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O monstro do lago Remerschen: novo afogamento põe em causa segurança
Luxemburgo 26 min. 02.08.2018

O monstro do lago Remerschen: novo afogamento põe em causa segurança

Os mergulhadores tiveram dificuldades para resgatar o corpo do búlgaro de 53 anos, por causa da "wasserpest" (praga de água), plantas aquáticas que infestam o lago de Remerschen.

O monstro do lago Remerschen: novo afogamento põe em causa segurança

Os mergulhadores tiveram dificuldades para resgatar o corpo do búlgaro de 53 anos, por causa da "wasserpest" (praga de água), plantas aquáticas que infestam o lago de Remerschen.
Foto cedida ao Contacto pelo Corpo Grão-Ducal de Incêndio e Segurança (CGDIS)
Luxemburgo 26 min. 02.08.2018

O monstro do lago Remerschen: novo afogamento põe em causa segurança

Há um monstro no lago de Remerschen, como na lenda do Loch Ness? No domingo morreu mais um homem afogado no local onde há um mês se afogou o rapper português Puto G, e as dúvidas multiplicam-se sobre a segurança do local. A estância balnear é explorada pela autarquia de Schengen, que cobra entrada. Apesar disso, não tem um único nadador-salvador no recinto, como apurou o Contacto. As algas que infestam o lago também dificultam os socorros e podem contribuir para o risco de afogamento, denuncia um responsável da proteção civil. A autarquia diz que há placas a dizer que o lago não é vigiado e que os visitantes "nadam por sua conta e risco". Mas será que um cartaz chega para descartar as responsabilidades?

O alerta foi dado às 17h10 de domingo. Carolina Freitas estava perto do local onde aconteceu o mais recente afogamento no lago de Remerschen, um búlgaro de 53 anos, e garante que "foi o caos". "Ouvimos gritos e as pessoas começaram a sair da água", contou a portuguesa ao Contacto. Dois jovens com T-shirts vermelhas, com a indicação 'staff' nas costas, entraram na água. "Primeiro pediram para toda a gente sair. Depois, quando viram que não conseguiam ver nada, começaram a chamar toda a gente que sabia nadar para os ir ajudar e a fazer gestos com as mãos para as pessoas irem. Alguns homens entraram, mas havia gente que tinha comido e bebido e estava muito calor, é um risco", conta Carolina Freitas. E a desorganização continuou, denuncia. "Eles mergulhavam e vinham para cima com as pessoas à tona, sem fazerem nada, e eles não diziam nada. Mandaram as pessoas entrar para ajudar mas não lhes disseram o que tinham de fazer, não havia a mínima organização, foi uma confusão".

Entretanto, o barco da autarquia chegou ao local. "O senhor do barco estava a usar o remo para tentar tocar no fundo do lago, mas devia ser bastante profundo". Cerca de dez ou 15 minutos depois, a portuguesa ouviu sirenes: "Os bombeiros chegaram e mandaram toda a gente sair da água". Nervosa "por não poder fazer nada" e chocada com a cena, a portuguesa abandonaria o local pouco depois. "Ainda ouvimos o helicóptero, mas já não vimos os mergulhadores", conta. Carolina Freitas questiona se "é legal" ter pessoal de salvamento "com tão pouca experiência". "O que mais me chocou foi um lago daquele tamanho, onde as pessoas têm de pagar para entrar, e não é vigiado. Nós pagámos uma entrada, e não têm condições de segurança. Os nadadores que lá estão não sabiam o que estavam a fazer!".

