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O investigador que estuda os portugueses presos no Grão-Ducado
Luxemburgo 4 min. 24.07.2019 Do nosso arquivo online

O investigador que estuda os portugueses presos no Grão-Ducado

O investigador que estuda os portugueses presos no Grão-Ducado

Foto: Sibila Lind
Luxemburgo 4 min. 24.07.2019 Do nosso arquivo online

O investigador que estuda os portugueses presos no Grão-Ducado

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Como perceber o percurso de vida dos imigrantes portugueses e lusodescendentes e aquilo que os pode levar à prisão é motivo de uma tese de doutoramento.

O primeiro contato de José Eduardo Gonçalves com o Luxemburgo fez-se quando a mãe imigrou para o Grão-Ducado. “Inicialmente, como a minha mãe tinha um trabalho modesto, nas limpezas. Eu sentia que os portugueses viviam numa bolha. Tive a ideia de um Portugal de aldeia. e de tasca. Chocou-me viver. Não parecia possível conhecer luxemburgueses. Quando o meu irmão veio trabalhar para cá para uma das quatro grandes empresas de auditoria, comecei a conviver com pessoas de outros meios, a sair e agora tenho uma outra visão. Até já tenho amigos luxemburgueses e uma namorada do Grão-Ducado”.

Agora sente-se muito bem. Veio, esta última vez, para fazer a pesquisa da tese durante três meses, mas agora quer ficar. Gosta da mistura de um país que funciona com esta imensa variedade de pessoas de várias nacionalidades que aqui trabalham.

“Quando terminar o doutoramento, vou pedir a nacionalidade. É uma escolha pensada até pelo o meu percurso de vida, em que já vivi nos Estados Unidos e no Brasil”.

José Eduardo é estudante do programa de doutoramento Discursos: História, Cultura e Sociedade – uma parceria entre o Centro de Estudos Sociais (CES), a Faculdade de Letras e de Economia da Universidade de Coimbra -, e o tema da sua investigação são as histórias de vida dos portugueses que estão ou que estiveram na prisão no Luxemburgo.

“O meu interesse por este assunto parte inicialmente por um motivo moral, como sou bolseiro da CEDIES, desde 2010, a minha mãe emigrou de Portugal para o Luxemburgo, decidi escolher um tema que tivesse alguma coisa que ver com o Grão-Ducado. Depois, escolhi as prisões do Luxemburgo, porque há muito pouca coisa publicada e estudada a esse respeito. Não há nada sobre as prisões e os portugueses no Luxemburgo”.

A representação elevada de emigrantes e, sobretudo, de portugueses tanto fora como dentro das prisões luxemburguesas é uma peculiaridade deste país: segundo o STATEC em janeiro de 2019, 47,5% da população é emigrante e, destes, 15,6%. Relativamente à população prisional, e de acordo com o Ministério da Justiça, há população prisional do Grão-Ducado tem 74,85% de estrangeiros nas prisões luxemburguesas, e 22,2% são portugueses.

Isso não quer dizer que haja uma maior propensão dos estrangeiros, e dos portugueses para o crime. Mas é verdade que muitos imigrantes estão na parte mais pobre da sociedade luxemburguesa. “Há uma falácia da estatística. Esta elevada taxa tem várias explicações possíveis e várias condicionantes. Há o desvio causado pelos transfronteiriços que não entram para a estatística da mesma forma; soma-se o facto do país ser um ponto de passagem na rota da droga. Junta-se também aí, o facto do Luxemburgo ter um elevado número de presos preventivos a aguardar julgamento. A estatística serve como ponto de partida para problematizar as coisas, mas não é tida como uma explicação, muito menos como uma conclusão”, argumenta.

É também por isso que esta investigação se foca sobretudo nos percursos de vida das pessoas, ou seja, preocupa-se com uma análise socio-história de longo prazo biográfico. A intenção de José Eduardo é problematizar a relação entre a vida destas pessoas e os mecanismos protecionistas, assistencialistas e punitivos acionados pelo Estado luxemburguês. Deste modo está à procura de pessoas que já tenham passado pela prisão ou que ainda estejam em reclusão, mas também de pessoas que foram alvo de outras intervenções do estado e/ou que tenham passado por outras instituições enquanto menores de idade, como Foyers por exemplo.

“É preciso ter uma noção de longo termo, o que se passou na vida destas pessoas para que elas fossem parar à prisão. É aí que as histórias de vida ganham sentido, porque dão uma perspetiva abrangente e não se restringem à parte criminal. Não pretendo estudar o crime que levou à prisão, mas os percursos e situações sociais que motivaram determinadas escolhas”.

“Tento perceber a prisão como uma ponta do icebergue. Ela resulta de um percurso de vida em que há muitas ações do Estado e várias institucionalizações, seja em lares, seja com a intervenção dos assistentes sociais”.

Para isso, concorrem evidentemente as deficientes condições sociais em que começam as suas vidas, mas também um sistema de ensino que em muitos casos, segundo o doutorando, não funciona como elevador social, mas como um muro de bloqueio, que “reproduz as desigualdades sociais”.

Neste sentido, o investigador pede que entrem em contacto com ele no caso de terem passado pela prisão ou conhecerem alguém, que já passou por estas circunstâncias. Podem contactá-lo através do seu email (josegoncalves@ces.uc.pt) ou da sua conta profissional de Facebook (José Eduardo L Gonçalves). Está também ao dispor da comunidade o “Grupo de apoio aos reclusos Portugueses no Luxemburgo” no Facebook. Este grupo, gerido por José Eduardo, pretende criar uma plataforma de partilha de informações e à criação de uma rede de solidariedade entre as pessoas que sofrem direta ou indiretamente com a vida em reclusão.

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