubitschek assumiu a presidência do Brasil em 1956 deu ordens para que se construísse uma nova capital no centro do país, entre os estados de Goiás e Minas Gerais. O esforço de construção foi monumental – em apenas quatro anos levantou-se a capital que o urbanista Lúcio Costa, o arquiteto Oscar Niemeyer e o engenheiro de estruturas Joaquim Cardozo imaginaram. Nas fundações da cidade está o aço de Monlevade.

Na fundação de Brasília está o aço produzido em Monlevade
Foto: Arquivo Pessoal Dona Neli

Nessa altura já a emigração luxemburguesa para Minas Gerais tinha atingido o seu apogeu. Durante os anos trinta e quarenta a mobilização fora massiva, a partir dos anos sessenta muitos retornaram a casa, outros estabeleceram raízes e ficaram. “Eu não quero arriscar um número concreto porque há os registos são dispersos e muitas vezes não temos certeza se os trabalhadores viajaram sozinhos ou com as famílias. Tenho relatos de muita gente que casou à pressa para embarcar para João Monlevade. Foram seguramente centenas de cidadãos do sul do Luxemburgo.”

Uma coisa era certa, agora que Dominique tinha consciência do tesouro que lhe viera parar às mãos, já não o deixaria escapar. Em 2017, voltou à Europa com uma ideia: fazer uma grande investigação sobre o tema. A historiadora não tinha verdadeiramente considerado fazer um doutoramento, mas o material que encontrara carecia de trabalho científico. Apresentou-se na Universidade do Luxemburgo em Belval e propôs-se recuperar a memória da “Colônia” luxemburguesa, como lhe chamavam os locais. Mas não queria fazer apenas uma tese académica. Queria unir outra vez o Atlântico.

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História viva
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Na sala de montagem da Samsa Films, onde o documentário está a ser montado.
Na sala de montagem da Samsa Films, onde o documentário está a ser montado.
Foto: António Pires

À chegada ao Luxemburgo Dominique começou a contar a história às pessoas à sua volta. “Ninguém ficava indiferente ao que eu contava. E recebia sempre uma de duas reações: ou o espanto absoluto ou a revelação de um antigo familiar que tinha estado no Brasil.” Percebeu por isso que tinha de construir uma narrativa dos dois lados do charco.

Uma das suas amigas, com quem tinha estudado no liceu em Dudelange, contou-lhe que a avó vivera em João Monlevade entre 1951 e 1957. Marie-Rose Steil tem hoje 88 anos, mas ainda lembra aqueles anos com saudade. Casada com um técnico especializado, embarcou para um mundo novo onde os dias eram tão quentes e húmidos que a roupa se colava à pele. “Tive quatro filhos, três deles nasceram no Brasil e voltei grávida do quarto”, contou-lhe um dia em Esch-sur-Alzette. Ainda hoje fala português dos trópicos.

Para Madame Steil, a cidade era uma curiosa Babel no meio de parte nenhuma. Monlevade era um espelho da diversidade multicultural luxemburguesa, com gente de toda a Europa a partilhar a geografia isolada. “Mas a cidade desenvolvia-se rápido”, diz a octagenária. “Havia cinema, fazíamos excursões nas matas, improvisávamos com os produtos locais as comidas que trazíamos de casa.” Anos mais tarde, ao regressar a Minas Gerais, Dominique verificaria como naquelas terras se consumia mais batata do que feijão com arroz – e como isso explicava uma parte do mundo.

Os relatos dos europeus que voltavam não lhe chegavam para contar o enredo inteiro. Em novembro e dezembro de 2020, com a pandemia a bater recordes de vítimas no Brasil, decidiu arrumar o medo na mochila e fazer-se novamente ao terreno. Viajou com uma equipa de filmagens da Samsa Films, uma produtora luxemburguesa que deve o seu nome ao protagonista de “A Metamorfose”, de Franz Kafka. Subiram as mesmas picadas que uma equipa de expedicionários tinha cumprido há mais do um século. Se eles procuravam ferro, ela tratava de encontrar as memórias.

A tese de doutoramento de Dominique Santana é muito mais do que um texto. “Às vezes sinto que as universidades funcionam como uma bolha fechada e eu não quis que este projeto, mesmo sendo científico, ficasse fechado em si mesmo.” Então nasceu “A Colônia Luxemburguesa” (www.colonia.lu), um projeto transmedia em que a assistência escolhe o seu próprio percurso. É uma colaboração entre o Centro de História Contemporânea e Digital da Universidade do Luxemburgo, do Centro Nacional para o Audiovisual e, claro, da Samsa Films.

No site que criou, Dominique está agora a pedir às pessoas que têm histórias para contar que deem o seu testemunho. E depois haverá um filme, que é a historiadora (e agora realizadora) define como um híbrido entre um documentário e um videojogo: “É quem está a ver o filme que decide o percurso que faz, que acaba por fazer a sua própria investigação.” A longa metragem estreará no próximo ano, no âmbito do Esch 2022 – Capital Europeia da Cultura.

Também nesse ano, a equipa de Dominique Santana instalará dois quiosques interativos – um em Esch-sur-Alzette, outro em João Monlevade. Chamam-se [L]Aço e mostram a história comum que o carvão e o ferro construíram nos dois lados do Atlântico. “Gostaria que as duas cidades se geminassem, porque na viagem de ida e na viagem de regresso construiu-se uma realidade nova, que é de ambas.” Há um Brasil que é luxemburguês e há um Luxemburgo que é brasileiro, sim. E a ligação é muito mais profunda do que alguém pudesse imaginar.

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