O lago tem uma dezena de funcionários contratados pela autarquia de Schengen. Três são responsáveis pela vigilância dos banhistas (quatro em agosto), mas nenhum tem formação de nadador-salvador, como reconheceu ao Contacto o vereador responsável pelo pelouro dos Desportos da autarquia de Schengen, Tom Weber. Segundo o edil, que tem a pasta da gestão do lago, têm todos um curso de primeiros-socorros e um diploma de "Freischwimmer" (certificado de natação). O diploma não é reconhecido pela Federação Luxemburguesa de Natação e Salvamento (FLNS) e não permite exercer a função de salva-vidas no Luxemburgo. "Isso não é um diploma de nadador-salvador, é um diploma alemão", assegura Georges Hansen, responsável pelo departamento que certifica os nadadores-salvadores na FLNS. No site da federação alemã de nadadores-salvadores ("Deutsche Lebens-Rettungs-Gesellschaft", no original), explica-se que para obter o certificado de "Freischwimmer" basta "mergulhar do bordo da piscina, nadar 200 metros em 15 minutos e mergulhar a dois metros de profundidade para apanhar um objeto no fundo da piscina". Tudo o que o documento certifica, em suma, é que a pessoa sabe nadar. Segundo o responsável da Federação Luxemburguesa de Natação e Salvamento, a lei obriga as piscinas ao ar livre a contratar pessoal com "curso de nadador-salvador", mas nos lagos, onde a legislação é omissa, "a autarquia contrata quem quer".

Lago continua aberto

"Continua a estar calor! Venham depressa refrescar-se no lago". A mensagem termina com um "smiley" e foi escrita na página do lago de Remerschen na rede social Facebook, gerida pela autarquia de Schengen, menos de 24 horas depois do afogamento no domingo, o segundo no espaço de um mês. O post a convidar os visitantes para virem ao lago foi publicado no dia seguinte, às 13h06, e não faz qualquer referência à tragédia de horas antes. A página também continua sem fazer qualquer menção ao afogamento.

O lago fica num vale orlado de vinhas na autarquia de Schengen, a localidade onde foi assinado o tratado de livre circulação da União Europeia. Mas aqui, a circulação não é livre: para entrar na estância balnear é preciso pagar quatro euros. Apesar disso, a autarquia recusa qualquer responsabilidade pela segurança dos banhistas e pelas recentes mortes por afogamento, ainda por explicar.

Esta segunda-feira, com os termómetros a ajudar, centenas de pessoas regressaram ao lago, e nada desmentia a imagem idílica da estância balnear promovida na página da autarquia. À entrada do recinto, fechado por vedações, um cisne alisa as penas. Crianças chapinham num pequeno lago, vigiadas por um funcionário do alto de uma cadeira, como as usadas pelos nadadores-salvadores. Dezenas de pessoas enchem a área de jogos aquáticos, uma série de insufláveis que fazem lembrar os Jogos sem Fronteiras. Entre os banhistas circulam jovens vestidos de calções e T-shirts vermelhas com a inscrição "staff" nas costas, a lembrar os salva-vidas da série "Marés Vivas" ("Baywatch").

Desde que o rapper português Puto G se afogou, a primeira das duas vítimas, há um mês, a única coisa que mudou foram os cartazes à entrada: agora lê-se em letras maiores que o local não é vigiado. Esse é um dos avisos que figuram num painel de madeira que não estava lá quando o rapper se afogou. "Chegou há semana e meia, mas já estava encomendado há mais de um ano", disse ao Contacto a funcionária camarária que gere o recinto, Dominique Fagny.

O painel pintado mostra o mapa do lago e aponta que a área de banhos não é vigiada, um aviso repetido no regulamento camarário afixado à entrada. As pulseiras dadas aos visitantes no momento do pagamento também têm escrito que os banhos não são vigiados. A única área em que a autarquia não declina responsabilidade é o pequeno lago de água rasa reservado às crianças, com menos de um metro de profundidade, e a zona de jogos paga, na enseada principal, onde os clientes são obrigados a usar colete salva-vidas. No resto do lago, em qualquer ponto onde se possa nadar, as pessoas estão "por sua conta e risco".

No espaço de um mês, morreram ali duas pessoas afogadas. A vítima mais recente foi um búlgaro de 53 anos, a viver na Alemanha, que faz fronteira com Schengen. Tal como os restantes três mil visitantes que foram ao lago nesse dia para escapar à vaga de calor que assola o Luxemburgo, tinha ido passar o dia com a família na estância balnear luxemburguesa.

