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O jornalista em que manda o coração
Luxemburgo 10 min. 11.11.2020 Do nosso arquivo online

O jornalista em que manda o coração

O jornalista em que manda o coração

Foto: DR
Luxemburgo 10 min. 11.11.2020 Do nosso arquivo online

O jornalista em que manda o coração

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Os jornalistas não são notícia. Mas o Álvaro Cruz saiu esta semana do Contacto, vítima, como muitos camaradas, da crise e do plano social. O seu trabalho fez muito o que de bom tem este jornal e a sua vida é uma história de luta e determinação de um emigrante português e um jornalista com um enorme coração.

Álvaro Cruz é uma pessoa com fé. “Não sou de ir muito à Igreja, mas rezo sempre.” A sua conversão deve-se muito a ter vivenciado momentos de pobreza na sua terra, e ter visto a ação do bispo de Setúbal. “Numa das primeiras crises do FMI, havia muita miséria e desemprego em Setúbal. E o bispo Dom Manuel Martins, o bispo vermelho, arregaçava as mangas e ia ajudar as pessoas. Eu era escuteiro e lembro-me de participar em algumas dessas ações”. Nunca gostou de injustiças, nem de ficar de braços cruzados. “Eu vi da parte dele, como membro da Igreja, ser o primeiro a dar o exemplo”, afirma.

É importante começar por dizer que nasceu em Setúbal. Aprendeu a nadar na doca dos barcos de pesca e desde muito miúdo que quis ser profissional de futebol. “Tinha uma paixão e acabei por a cumprir”. Mas a vida e o jeito para contar as história suas e dos outros, levou-o ao jornalismo, carreira que praticou durante 21 anos.

Mas comecemos pelo princípio, Nasceu a 19 de maio de 1964. Filho de uma doméstica e de um pescador. O pai era responsável das máquinas de um barco. Pescava a sardinha. A embarcação chamava-se “Lelé”.

Fez toda a sua formação no Vitória de Setúbal, o seu clube, mas confessa que ter um outro amor: “o clube que eu mais gostei de jogar foi a Casa da Cultura e Juventude de Setúbal, que foi uma instituição criada após a revolução, e eu identificava-me, porque ali se fazia muita coisa para além de jogar futebol. Aprendi a jogar xadrez, aeromodelismo e havia uma biblioteca.” Durante dois anos, conseguiu resistir aos convites do Vitória de Setúbal. Até que aos 12 anos acabou por ir para o grande clube da cidade. Teve um convite para o Sporting, mas mais uma vez as questões de coração falaram mais forte e manteve-se no Setúbal. Depois foi para o Elvas, altura em que foi chamado a fazer o serviço militar obrigatório. “Pensei que estava safo, mas como tinha o 12° ano e a marinha procurava gente com mais preparação, acabei por lá ir para parar”. Enquanto estava na marinha, jogou na Cova da Piedade. Teve a oportunidade de ser treinado pelo Mário Wilson que o marcou. “Era uma pessoa enorme, sabia muito e tinha a capacidade de cativar os jogadores”. E foi por conselho dele que foi para o Desportivo das Aves, depois de ter sido um dos melhores marcadores da zona sul. Jogava em que posição? “Nove, nove e meio, dez, sete. Era um polivalente, tanto jogava na esquerda como na direita”. Teve colegas o Jorge Jesus e o Otávio Machado, no Vitória de Setúbal. “O Jesus equipava-se mesmo ao meu lado”. O Jesus jogador durava cinco minutos com o Jesus treinador? Álvaro ri-se e comenta com amizade, “ele era bom tecnicamente, percebia muito de futebol. Mas o Jesus treinador é extremamente exigente, e ele às vezes preguiçava como jogador”(risos). “A alcunha dele era o carinhas, era bem disposto, estava sempre a fazer caras, e punha o balneário sempre a rir”. Foi também ele que pôs ao Álvaro a alcunha de Madié. “Dizia que eu ligava mais às miúdas do atletismo e da ginástica que ao futebol”. Ao Otávio Machado chamavam-lhe “o lacrau”.

