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"O futuro em luxemburguês". O polémico slogan do partido do primeiro-ministro Xavier Bettel
O slogan para as legislativas foi apresentado no final do mês de maio, mas a polémica só estalou com a aprovação do diploma para reforçar a língua luxemburguesa, na semana passada.

"O futuro em luxemburguês". O polémico slogan do partido do primeiro-ministro Xavier Bettel

Foto: Lex Kleren
O slogan para as legislativas foi apresentado no final do mês de maio, mas a polémica só estalou com a aprovação do diploma para reforçar a língua luxemburguesa, na semana passada.
Luxemburgo 11 min. 04.07.2018

"O futuro em luxemburguês". O polémico slogan do partido do primeiro-ministro Xavier Bettel

O slogan de campanha para as legislativas do DP, o partido do primeiro-ministro Xavier Bettel, está a causar polémica. Os críticos denunciam uma colagem à defesa da língua luxemburguesa e a ideias nacionalistas. Para os politólogos ouvidos pelo Contacto, o tiro pode sair pela culatra.

“O futuro em luxemburguês” ("Zukunft op Lëtzebuergesch", no original) . O slogan foi apresentado no final de maio, mas as críticas só começaram na semana passada, depois de o Parlamento aprovar um projeto-lei para promover a língua luxemburguesa. Num editorial no Luxemburger Wort, o jornalista Marc Thill compara mesmo o slogan do DP com o lema da Frente Nacional, em França: “Nous sommes chez nous” (“Estamos em nossa casa” – leia-se “no nosso país”). O Tageblatt denuncia uma “manobra perigosa”, num editorial intitulado “Op Lëtzebuergesch, w.e.g.” (“Em luxemburguês, s.f.f.”) – uma referência à guerra linguística desencadeada pelo referendo sobre o direito de voto dos estrangeiros, em 2015 (ver caixa). No jornal online Reporter.lu, Christoph Bumb ironiza: “O país terá em breve um ’comissário’ para a língua luxemburguesa, um ’Centro’, um prémio literário e até um dia nacional. O DP está, no entanto, um passo à frente. O partido quer moldar todo o ’futuro em luxemburguês’”.

O DP defendeu-se nas redes sociais. No Twitter, o assessor de imprensa do grupo parlamentar dos Liberais, Jeff Feller, afirmou estar perplexo com a interpretação dos críticos, e esclareceu: “O ’Futuro em luxemburguês’ significa acreditar no nosso modelo de sucesso: multicultural, multilingue e aberto aos nossos vizinhos, e ao mesmo tempo manter as nossas tradições”. Em resposta, o jornalista Christoph Bumb satirizou: “Quando lê ’O futuro em luxemburguês’ não pensa imediatamente num país ’multicultural, multilingue e aberto aos nossos vizinhos’? Devia ter vergonha! Também percebeu mal o slogan do DP”. E prossegue: “Mas há uma questão que continua sem resposta: se o DP quer apresentar-se como ’multicultural, multilingue e aberto’, porque não pôs isso no slogan?”.

A escolha do lema surpreendeu mesmo o politólogo Raphaël Kies, ouvido pelo Contacto. “É um slogan para atrair um tipo de eleitorado que normalmente não vota no partido liberal. O DP está associado à abertura aos estrangeiros, ao multilinguismo, e fiquei muito surpreendido que tenha escolhido um slogan tão identitário, promovendo a língua luxemburguesa. Não sei se é uma boa aposta. É uma estratégia eleitoralista, mas pode ser uma má jogada, porque pode afastar o eleitorado que vota no Partido Liberal pela sua abertura e universalismo”, disse a este jornal.

O politólogo e professor da Universidade do Luxemburgo vê na escolha do slogan “uma ligação com o referendo sobre o direito de voto dos estrangeiros”, proposto pelos partidos da coligação liderada por Bettel, em 2015, e com a guerra das petições sobre a língua luxemburguesa que se lhe seguiu, em 2016 – e que forçou o Governo a apresentar um projeto-lei para promover o luxemburguês, aprovado na quarta-feira. “É uma forma de negar tudo o que se tinha defendido durante a campanha para o referendo: que a força do Luxemburgo era a abertura aos estrangeiros e o seu multilinguismo. Com este slogan, é como se o partido fizesse marcha-atrás e dissesse: ‘Negamos completamente os valores que defendíamos no passado’”, critica Kies.

Para o politólogo, o tiro do DP pode sair-lhe pela culatra. “Isto não corresponde à identidade profunda do partido e provavelmente não vai trazer-lhe mais votos, porque há partidos que estão mais concentrados neste tipo de afirmações e vão manter o voto identitário, como o ADR, ou a linha dura do CSV, que também aposta na questão da identidade nacional.”

Opinião diferente tem o politólogo Philippe Poirier, que relativiza o impacto dos slogans políticos nas eleições. “Os partidos políticos, as agências de comunicação e mesmo os jornalistas acreditam no poder dos slogans e que estes podem ser determinantes numa eleição. Não é assim. Todas as sondagens que fazemos, tanto no Luxemburgo como na Europa, mostram que são sempre os temas reais a determinar o resultado: a situação económica, a educação, a confiança nos membros do Governo”, defende, em declarações ao Contacto. Desde 1999 que Philippe Poirier é responsável pela realização de estudos eleitorais no Luxemburgo. “Verifiquei se os slogans são determinantes no Luxemburgo. Nem uma única vez surge entre os 12 principais motivos do voto, e é preciso ver que nos dez primeiros estão razões que contabilizam entre dez a cinco por cento, o que relativiza a importância do slogan”, explica.

