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O Luxemburgo já não é o El Dorado
Luxemburgo 19 min. 29.12.2021 Do nosso arquivo online
Emigração

O Luxemburgo já não é o El Dorado

Famílias portuguesas são as que menos dinheiro têm para viver no país e estão em maior risco de cair na pobreza.
Emigração

O Luxemburgo já não é o El Dorado

Famílias portuguesas são as que menos dinheiro têm para viver no país e estão em maior risco de cair na pobreza.
Ilustração: Alex Gozblau
Luxemburgo 19 min. 29.12.2021 Do nosso arquivo online
Emigração

O Luxemburgo já não é o El Dorado

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Pensem bem antes de emigrar para o Grão-Ducado, alerta quem conhece as dificuldades da nova emigração, pouco qualificada. Estas famílias portuguesas são as que menos dinheiro têm para viver no país e estão em maior risco de cair na pobreza, indica um novo relatório. As vidas de quem emigrou para pior e de quem está a regressar a Portugal.

As famílias portuguesas no Luxemburgo são as que possuem um rendimento mensal mais baixo, cerca de 2335 euros/mês, entre as principais comunidades imigrantes, e também as que estão em maior risco de cair na pobreza.

Os trabalhadores portugueses são os que mais acidentes de trabalho sofrem, e que mais doenças físicas e psicológicas desenvolvem, sobretudo as mulheres. E os imigrantes que mais estão a regressar ao país natal.

Este é o retrato atual dos portugueses no Luxemburgo revelado pelo “Relatório do Trabalho e Coesão social 2020”, do Instituto Nacional de Estatística e Estudos Económicos do Grão-Ducado (Statec).

Mas, atenção. Esta realidade que não ilustra a comunidade portuguesa em geral no país, mas sim a da emigração mais recente e pouco qualificada, defendem os especialistas. 

Nos últimos anos, para estes trabalhadores, o Luxemburgo só tem para lhes oferecer trabalhos precários, mal pagos, e em que o salário não chega para viver dignamente até ao final do mês. “O Luxemburgo já não é o 'El Dorado'”, garante quem conhece bem as dificuldades dos novos pobres no pequeno, mas muito rico país.


Relatório conclui que a perda da imigração portuguesa no Luxemburgo tem vindo a acentuar-se entre 2003 e 2020.
Percentagem de portugueses que entraram no Luxemburgo diminuiu 12,4% em 2020
Relatório conclui que a perda da imigração portuguesa no Luxemburgo tem vindo a acentuar-se entre 2003 e 2020.

Associações e Embaixada têm lançado alertas para que os portugueses que desejam emigrar para o Luxemburgo não o façam de ânimo leve, sem contrato de trabalho efetivo, e depois de se informarem bem do custo de vida no país, e fazerem contas, para que não corram riscos de ficar numa situação difícil, pior do que em Portugal.

O salário mínimo que o Luxemburgo oferece é o mais elevado da Europa e o segundo maior do mundo, a seguir à Austrália. Para trabalhadores não qualificados o salário mínimo é de 2.256,95 euros brutos, enquanto o de Portugal é de 655 euros.

Uma diferença grande demais e que faz acreditar que o sacrifício de emigrar compensa, sobretudo quando os familiares e amigos imigrados no Luxemburgo, há longos anos, são o exemplo de que o país é o melhor lugar para ganhar bem e fazer um belo pé de meia. Só que já não é assim, para quem tem poucas qualificações.

Está a ser muito difícil conseguir ter dinheiro até ao fim do mês, sobretudo quando surgem extras como ter de comprar roupa quente para o meu filho. Faço tudo para que ele não perceba as nossas dificuldades, nunca falo disso ao pé dele, mas ele já é crescido e percebe.

Maria

Maria já leva seis meses de trabalho no Luxemburgo. E todos os dias faz contas à vida. De quando em quando “penso em regressar a Portugal, mas lá também é tudo muito difícil e se é para ficar na mesma, prefiro continuar aqui”, diz-nos, esta portuguesa que pediu para não ser identificada com o nome verdadeiro. Por isso, Maria, é nome fictício. 