Andou na tropa pelos fuzileiros e esteve também na Polícia Judiciária Militar, garante que nunca descobriu nada de especial, “era quase um empregado de escritório”. Já o treino de combate foi muito duro. “Mesmo em situações complicadas tem que se aprender alguma coisa”. A intervenção mais musculada que teve, enquanto militar, foi uma vez que uns comandos que tinham jurado bandeira em Tancos, apanharam o comboio e começaram a provocar alguns distúrbios. “Nós fomos esperá-los a Santa a Polónia e aquilo foi mesmo durinho”.

Não era para ir para o Luxemburgo, mas para os Emirados Árabes Unidos, que o tinham visto marcar três golos contra o Atlético, num loocal em que a seleção árabe estava a estagiar. Mas acabou por ir para o Dudelange. Aterrou no Luxemburgo em 1996. Na sua equipa só havia um português o que obrigou a integrar-se mais rapidamente na vida do Grão-Ducado. Mas o choque foi ainda grande, “eu vinha do futebol profissional e nunca tinha visto beber cervejas depois de acabar um jogo. Mas comecei a gostar do país, o facto de ser diverso nas suas nacionalidades e ter muitos portugueses ajudou”. “Vim com apartamento, carro e ordenado. As minha condições eram de jogador profissional”.

A mulher e as duas filhas juntaram-se a ele no Luxemburgo e no segundo ano, passou a jogar e a trabalhar numa empresa de produtos congelados.

O jornalismo foi uma sorte. Encontrou uma antiga professora primária de Setúbal, que era freira e que veio para o Luxemburgo e era revisora do jornal Contacto. Levou-o para o esse jornal, em 1998, como colaborador. Em 2000, abriu uma vaga de jornalista no jornal e entrou. Ainda jogava futebol. “Ainda joguei um ano”. Marcava? “Ainda marquei uns tantos, ainda deu para enganar”.

Mas como ainda em Portugal tinha sofrido uma lesão grave, uma fratura exposta da tíbia e do perónio, “os médicos deram-me uma espécie de previsão em relação à minha longevidade. E como já não me sentia no máximo da forma, resolvi passar para treinador”. Já tinha curso de treinador e ficou a coordenar as equipas jovens. E no ano seguinte ficou com a equipa principal.

Tinha imaginado ser jornalista? “Nunca. Fui jogador de futebol como carreira. O jornalismo aconteceu. Mas aprendi a gostar”.

Foi jogador de futebol durante 26 anos e jornalista durante mais de 21 anos. “Mas a escrita vai ficar sempre na minha vida”. Considera que foi “um casamento feliz”, “dediquei-me inicialmente a escrever sobre desporto, um mundo que eu dominava e como gostei sempre muito de ler e escrever as coisas começaram a correr bem”.

Houve um livro de Érico Veríssimo que o marcou. “Retratava as várias facetas da vida das pessoas pobres e isso marcou-me, porque fez-me lembrar várias pessoas que conheci ao longo da minha vida e como era possível tornar as suas histórias visíveis.”

Fez o curso de treinador da UEFA Pro com o Domingos Paciência. o Aloísio, o Rui Vitória e o Luís Castro. “Tive muito boas notas, fiquei sempre nos primeiros”.

Foi também o que sentiu no jornalismo, “à medida que vais avançando vais aprendendo mais coisas e tive com algumas pessoas até ao final da minha carreira que me ensinaram muito. E estava a sentir-me cada vez mais jornalista. Isso foi uma dádiva e tenho pena de acabar agora”.

Mas acha que vai acabar de ser jornalista? “Terminei o meu vínculo com o Contacto, fui envolvido no plano social. Não sei qual vai ser o meu futuro, para já estou desempregado”.