Puto G sabia nadar

"Foi ali onde está aquele colchão insuflável, aquele em forma de ananás", diz Dominique Fagny, a apontar para duas adolescentes que brincam na pequena enseada que tem a área de jogos. Terá sido nesse sítio, a cerca de vinte metros do areal, perto da área de jogos, que o corpo de José Carlos Cardoso, conhecido como Puto G, foi encontrado pelos mergulhadores, a 30 de junho.

O rapper, que vivia em Athus, na Bélgica, tinha ido ao lago passar a tarde com uma dezena de amigos no lago de Remerschen. Já passava das 15h quando Luís Carvalho ouviu gritos. "Fomos ver o que se passava. Aí, ouvimos dizer que o rapaz se tinha afogado". "Lembro-me de um miudinho de 10 ou 12 anos dizer que estava ao lado dele a nadar. Disse que desapareceu na água ao lado dele. Então as pessoas começaram a procurar e foi a partir daí que deram o alerta", conta Luís, nascido em Santiago, a mesma ilha da família de Puto G. "Os amigos entraram na água à procura dele. Depois alertaram no altifalante para as pessoas saírem da água, porque tinha desaparecido um corpo. Cerca de trinta minutos depois chegaram os bombeiros e pessoal médico".

O rapper português Puto G afogou-se no exato local onde se vê um colchão insuflável, na foto.
O rapper português Puto G afogou-se no exato local onde se vê um colchão insuflável, na foto.
Foto: Henrique de Burgo / Contacto

Os socorristas mandaram as pessoas sair da água, mas com os minutos a passar, um dos amigos voltou a entrar no lago para tentar encontrar o rapper. "Os bombeiros disseram que se ele não saísse da água, iam chamar a polícia". Acabou "algemado e posto no carro da polícia". "Mesmo assim, andou a dar murros na janela do carro. Era um sentimento de impotência porque não podia salvar o amigo", justifica o imigrante cabo-verdiano.

Segundo um amigo do rapper, o produtor luxemburguês Kevin Michaux, que está a preparar uma compilação com músicas de Puto G, o português "nadava bem". O produtor não estava nesse dia com o músico, mas diz que já tinha estado com ele nesse lago, e só encontra uma explicação para a tragédia: as algas que infestam o lago de Remerschen. "Há muita gente que diz que lá é perigoso por causa das algas. Acho que terá alguma coisa a ver com isso", defende Kevin Michaux.

Os responsáveis do lago dizem que o grupo estava "embriagado" e que terá sido o álcool que provocou o afogamento. A Procuradoria do Luxemburgo não ordenou uma autópsia, ao contrário do que aconteceu com o mais recente afogamento, e o corpo já foi a enterrar na Amadora. O Ministério Público fez exames toxicológicos mas recusou divulgar os resultados.

Quatro horas depois do alerta, os mergulhadores apareceram finalmente com o corpo à superfície, uma imagem que Luís Carvalho não vai esquecer tão cedo. "As pessoas ficaram ali paralisadas quando os mergulhadores apareceram com o corpo. Aquilo foi traumático, horrível. Ver os amigos ali a chorar... Até eu chorei", conta o dono do Métissage. Para Luís Carvalho, o local devia ter salva-vidas e "uma caserna de bombeiros, com pessoas competentes para salvar pessoas em casos como estes".

A peste verde das águas

Os mergulhadores que resgataram os dois corpos do lago de Remerschen no espaço de um mês conhecem bem o local. “Infelizmente, é um local onde somos chamados todos os anos", conta ao Contacto o responsável do serviço de salvamento aquático do Corpo Grão-Ducal de Incêndio e Segurança (CGDIS), Roland Disiviscour. O chefe dos mergulhadores da proteção civil luxemburguesa tem uma experiência de 40 anos e lamenta que, quando a sua equipa entra em cena, seja "demasiado tarde" em "99,9% dos casos". "O afogamento é uma coisa rápida, que acontece em cinco minutos. Por essa razão, é preciso haver alguém no local para salvar a pessoa, de outra forma é demasiado tarde", explica o luxemburguês. "Nós não fazemos salvamentos, limitamo-nos a recuperar o corpo".