Esta portuguesa, que vive com o filho de 17 anos, já tinha estado no Luxemburgo durante três meses. “Só que vim sozinha e acabei por voltar para Portugal por causa do meu filho”, conta. Mas, tudo continuou difícil e, este ano, decidiu tentar novamente uma vida melhor no Luxemburgo, juntamente com o seu filho. 

Quando chegou inscreveu o jovem num liceu e conseguiu logo um emprego num restaurante, onde ganha 1.650 euros por mês. Só que a renda do quarto, onde vive com o filho é de 900 euros, o que lhe leva grande parte do salário. “Está a ser muito difícil conseguir ter dinheiro até ao fim do mês, sobretudo quando surgem extras como ter de comprar roupa quente para o meu filho. Faço tudo para que ele não perceba as nossas dificuldades, nunca falo disso ao pé dele, mas ele já é crescido e percebe”, diz Maria, que não tem outra hipótese senão recorrer aos apoios sociais do estado. São essas ajudas que está a tratar de receber agora.


Portugueses possuem o maior risco de cair na pobreza
Do total de residentes do Luxemburgo em perigo de viver abaixo do limiar da pobreza, 30% são portugueses.

O filho, embora se “esteja a adaptar bem” à nova escola e novo país, “queixa-se de como vivemos, a partilhar os dois um quarto numa casa com outra família, que também tem um quarto alugado, e onde ele não se sente à vontade”. 

Têm de partilhar a cozinha e casa de banho, mas acabam por estar sempre no quarto onde até almoçam e jantam. “Em Portugal, vivíamos numa casa alugada e o meu filho tinha o seu quarto, por isso, pede-me para encontrarmos uma casa só para nós”. 

Maria quer acreditar que a situação é temporária e que irá conseguir mudar-se para uma casa melhor e dar um quarto ao seu filho. A par com o apoio social quer também inscrever-se numa casa de renda acessível. “Vamos ver como vai correr, mas para já não penso em voltar. Quero tentar ter uma vida melhor aqui. O dinheiro lá também não chegava”.

Os novos pobres

Segundo o relatório do Statec, o nível médio de vida das famílias no Luxemburgo é 3.641 euros mensais. Os portugueses são os que dispõem de um rendimento mais baixo, de 2.335 euros mensais, por agregado familiar. “Os agregados familiares cuja pessoa de referência é portuguesa são os menos abastados, com um nível de vida médio inferior à média nacional, enquanto que os que têm uma pessoa de referência francesa são os que estão em melhor situação”, lê-se no relatório sobre o Trabalho e Coesão Social no Luxemburgo. 

Os agregados franceses dispõem de 4.314 euros/mês, os alemães de 4.001 euros, belgas e luxemburgueses de 3.941 euros e 3.914 euros respetivamente, os italianos de 3.863 e os portugueses de 2.335 euros. No total, um em cada cinco agregados familiares do país possuem um rendimento inferior a 2.000 euros por mês.

No Grão-Ducado, uma pessoa é considerada pobre quando o seu rendimento mensal é inferior a 1.882 euros por mês, indica o Statec. O salário de Maria não chega aos 1.700 e como ela há muitos trabalhadores imigrantes recentes que precisam de apoios sociais para viver no país.

Infelizmente a situação precária da maioria dos portugueses, que vieram para o Luxemburgo nos últimos dois anos, continua a ser um grande problema para os Serviços Sociais Luxemburgueses, que neste momento é agravado por conta da pandemia.

Alice Santos, C.A.S.A.

Os serviços sociais do Centro de Apoio Social e Associativo (C.A.S.A.) conhecem bem as dificuldades pelas quais passam muitos portugueses, imigrantes recentes, que procuram o centro para os mais diversos apoios como o de encaminhamento dos processos para os organismos sociais de auxílio.

“Infelizmente a situação precária da maioria dos portugueses, que vieram para o Luxemburgo nos últimos dois anos, continua a ser um grande problema para os Serviços Sociais Luxemburgueses, que neste momento é agravado por conta da pandemia”, explica ao Contacto Alice Santos, dos serviços sociais do C.A.S.A..

“São portugueses, na maioria oriundos das ex-colónias, que vieram à procura de uma vida melhor e não conseguiram encontrar nem sequer sítio para viver”, conta esta portuguesa a “quem custa muito não conseguir dar respostas positivas” a estas pessoas.

