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O medo do mar não impediu Dina de atravessar o oceano para chegar ao Luxemburgo

O medo do mar não impediu Dina de atravessar o oceano para chegar ao Luxemburgo

O medo do mar não impediu Dina de atravessar o oceano para chegar ao Luxemburgo

O medo do mar não impediu Dina de atravessar o oceano para chegar ao Luxemburgo


por Sibila LIND/ 29.02.2020

Foto: Sibila Lind

Dina Kim pensava que ia viver a vida toda na Síria. Com 40 anos, foi obrigada a deixar o país e tudo o que construiu. De diretora de uma empresa de produção digital tornou-se refugiada. Agora, com 45 anos, vive em Clervaux, onde começou a vida do zero.

Dina tem medo do mar. Nunca aprendeu a nadar. Mas, pior do que estar num barco no meio do oceano, com dezenas de pessoas de olhar assustado e algumas aos gritos, foi estar fechada num camião, em pé durante horas, sem conseguir ver mais do que a escuridão. “Estás aí?”, perguntava ao irmão. “Estou”. “Estás aí?”, perguntava-lhe minutos depois o irmão. “Estou”. Não se viam, e a voz era a única forma de saberem um do outro. Durante toda a viagem, Dina sentia que estava num filme. Diferente dos que fazia na sua empresa, antes de a guerra começar. Estes eram animados e com cor, como a Síria onde cresceu.

Dina não sabia o que era sentir medo, até um dia uma bomba ter caído perto de si, poucos meses depois do conflito na Síria ter começado no final de 2011. Até então, nunca tinha sentido nada igual. Decidiu fechar a sua empresa de produção digital, “On Team Studio”, com cerca de 30 pessoas, e trabalhar em casa. Ia editando os vídeos ao som das bombas que caíam de cinco em cinco minutos. “Uma pessoa habitua-se. A vida continua”, diz. Se ouvia as bombas a cair da esquerda, ia para a direita. Mas, quatro anos depois, percebeu que se ficasse no país morria e, com 40 anos, começou a preparar a sua fuga.

Foto: Sibila Lind

Ofereceu a roupa a associações e deixou os objetos com valor sentimental guardados em casa. A chave deu ao primo, que vivia em frente. E partiu, com o irmão mais novo. A dificuldade de conseguir um visto obrigou-a a fazer a viagem perigosa a que milhares de refugiados estão sujeitos. “Os meus sapatos não se molharam. Não te preocupes com o mar”, encorajou-a um amigo que tinha deixado a cidade há duas semanas, para embarcar na mesma travessia. 

Dina e o irmão chegaram ao Líbano de táxi. Através do facebook, descobriram quem os poderia levar até à Grécia. Pagaram cerca de cinco mil euros para fazerem a travessia. Em Bodrum, na Turquia, encontraram também escritórios e apartamentos onde podiam pagar para viajar ilegalmente até à Europa. Mas, quando lá chegaram, a notícia de Alan Kurdi, o menino de três anos que morreu afogado, estava a correr o mundo. Depois deste incidente, os próprios traficantes decidiram suspender as viagens ilegais, o que dificultou o percurso de Dina.

Conseguiu arranjar quem a levasse de barco, mas por três vezes teve de voltar para trás, já depois de estar no meio do mar. Havia sempre algum impedimento, ou o motor do barco falhava ou aparecia a polícia marítima. Os irmãos decidiram assim mudar o plano e ir para Esmirna. Foi aí que passou o pior momento da travessia, duas viagens dentro de dois camiões, a primeira com 17 pessoas, durante vinte minutos, a segunda com 80 pessoas, durante mais de seis horas. Foi a muito custo que Dina entrou nos camiões, mas sabia que tinha chegado ao ponto de não retorno. Já não podia voltar para trás.

Dina segura um colar que trouxe consigo ao peito durante toda a viagem
Dina segura um colar que trouxe consigo ao peito durante toda a viagem
Foto: Sibila Lind

As mulheres grávidas iam sentadas no chão, Dina ia agarrada ao irmão. Agachavam-se os dois de frente um para o outro, para poderem repousar um bocado. Quando saíram do camião, tiveram de andar pelo meio da floresta até chegar à costa, onde encontraram centenas de refugiados. E, mais uma vez, havia todo um negócio criado à volta do desespero destas pessoas: todas as lojas e supermercados de rua tinham coletes à venda, “como se vendessem chocolates”, conta Dina. Na praia, havia nove barcos de borracha, com cerca de nove metros. Depois de três viagens de barco, Dina já sabia qual era o melhor lugar para fazer a travessia: sentada na borda e curvada para a frente.