O búlgaro de 53 anos afogou-se a 100 metros da zona onde está a esplanada, numa clareira à beira de um caminho de terra batida aberto pela autarquia, perto de onde está a ser construído um terreno para o jogo da petanca. O cadáver acabaria por ser encontrado a apenas quatro metros da margem, mas foram precisos vinte mergulhadores e quase quatro horas para recuperar o cadáver. As algas que infestam o lago - as mesmas de que se queixam os amigos de Puto G - e a visibilidade reduzida dificultaram a operação. “Temos de apalpar para encontrar os corpos", explica Disiviscour. E mostra fotos, tiradas este domingo, em que se veem os mergulhadores cobertos de plantas verdes.

As plantas dificultaram mesmo o avanço do barco salva-vidas da proteção civil e obrigaram a equipa a mudar a forma habitual das buscas. "Normalmente pomos uma bóia no local em que a pessoa foi vista e começamos a procurar em círculos em torno dela, prolongando os círculos a cada passagem. Mas com estas plantas aquáticas, não conseguimos passar, as cordas prendem-se nas plantas". A solução foi mudar de estratégia. "Agora temos outra tática: usamos uma barra que é arrastada pelos bombeiros ou por um barco", explica.

Um dos mergulhadores do Corpo Grão-Ducal de Incêndio e Segurança, coberto de "wasserpest", a planta que infesta o lago.
Um dos mergulhadores do Corpo Grão-Ducal de Incêndio e Segurança, coberto de "wasserpest", a planta que infesta o lago.
Foto cedida ao contacto pelo Corpo Grão-Ducal de Incêndio e Segurança (CGDIS)

As plantas que dificultaram o avanço dos mergulhadores são conhecidas por "wasserpest" ("praga de água"), o nome dado na Alemanha a esta espécie invasora com o nome científico "Elodea canadensis". A planta aquática, que se desenvolve com extrema rapidez, é identificada num relatório sobre o lago de Remerschen publicado em janeiro de 2011 pelo Departamento da Administração da Água do governo luxemburguês. O documento diz que a espécie "invadiu o lago" e que a autarquia "tenta limitar a proliferação destas plantas com um barco-cortador que corta, apanha e evacua as algas macrófitas".

A autarquia disse ao Contacto que corta as algas todos os dias. O problema é que a máquina só chega "a um metro e meio abaixo da superfície", diz o chefe dos mergulhadores. Abaixo desse nível, ou em zonas em que a autarquia não passou, é uma selva, em áreas que chegam a ter três a seis metros de profundidade.A "praga de água" também pode pôr em perigo os nadadores, alerta o chefe dos socorros aquáticos. "Nos manuais alemães, estas plantas são consideradas um factor de risco de afogamento", diz Roland Disiviscour, frisando no entanto que as causas da morte das vítimas ainda não são conhecidas e que as causas de afogamento são complexas.

Por que se afogam as pessoas?

“Comecemos pelo princípio: há várias formas de se afogar", explica o chefe dos mergulhadores ao Contacto. "Um afogamento primário é sempre um problema de cansaço. As pessoas vão além das suas competências, nadam para demasiado longe, cansam-se e começam a afundar-se, vêm à tona, afundam-se, e ficam cada vez mais cansadas". Mas não terá sido esse o caso do rapper português e do visitante búlgaro, aponta. “Nos dois casos em Remerschen, as testemunhas disseram que as pessoas não voltaram à tona. Aqui, podemos falar de um afogamento secundário". Neste caso, as pessoas começam por perder a consciência, vão ao fundo, e só depois é que inalam água e se afogam. "Isso pode acontecer quando alguém salta de muito alto e sofre um golpe nas mucosas, ou num choque hipotérmico, quando se esteve muito tempo ao sol, se esteve a praticar desporto, ou a pessoa bebeu álcool ou ingeriu substâncias tóxicas". Há ainda a ter em conta a possibilidade de um choque provocado por "alergia a certas algas", diz o mergulhador - uma informação também apontada por sites especializados na prevenção de afogamento, consultados pelo Contacto. "Estas algas são cortadas a 1,50 m abaixo da superfície. Por isso, em princípio, quem está na horizontal na água não está em contacto directo com elas. Mas a partir do momento em que se mergulha, é possível que as pessoas, ao tentar voltar à superfície, fiquem presas lá dentro", acrescenta o mergulhador.