Aos serviços sociais desta associação acorrem “guineenses, cabo-verdianos e senegaleses, entre outros com a nacionalidade portuguesa, que tentam sobreviver em condições extremamente difíceis”. 

Alice Santos dá o exemplo: “Desde há dois anos que um casal com dois filhos estão a viver em dois quartos, pelos quais pagam 1.750 euros mensais, numa residencial com cozinha e casa de banho a partilhar com mais 30 moradores”. 

A verdade é que os portugueses continuam a vir para cá e depois pedem ajudas, mas o Luxemburgo está a dificultar muito.

Alice Santos, C.A.S.A.

Esta família sobrevive com o ordenado do pai, em situação precária, porque se encontra desempregado e da ajuda que o Fonds National de Solidarité paga mensalmente e têm ajudas para ir ao CentButtek, onde podem comprar alimentos a baixo custo”.

A Associação C.A.S.A. e o seu presidente, José Trindade, continuam “a emitir alertas nas redes sociais e até em jornais locais portugueses para que as pessoas não venham sem ter um compromisso de trabalho e alojamento, mas não tem servido, infelizmente”, vinca Alice Santos.

“A verdade é que os portugueses continuam a vir para cá e depois pedem ajudas, mas o Luxemburgo está a dificultar muito, devido à falta de habitação. Trabalho ainda se consegue encontrar, mas nas empresas de trabalho temporário, sem direito a férias, e com contratos semanais que lhes tiram todas as possibilidades de aceder ao mercado imobiliário. As pessoas sujeitam-se a viver em quartos tão pequenos da largura de uma cama e com um armário de parede”, diz esta portuguesa que coordena os processos dos serviços sociais do C.A.S.A.. Além de terem de trabalhar “mais de 10 horas a mais para conseguirem um ordenado decente”.

“Os portugueses estão muito mal, e é muito triste o que se passa aqui com os nossos compatriotas. Mas são sobretudo estes casos que falei, ou então pessoas que tiveram outros problemas na vida, e ainda não tinham carreiras completas e ficam em situação difícil”. Alice Santos reconhece que “por vezes era preferível voltarem para Portugal, mas a maioria não quer regressar sem nada”.

Ilustração: Alex Gozblau

Ficar na miséria

A Caritas Luxemburgo é uma das entidades onde recorrem muitas pessoas, entre elas portugueses, quando estão em dificuldades, numa situação de urgência, que ficaram sem trabalho, ou porque o rendimento familiar de repente diminuiu, e é tão baixo que não conseguem sobreviver até ao final do mês sem uma ajuda, por exemplo, de comprar bens alimentares a menor preço.

A crise aguda, no auge da pandemia, já foi atenuada, mas continua a haver muitas pessoas, entre luxemburgueses e imigrantes a procurar os serviços da Cáritas, nomeadamente as mercearias sociais. “Estamos com uma procura maior do que na era pré-pandémica”, declara ao Contacto Marco Hoffmann, responsável pelo Serviço de Trabalho Social Comunitário da Caritas Luxemburgo. 

No pico da crise da covid esta entidade criou um serviço de apoio, a Caritas Corona Helpline, e dos 445 pedidos de ajuda que surgiram do outro lado do telefone, 19,4% foram de portugueses, revela o balanço sobre esta linha de ajuda da Caritas. Este serviço de urgência foi oferecido entre abril e setembro de 2020, quando a lista de espera era longa em muitos outros serviços sociais.

No total, a Helpline da Caritas ajudou 850 famílias nessa altura, que por causa da pandemia ficaram sem emprego ou com salário reduzido. A seguir aos luxemburgueses, os portugueses foram os que mais procuraram o apoio da Caritas, através da Helpline.


Covid-19. "Há pessoas que estão a passar fome mas que têm vergonha de admitir"
Estão a aumentar os portugueses que telefonam para as linhas de apoio a procurar ajuda por não terem dinheiro para sustentar a família devido à crise da pandemia, contam os responsáveis.