A seu lado, além do irmão, estavam cerca de 40 pessoas. Guiava o barco um homem que foi escolhido pelos traficantes entre os refugiados, que em troca pagou menos para fazer a viagem. Dina tinha o colete vestido e segurava duas boias, com o medo de cair ao mar. Trazia consigo o telemóvel, o passaporte e uma pequena mala de tiracolo. Teve de se abstrair daquilo que via e fugir da realidade. Desviou o olhar das mulheres e crianças que choravam e gritavam à sua volta, para olhar apenas para a costa turca e, depois de algum tempo em mar, virar o olhar para a costa da Grécia. Foi a forma que encontrou para não se desmotivar e se deixar levar pelo medo.

Porquê? Por que é que temos de passar por isto?

Chegar à Grécia, a Mitilene, foi poder respirar de novo. O pior tinha passado. Saltou do barco e caminhou com a água pelos joelhos até à areia. Sorriu ao olhar para baixo, afinal, sempre ficou com os sapatos molhados. Mas estava em terra. E a seu lado, as pessoas dançavam e festejavam. “Bem-vindos à Europa”, disse-lhes uma voluntária holandesa, e abraçou-os. Na cabeça, Dina só pensava numa coisa: “Porquê? Por que é que temos de passar por isto?” Receberam água e fruta, e continuaram o caminho a pé. Dias depois, chegaram a Atenas. Pelo caminho dormiram na rua ou em hotéis. Dina queria ir para a Alemanha, o irmão para a Holanda. Mas, através das notícias, percebeu que a Alemanha já estava sobrelotada. Começou a pesquisar e encontrou o Luxemburgo.

De autocarro, a pé e de comboio, percorreram as fronteiras de mais de seis países: Macedónia, Sérvia, Croácia, Eslovénia, Áustria, Alemanha. No dia 29 de setembro de 2015 entraram no Luxemburgo de autocarro, um mês e meio depois de terem saído da Síria. “Estamos em casa”, pensou Dina. A arquitetura foi o que mais a fascinou. Ficou admirada com os telhados pretos e escuros. A imagem da estátua da Gëlle Fra à frente do céu azul também lhe ficou na memória. Caminhou pelo centro da capital e quando chegou às ruínas das Casemates du Bock, sobre o Grund, pensou que ia ver o mar lá em baixo. Mas encontrou antes um manto verde.

Foto: Sibila Lind

 

Dina e o irmão acabaram por ser acolhidos num centro para refugiados em Marnach, onde viveram durante um ano. Tinham as necessidades básicas asseguradas e recebiam 25 euros por mês. Com esse dinheiro, Dina comprava missangas para fazer espanta-espíritos e pequenas peças de artesanato. Esperou oito meses até receber o estatuto de refugiado, menos um mês do que o irmão. A partir daí, os seus caminhos separaram-se. Instalou-se num estúdio em Clervaux e recomeçou a sua vida.

Depois de fazer vários workshops, de línguas e integração, e terminar um estágio de três meses numa empresa de design gráfico, decidiu arrancar com um projeto pessoal. Em 2017, voltou a criar uma empresa de produção digital: “On Studio” – em vez de “On Team Studio”, o nome da sua antiga empresa –, porque desta vez não tem a sua equipa ao lado. Desde o primeiro dia, que Dina decidiu não fazer comparações entre a sua vida antiga e a atual. Não gosta de recordar o passado, sabe que não é possível voltar atrás.

Agora, o plano é aprender luxemburguês e fazer vídeos de animação. Pensa todos os dias no seu país, mas sabe que o retorno vai demorar. “ Damasco que conheceste já não existe”, disse-lhe a mãe por telefone, depois de ir visitar a cidade. Na Síria, Dina tinha muitas certezas. Sabia bem o que queria vida. Agora, no Luxemburgo, é um dia de cada vez.

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