Roland Disiviscour é cauteloso e volta a frisar que as causas dos afogamentos não são ainda conhecidas, e que o álcool e um comportamento temerário podem ter estado na origem dos acidentes. Certo é que "o último corpo resgatado estava completamente enredado nestas algas", aponta, recordando que no caso do rapper português também foi assim. "Foi duas vezes a mesma situação. Mas é preciso ver que os corpos foram encontrados no fundo, onde há estas algas, e os corpos foram encontrados envolvidos nestas algas. Daí a dizer que a culpa foi das algas... Para lhe dizer quem ou o quê são a causa [dos afogamentos], não sei dizer. Mas é um facto que as algas colocam um grande problema à nossa missão", frisa.

O Contacto pergunta ao responsável da proteção civil se tem conselhos para melhorar a segurança do lago. "Para a nossa missão, seria mais fácil se não houvesse estas algas", diz, apontando que no lago de Echternach a praga foi controlada com a introdução de peixes que se alimentam da planta. Na Global Invasive Species Database, uma base de dados pública com informações sobre como combater a proliferação de espécies daninhas, alerta-se que o corte da planta aquática "Elodea Canadensis" - a mesma que infesta o lago de Remerschen - pode ser contraprodutivo e levar mesmo à multiplicação da planta.

A praga dos nadadores

Do lago sai um homem a pingar água, vestido com fato de surfista. Quem for de manhã cedo ao lago de Remerschen é bem capaz de encontrar Roland Reding a treinar para o triatlo, uma prova de esforço que envolve natação, ciclismo e corrida. Na última prova em que participou, em julho, na Alemanha, fez 3,8 quilómetros de natação, 180 km de bicicleta e 42 km a correr, "em 13 horas e cinco minutos". Três vezes por semana, o luxemburguês nada de uma ponta à outra do lago de Remerschen, 600 metros para lá, 600 para cá. E as algas? "Há tapetes. Eles cortam-nas com regularidade, mas elas crescem depressa. Num dia não há, no outro estão de volta", conta ao Contacto. "Frequentemente, fico preso nas plantas, fico com algas à volta do pescoço. A primeira vez que me aconteceu fiquei em pânico", admite o luxemburguês, que vai fazer 60 anos, nada há dez no lago e antes de se reformar foi cozinheiro na prisão de Schrassig, e não se assusta com qualquer coisa. "Não se consegue avançar, ficamos com plantas entre os dedos. É preciso dar a volta, ou não se consegue avançar".

Para quem não tem a experiência de Roland, ficar preso nas algas pode "provocar o pânico", defende. "Para alguém que não sabe nadar, é muito perigoso", diz, mas é da opinião que nos afogamentos recentes a culpa foi do álcool. E ele, tem medo da "wasserpest"? Ri-se. "É quase impossível uma pessoa afogar-se com este fato de neoprene, não se vai ao fundo. Para mim, a parte mais perigosa é vir de carro até ao lago", brinca o luxemburguês.

Afluência bate recordes com onda de calor

Apesar das duas mortes, o lago continua aberto ao público. "Quando alguém morre num acidente de carro, as estradas também não são fechadas, a vida continua. O lago também faz parte da vida da comuna", justifica Dominique Fagny, a funcionária camarária que assegura a gestão diária do recinto e que acompanhou o Contacto aos locais onde as vítimas se afogaram.