Marco Hoffmann realça que, em geral, o perigo de ser um novo pobre é maior entre os estrangeiros a residir no Luxemburgo do que para os nacionais. “São geralmente pessoas com menos qualificações e que ganham salários mais baixos, com trabalhos mais precários”, e cujo rendimento não permite poupar, explica este responsável. Assim, “se ficam sem trabalho, e caem no desemprego, não têm economias guardadas para fazer face à nova situação, podem ficar na miséria”.

Em relação aos portugueses terem a nacionalidade com maior risco de ficar na pobreza, Marco Hoffmann salienta que não conhece as qualificações dos trabalhadores em risco, mas “normalmente há muitos portugueses a trabalhar na construção civil e na restauração e nestes setores os salários não são elevados, pode ser uma das explicações”. 

Contudo, também Marco Hoffmann esclarece que esta é uma realidade que afeta principalmente a imigração mais recente. “Os portugueses que estão imigrados no Luxemburgo há muito tempo, a grande maioria tem as suas vidas estruturadas. É na nova imigração que este perigo da pobreza ocorre, entre os trabalhadores sem contrato ou com contrato temporário, pois estes possuem maior risco”.

“Não olhar só para o salário”

Para Marco Hoffmann, a primeira medida para diminuir o risco de pobreza é o “aumento do rendimento de inclusão social (Revis)”, um subsídio destinado a apoiar agregados familiares com um rendimento modesto e a proporcionar um meio de subsistência básico, a quem não o consegue. 

Mas, “mesmo com a ajuda social do Revis há agregados familiares que mantêm este risco”, diz este responsável da Caritas. O mesmo se aplica aos desempregados, muitas vezes oriundos de empregos menos qualificados e em situação de emprego precário. Nestes casos, o serviço social da comuna é o último recurso.

Por isso, aos portugueses e outros imigrantes que pensem em ir viver para o Luxemburgo, Marco Hoffmann deixa um conselho: “Não estou a dizer para não virem para cá, mas não se pode olhar só para o trabalho e para o salário, mesmo que seja superior ao que ganham nos países de origem. Também é necessário estar ciente do montante das despesas necessárias no Luxemburgo, especialmente os preços de habitação, que são muito elevados”. Antes de se decidir imigrar, todos estes cálculos devem ser feitos.

O mesmo alerta tem sido feito sucessivas vezes por António Gamito, embaixador de Portugal no Luxemburgo. “O Luxemburgo não é mais um ‘El Dorado’ para a emigração não qualificada”, garante António Gamito. 


Quando o dinheiro não estica até ao final do mês
Um relato arrepiante dos efeitos que a pandemia está a ter no dia a dia dos portugueses no Luxemburgo é o destaque desta semana da edição do Contacto.

E se a situação já era difícil, a pandemia veio agravar ainda mais o problema. “A pandemia aumentou o desemprego dos trabalhadores pouco qualificados, aumentou ainda mais a especulação imobiliária e aumentou o custo de vida no país. Para as pessoas que já viviam com dificuldades a vida ficou ainda mais difícil”, vinca o embaixador, sublinhando que o “preocupa muito e entristece” o facto de haver portugueses no país em situações tão difíceis, como revela o relatório do Statec. 

“Contudo, esta não é a realidade da comunidade portuguesa, mas sim de uma minoria, que é a nova emigração não qualificada, que vive numa situação de precariedade enorme, sujeitando-se a vidas muito duras que não são imagináveis num país desenvolvido como o Luxemburgo. Estas pessoas não conseguem sobreviver sem ajudas do estado. Na minha opinião, deveriam voltar para Portugal, porque aqui estão mais desprotegidas, lá sempre têm o escudo social e familiar, mas muitas não voltam por vergonha”, explica este diplomata. 

Mais uma vez, António Gamito frisa que estes casos podem ser consequência de uma “emigração mal preparada”. Antigamente, os trabalhadores não qualificados tinham sucesso no Luxemburgo, conseguindo poupar e ter a sua casa, mas “hoje já não têm devido às condições de vida altíssimas, como o preço da habitação, que um salário de um emprego precário não pode comportar”.

Muitas pessoas de Portugal vêm para cá ao engano. Dizem-lhes que este país é um mar de rosas, mas não é. Eu já tinha estado cá uma vez e fui enganada. Voltei para Portugal. Mas, depois casei-me e vim para o Luxemburgo de novo. Voltei a ser enganada.