Para Philippe Poirier, não se pode “sobreanalisar” o slogan escolhido pelo DP, que pode ter outros significados, defende. “O DP joga a carta da concorrênca com Étienne Schneider, dos socialistas, e da transformação da sociedade e da economia.” O slogan poderia assim ser lido também como uma referência ao modo de vida luxemburguês e ao ’nation branding’, como o partido tem defendido face às críticas, conjugando “habilmente” duas mensagens. “Por um lado, dirige-se aos liberais conservadores que se afastaram do DP no referendo de 2015, aparecendo simultaneamente como o partido em concorrência com o LSAP e em contra-luz em relação ao CSV. Escolher um slogan deste tipo é também pôr a um canto o CSV, que para o DP representa a força da tradição.” 

A luta é por conquistar este eleitorado mais conservador, mas nem todos se preocupam com questões relacionadas com a identidade nacional. "Desde 2009, até ao referendo, sempre que se fizeram sondagens sobre a identidade nacional, o uso das línguas no Luxemburgo, a preferência dos luxemburgueses na contratação na Função Pública, ou sobre as questões migratórias, vemos que há apenas um terço do eleitorado luxemburguês que está preocupado com estas questões, entre 23 e 27%. Este terço não vota todo no ADR. Uma parte do CSV articula este eleitorado, mas também uma pequena parte do DP e dos socialistas luxemburgueses (LSAP). Ao escolher este slogan, o DP tenta mobilizar uma parte deste eleitorado liberal e conservador que tem preocupações com o futuro da língua luxemburguesa”, aponta Poirier.

Campanha sob o signo da identidade nacional

Para o politólogo francês, responsável pela Cátedra de Estudos Parlamentares na Universidade do Luxemburgo, uma coisa é no entanto certa: as próximas eleições vão disputar-se “sob o signo da identidade nacional e da questão linguística que marcou os últimos anos da legislatura”, após o esmagador ’não’ ao direito de voto dos estrangeiros nas legislativas, que recolheu 80% dos votos. “O referendo é uma questão tabu. Mas teve e vai ter consequências eleitorais nas legislativas de outubro de 2018. O DP, ao escolher este slogan de campanha, tenta reconectar-se, de forma indireta, com o que se passou em junho de 2015”, assegura. O trauma pode ter sido reprimido, mas volta a surgir em força, defende. “Fizemos um relatório para a Câmara dos Deputados e assinalámos que uma das razões para o ’não’ é a interrogação sobre a identidade nacional, com o apego à língua luxemburguesa. Depois disso, os partidos políticos fecharam o debate à questão, através da aprovação de uma nova lei da nacionalidade”, lamenta. Para o politólogo francês, “todos os partidos, e o DP em primeiro lugar, estão presos num paradoxo”: querem “apresentar-se como aquele que mais defende a abertura da sociedade luxemburguesa aos estrangeiros, necessários para o desenvolvimento económico do país, e, ao mesmo tempo, têm de se dirigir ao eleitorado”, constituído unicamente por luxemburgueses. “Esta ambivalência também existe para o CSV: estão presos entre o reconhecimento das preocupações do eleitorado luxemburguês e, ao mesmo tempo, têm de ter em consideração o facto de o país precisar da diversidade linguística”. O politólogo dá mesmo um exemplo de uma contradição entre o discurso e a prática do DP. Por um lado, o slogan do partido evoca a expressão “Em Luxemburguês, s.f.f.”. Por outro, “durante toda a legislatura, o ministro da Educação, Claude Meisch, do DP, inaugurou escolas internacionais públicas”, que permitem a escolha da língua da alfabetização: francês, inglês e mesmo português. “Os partidos têm de se dirigir aos eleitores luxemburgueses, apesar de não terem todos preocupações com a identidade nacional, ao mesmo tempo que conduzem políticas de abertura linguística e que fomentem a diversidade”.

“Nós também amamos o nosso país”

As últimas sondagens dão mais dois deputados ao ADR, conhecido pelas posições contra os direitos dos estrangeiros, e os partidos parecem estar preocupados com o seu crescimento. O DP não é o único a passar uma mensagem nacionalista no lema. Os ecologistas (“Déi Gréng”), membros da atual coligação do Governo, escolheram o slogan “Futuro, Coesão, Qualidade de Vida. Porque amamos o nosso país” (no original, ”Well mer eist Land gär hunn”). “Há uma espécie de concorrência desde o referendo sobre a incarnação do que representa ser luxemburguês e o que é o Luxemburgo”, aponta Poirier. Mas a mensagem é mais subtil, defende Raphaël Kies. “Também é um apelo à questão identitária, mas o Déi Gréng fá-lo de forma mais subtil, destacando o desenvolvimento sustentável, que é onde se joga a sua credibilidade, enquanto o DP entra a pés juntos numa temática que não está verdadeiramente no coração da sua identidade, e penso que é uma aposta completamente perdedora.”.

As próximas eleições legislativas disputam-se a 14 de outubro, e Philippe Poirier vê para já um sinal distintivo. “É a primeira vez na história do Luxemburgo que a maioria da população adulta em idade de votar não vai poder fazê-lo. Pela primeira vez, nestas eleições legislativas, o eleitorado luxemburguês é minoritário, em relação à população [estrangeira] que não pode votar”.

Paula Telo Alves

 

Acrescenta um parágrafo sobre a percentagem do eleitorado preocupado com questões relacionadas com a identidade nacional. Corrige a data de aprovação do diploma sobre a língua luxemburguesa (dia 27 de junho, quarta-feira, e não quinta-feira, como o artigo referia inicialmente).


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