O lago artificial foi criado num local onde nos anos 1950 se extraía cascalho para a indústria. Mais tarde, as gigantescas valas, com três a seis metros de profundidade e um perímetro de dois quilómetros, foram inundadas por águas subterrâneas. O local esteve para ser uma central nuclear, mas a luta da população levou à criação de uma reserva natural, em 1998. Hoje a zona balnear atrai milhares de visitantes. Com a onda de calor que o Luxemburgo atravessa há semanas e o fecho dos outros dois lagos do país, por causa de uma infestação de algas azuis, este ano Remerschen está a bater recordes de afluência. "Há dias em que há tanta gente que nem se vê o lago", diz um dos funcionários do bar, concessionado pela autarquia a privados. Aos fins-de-semana, o lago recebe "três mil visitantes por dia", garante a responsável do recinto.

Sem nadadores-salvadores e com uma grande superfície, a segurança é um problema. Não há nenhuma parte do lago em que seja proibido nadar. Como não há nenhum aviso sobre a existência das algas e dos perigos que colocam aos nadadores. Na enseada principal onde o rapper se afogou, não havia avisos de que a área não fosse vigiada, na primeira vez que o Contacto lá esteve. Na última, esta quarta-feira, tinham sido colocados avisos em folhas de papel plastificadas presas em arbustos e caixotes do lixo.

Dias depois de o rapper português se afogar, o Contacto questionou a autarquia e o Ministério do Interior sobre a segurança do espaço. Na altura, ambos descartaram qualquer responsabilidade: o Governo disse que é à autarquia que cabe zelar pela segurança, e esta, por sua vez, disse que não tem capacidade para vigiar o lago todo, e que só o laguinho reservado às crianças - com 80 cm de profundidade - tem um vigia permanente, com outro na área de jogos. Mesmo depois de mais um morto, a autarquia mantém a mesma defesa e admite que não reforçou a vigilância. "Tentamos fazer mais avisos às pessoas, mas não reforçámos o pessoal", disse esta quarta-feira ao Contacto o vereador Tom Weber. E apesar de admitir que os vigilantes não têm curso de nadador-salvador, defende que "o pessoal é bem formado". "Um deles trabalha há dez anos no lago e já salvou pessoas. Em junho salvou duas mulheres, mas disso ninguém fala, só se fala quando não salvamos alguém".

Sobre a "praga de água", o vereador diz que desconhece a existência de uma planta chamada "wasserpest" e não sabe o nome das algas que infestam o lago, mas afirma que "os dois mortos não tiveram problemas" com elas. "O último morto que tivemos - ainda não temos o resultado da autópsia - deve ter sido um ataque cardíaco". E no caso do rapper? "Ele não se debateu, porque teve uma crise. Ainda estamos à espera do resultado da Polícia, mas creio que o problema foi uma crise".

O edil também desmente que as plantas sejam cortadas a apenas 1,50m de profundidade, como diz o chefe de salvamento aquático da proteção civil. "Penso que cortamos a dois metros de profundidade". Perguntamos-lhe se, ao cobrar a entrada no recinto, a Câmara não tem a obrigação de assegurar a segurança dos banhistas. "Temos vigilância para as crianças. Mas para quem nada no lago, não o fazemos, e isso está assinalado. Compreendo no entanto que os clientes fiquem zangados com a situação", diz o vereador. O problema, objetamos, não é ficarem zangados, é morrerem.

A autarquia diz que as receitas brutas anuais com o lago oscilam entre os 50 e os 80 mil euros. Este verão, as receitas dispararam: só num mês, a Câmara terá facturado o mesmo que nos anos anteriores, por causa da onda de calor e do encerramento dos outros lagos. Mas Tom Weber diz que os salários do pessoal absorvem todas as receitas, e que se a autarquia contratasse nadadores-salvadores teria de aumentar o preço de entrada, atualmente de quatro euros.

Mas pode a autarquia explorar um lago, com ou sem lucro, promovê-lo no Facebook, e afastar toda a responsabilidade, pelo menos moralmente? "Moralmente não está bem, isso é certo, porque nós na comuna também não estamos contentes por ter dois mortos numa época balnear", diz.