Ana

A quem esteja a pensar emigrar para o Grão-Ducado, deixa o conselho: “Em Portugal, dirija-se à Embaixada do Luxemburgo e aos gabinetes de apoio à emigração das câmaras municipais para ser aconselhado. Para os trabalhadores qualificados, o Luxemburgo é um país interessante para emigrar, e temos muitos portugueses qualificados e com muito sucesso no país, mas para os trabalhadores sem qualificações já não é. Informem-se e pensem bem”.

Regressar a Portugal

Contudo, há quem esteja a voltar para Portugal. No ano passado, a nacionalidade portuguesa foi a nacionalidade estrangeira que mais deixou o Grão-Ducado, cerca de 2.700 pessoas, representando quase 18% do total das saídas do país (a emigração luxemburguesa liderou com 19%), segundo o relatório do Statec. 

Embora se desconheça o novo destino destes imigrantes, é provável que boa parte possa ter regressado ao país natal. “Desde o ano passado há mais portugueses a regressar a Portugal, imigrantes que por causa da pandemia perderam os seus empregos fixos e deixaram de ter aqui uma vida decente, não conseguindo agora comportar as despesas. Sobretudo os trabalhadores sozinhos”, confirma Alice Santos, do C.A.S.A.

O mesmo desejo de regresso tem Ana (nome fictício), que após seis anos imigrada diz estar na altura de voltar para o país natal. “Muitas pessoas de Portugal vêm para cá ao engano. Dizem-lhes que este país é um mar de rosas, mas não é. Eu já tinha estado cá uma vez e fui enganada. Voltei para Portugal. Mas, depois casei-me e vim para o Luxemburgo de novo. Voltei a ser enganada. Agora quero mesmo regressar a Portugal para o ano. Estou a fazer tudo para isso”, conta Ana, confessando-se desiludida com a vida no país de acolhimento. 

Da primeira vez, esteve sete meses no Luxemburgo, mas as coisas não correram como pensara, pelo que decidiu voltar para a terra natal, no norte de Portugal. “Fui ganhar menos, mas estava ao pé da minha família”, lembra. 

Só que depois casou-se e o marido emigrou para o Luxemburgo. Ana veio atrás dele. Só que a sua experiência profissional transformou a sua vida num inferno, tendo sido vítima de exploração laboral no setor da restauração que lhe deixou sequelas psicológicas que demoraram a sarar. “Tive de mudar de área de trabalho e começar de novo, mas em Portugal posso continuar neste novo ramo, por isso, regresso por opção própria. Nesta altura, prefiro estar no meu país, sinto-me melhor lá”, confessa Ana. E acrescenta: “Desde que estou no Luxemburgo, muita gente me pediu opinião e ajuda para imigrar para cá, mas eu digo sempre, deixa-te estar aí em Portugal que estás bem”.

No setor da construção civil, há muitos trabalhadores, entre os 30 e os 40 anos, que estão a regressar a Portugal. Nesta fase, não por não terem trabalho, mas por o custo de vida do país não compensar o salário mais alto que auferem em relação ao país natal. 


Regressar a Portugal para não passar fome
Sem emprego, dinheiro, nem perspetivas de novo trabalho para conseguir "viver decentemente no Luxemburgo" há quem não "encontre outra alternativa senão voltar para a terra natal", conta Alice Santos, dos serviços sociais do C.A.S.A..

“A grande maioria está cá sozinho e mesmo ganhando um salário inferior preferem voltar para junto dos filhos e da família. Chegam à conclusão de que já não vale a pena o sacrifício, de viver só, e a pagar 900 euros de renda de um quarto por cima de um café”, diz Liliana Bento, responsável do departamento de construção do sindicato LCGB. 

Mesmo que em Portugal, estes trabalhadores tenham de ir para uma obra noutra região, sempre dá para ver a família ao fim de semana, enquanto no Luxemburgo vão a casa apenas uma vez por mês, exemplifica esta sindicalista. Mas também há casos de trabalhadores com famílias que estão a regressar “porque os filhos estão na altura de iniciar a escola primária e os pais querem que as crianças façam o ensino em Portugal”.