O despedimento e o plano social não foram fáceis. Ficou um certo sentimento de injustiça. “Já tinha resistido a três planos sociais. Dei-me sempre bem com toda a gente. Sempre tentei dar o meu melhor. Desde de miúdo que aprendi a ser um membro de uma equipa. Senti-me desiludido e defraudado, ainda estou a digerir esta fase que me custou imenso. Ainda estou um bocado confuso. Orgulhava-me de ter sido treinador de futebol e nunca ter sido despedido. E pensava que me ia reformar sem nunca ser despedido”. Mas isso não significa que está a passar a culpa dos despedimentos para quem trabalha? “Não. Tenho a certeza que a culpa não é minha. Penso que é injusto. Reconfortou-me ter centenas de pessoas que se mostraram solidários comigo”.

Nunca pensou em escrever livros? “Muitas vezes dizem-me isso. Porque eu gosto de contar histórias. E tive a sorte de viver alguns momentos que me marcaram e outros que aconteceram em tempos agitados. Mesmo que alguns deles me tenham passado literalmente ao lado. Estava na Rússia, com o Vila Real de Santo António, quando houve a tentativa de golpe em 1991, mas aí não vi nada. A minha equipa apanhou o último avião antes do aeroporto fechar. E só percebemos que tinha acontecido algo, quando à chegada estavam dezenas de jornalistas a perguntar-nos o que tínhamos visto.”

Na sua carreira de jornalista, mais do que as visitas de Estado e as personalidades que conheceu, marcou-lhe uma história em que pensa ter conseguido que a sua escrita tenha tido um efeito. Fez uma reportagem sobre uma festa de verão numa prisão, um dia que o estabelecimento tinha as portas abertas. Falou com os prisioneiros portugueses, e um deles, que se chamava Cação, contou-lhe que tinha pedido há muito tempo transferência para a prisão de Paços de Ferreira. “Há três anos que não lhe respondiam, e passado quinze dias da reportagem a transferência foi resolvida. Sinto que com o que escrevi acabei de ajudar a vida daquela pessoa”.

“Também ajudei a divulgar a imagem de uma pessoa que atualmente está zangada comigo, o Daniel da Mota, acompanhei como jornalista a carreira dele como jogador.” O corte deu-se depois de uma entrevista que Álvaro e uma colega, Paula Telo Alves, lhe fizeram quando ele era candidato do ADR. “Fiz-lhe a pergunta que toda a gente tinha em mente: porque razão um português podia ser candidato de um partido contra os imigrantes e ele não gostou. Lamento que não tenha percebido que não podia deixar de lhe colocar a questão, como lamento a situação em que hoje se encontra”. Sobre o jornalismo Álvaro sente-se grato pela escolha da sorte: “conheci muita gente e aprendi muito sobre a vida. Um pouco sem saber acabei por ser jornalista e descobri coisas fabulosas”. Infelizmente, “às vezes leva-se caneladas quando menos se espera e é mais duro”.

“Sempre fui pela igualdade. Graças a Deus que nunca tive fome”, recorda, “mas aprendi a jogar à bola com os miúdos mais pobres da minha rua e dividia o lanche com eles. Houve uma pessoa, na minha vida, que teve uma grande influência em mim, o meu tio Álvaro que foi emigrante em França, e eu lembro-me com oito anos, ele me dizer que quem tem mais deve partilhar com os outros”. Aprendeu a jogar com eles e começou a nadar na doca dos pescadores com os amigos. “Os meus pais nem sonhavam que eu ia para lá. Como no fado do Carlos do Carmo, sentia-me capitão da rua. Sempre quis que as pessoas fossem iguais e tivessem a todas as coisas”.

Recorda uma vez numa ida à Argentina ter conhecido o treinador campeão do mundo Carlos Bilardo, que o desafiou a ver o que era mesmo o futebol a sério. No dia seguinte levaram-no a um torneio dos bairros pobres de Buenos Aires, que este ajudava a pagar do seu próprio bolso. “Aí jogavam crianças que não tinham nada para comer. E ele disse-me: sabes porque faço estes torneios? Porque isso pode ser a oportunidade de mudar a vida de muitos deles. E isso mexeu muito comigo”.

Diz-se o mais afortunado dos homens por causa dos seus três filhos e da mulher, Cristina, que sempre lhe deu toda a força nas suas escolhas e que combate ao seu lado nos momentos difíceis. Acha que faz parte dessa equipa que nunca virará a cara à luta.

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