Apesar disso, não muda uma vírgula às justificações que já tinha dado ao Contacto quando o rapper português morreu. "Como é que podemos vigiar o espaço todo? É esse o problema". Recordamos-lhe que o português morreu na enseada principal, a escassos metros da área de jogos. Se houvesse um nadador-salvador, essa morte não poderia ter sido evitada? Tom Weber diz que um vigilante interveio após ter sido dado o alerta, mas não conseguiu encontrá-lo. "Não sei se tendo um nadador-salvador seria impossível passar-se alguma coisa. O lago é grande. No laguinho [das crianças] é mais fácil", diz.

Escassos metros antes do local onde ocorreu o último afogamento, um sinal avisa que a área não é vigiada.
Escassos metros antes do local onde ocorreu o último afogamento, um sinal avisa que a área não é vigiada.
Foto: Henrique de Burgo / Contacto

Andar em círculos

O dicionário define tautologia como uma "repetição inútil da mesma ideia por outras palavras". Eis uma tautologia: "As coisas são como são". A frase até pode ser verdadeira, mas não explica como é que as coisas são, por que razão são como são ou se podiam ser de outra maneira. Os franceses chamam-lhe "verdades de La Palice", como na frase "se ele não tivesse morrido, ainda estaria vivo". É difícil não ver nas explicações da autarquia alguma desta lógica em círculos.

Dominique Fagny, a funcionária camarária que assegura a gestão diária do lago, serve de guia ao Contacto e repete a mesma justificação da Câmara. "Não podemos vigiar todo o lago, porque é enorme", diz. O lago tem um perímetro de dois quilómetros, e é indiscutível que seria difícil, se não mesmo impossível, vigiar toda a superfície. Mas nas visitas que o Contacto lá fez, em dias diferentes, a maioria dos banhistas concentrava-se na zona perto da entrada, onde ficam o bar com a esplanada, as casas-de-banho e a área de jogos. Por que razão não vigiam pelos menos a pequena enseada onde fica a zona de jogos, de acesso pago, e onde a maioria dos banhistas se concentra - a mesma onde o rapper português se afogou? "Se vigiássemos esta zona, também íamos ser obrigados a vigiar as restantes", defende a gerente. E aponta que o último afogamento aconteceu numa clareira a cerca de cem metros do bar, no lado oposto ao sítio onde o rapper português se afogou, na margem de um caminho com um sinal que diz, em francês e alemão, "Área não vigiada - banho por sua conta e risco". E depois, diz Dominique Fagny, ter nadadores-salvadores não garante a cem por cento a segurança dos banhistas. "Viu o caso daquele menino de seis anos que morreu na sexta-feira, na piscina de Grevenmacher? A piscina tem seis nadadores-salvadores e mesmo assim ele afogou-se". É difícil objectar: de facto, mesmo com nadadores-salvadores, as pessoas podem morrer afogadas. A questão é que, quando não os há, não se pode tentar salvá-las. Poderia o rapper português ter sido salvo, se o lago tivesse salva-vidas qualificados? A pergunta continua sem resposta.

Dominique Fagny diz que o dinheiro pago pelos visitantes não se destina à segurança, mas a assegurar a limpeza do local. A maioria do pessoal contratado pela Câmara dedica-se a essa missão: cortar as plantas aquáticas, manter as casas-de-banho limpas, limpar o areal, remover "o cocó dos patos" para manter a água limpa. A responsável interrompe a explicação quando vê um objeto a reluzir no cascalho. Uma rodela de metal faísca à luz do sol, como se fosse de ouro. Dominique Fagny dá uns passos na direcção do objeto e baixa-se para o apanhar. É uma carica de cerveja. Dá mais uns passos em direção ao caixote do lixo e deita fora a tampa. O areal voltou a estar limpo.

Paula Telo Alves e Henrique de Burgo

Correção em 16 de agosto: A versão original desde artigo indicava, citando uma testemunha, Luís Carvalho, que Puto G já estaria no lago, rodeado de amigos a "beber e a fumar", quando se dirigiu sozinho à água, um relato posto em causa pelos amigos que o acompanhavam. O Contacto voltou a questionar Luís Carvalho, que reconheceu que não conhecia Puto G e não seria capaz de o identificar, invalidando o testemunho anterior de que o viu ir para a água depois de estar a fazer um piquenique com amigos.  


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