Aos portugueses em situação difícil e que desejem regressar a Portugal, mas não tiverem condições para tal, o embaixador António Gamito lembra que podem contactar a embaixada e o consulado de Portugal no Luxemburgo, cujos serviços podem realizar o repatriamento dos casos devidamente comprovados. Na terra natal, junto da família, e com os apoios do estado português, todas as dificuldades superam-se melhor.

Mais acidentes e doenças de trabalho

Além dos empregos precários e mal remunerados, os portugueses são ainda os trabalhadores que mais acidentes e doenças de trabalho sofrem no Grão-ducado. O relatório do Statec revela que os homens portugueses são os que sofrem mais acidentes de trabalho, sendo a construção civil o setor com mais acidentados.

Liliana Bento começa por lembrar que, atualmente, “todos os estaleiros e trabalhadores cumprem todas as normas de prevenção de acidentes de trabalho, cujo número tem diminuído bastante”. Além de que, lembra, “a grande maioria dos trabalhadores deste setor são lusófonos, entre 80% a 90%”, o que explica as estatísticas. Contudo, e infelizmente, há acidentes com todas as nacionalidades, frisa a dirigente da LCGB.

Também as mulheres portuguesas (13,8%) são as segundas com maiores riscos de desenvolverem doenças associadas ao trabalho, a seguir às trabalhadoras alemãs (14,1%). Os problemas psicológicos, como stress, ansiedade ou depressão são, atualmente, os mais comuns entre as trabalhadoras, seguidas das doenças musculares. 

Para a psicóloga Sandra Rendall, este risco profissional é explicável do ponto de vista sociológico e psicológico. “A mulher portuguesa é o pilar da sociedade e o que se passa na esfera profissional é o reflexo da esfera privada e social”, declara esta especialista. 

E justifica: "Na comunidade, e apesar de ser o pilar, a mulher ainda é tratada como cidadã de segunda, e está menos protegida pelas leis laborais, há uma maior fragilidade de proteção, sobretudo nos empregos de pouca qualificação, onde tal se reflete mais”. E grande parte das portuguesas no Luxemburgo trabalham em setores precários, como nas limpezas ou restauração, onde os contratos são temporários e frágeis, vinca.

Ora, diz Sandra Rendall, “esta fragilidade laboral já é por si um contexto propício a abusos”, o que aumenta os riscos de problemas e doenças na esfera profissional, sejam físicas ou psicológicas. 


Portugueses estão a passar fome no Luxemburgo
A pandemia trouxe o desemprego e o desespero de não ter dinheiro para alimentar os filhos. Nunca houve tantos casos, entre eles famílias que sempre “viveram decentemente” no país. O testemunho de quem teve de regressar a Portugal e o relato de quem está no terreno a ajudar estes imigrantes.

Por outro lado, “entre mulheres, não se apoiam umas às outras, e as que se encontram numa posição superior, não protegem, nem zelam pelas mais frágeis”, é outra das características da mulher portuguesa. 

E, a psicóloga volta à esfera social e privada para explicar os riscos profissionais: “a mulher portuguesa tem de fazer tudo, é o pilar da casa, é trabalhadora, tem de desempenhar todas as funções, mas com pouco apoio. E nunca diz não, nunca estabelece limites, nem nunca pensa em si, nem cuida de si”. 

Para prevenir o desenvolvimento de problemas psicológicos, Sandra Rendall convida as portuguesas a “realizarem uma introspeção profunda à sua vida pessoal, social e profissional para perceberem como podem ser elas próprias e impor limites”.

Além de “investirem na sua saúde mental, e procurarem apoio psicológico como prevenção para trabalhar as competências em falta. Nós mulheres temos de saber tomar conta de mós mesmas. Encontrar tempo para nós, para descansarmos e termos prazer de viver. Tal é essencial para uma boa saúde mental. O psicólogo não deve ser procurado só em caso de intervenção, mas de modo preventivo”.

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Foi advogada e trabalhou na gerência de uma empresa em Portugal. No Luxemburgo começou por servir nos cafés e trabalhar nas limpezas. Isso permitiu-lhe dar o justo valor ao trabalho de todos, afirma e preparou-a para o seu trabalho de hoje, sindicalista na LCGB, trabalhando com os trabalhadores da construção civil. É candidata nas listas do PSD pelo círculo da Europa.