Escolha as suas informações

O fotógrafo português do Luxemburgo que fez frente à Polícia para defender jornalistas
Luxemburgo 5 5 min. 18.06.2019

O fotógrafo português do Luxemburgo que fez frente à Polícia para defender jornalistas

O fotógrafo português do Luxemburgo que fez frente à Polícia para defender jornalistas

Imagens do vídeo que mostra José Lopes Amaral a enfrentar a Polícia
Luxemburgo 5 5 min. 18.06.2019

O fotógrafo português do Luxemburgo que fez frente à Polícia para defender jornalistas

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
A cena aconteceu durante os protestos em Hong Kong, por causa de uma proposta de lei que permitiria a extradição para o continente chinês. O vídeo mostra José Lopes Amaral a fazer frente à polícia anti-motim, e tornou-se viral.

José Lopes Amaral estava em cima de um viaduto a tentar fotografar os disparos de gás lacrimogéneo contra os manifestantes. Já vamos às razões que levaram o fotógrafo português nascido no Luxemburgo àquele local, na quarta-feira passada, mas para já estava ali, a ver a polícia anti-motim disparar contra as pessoas.

Os protestos decorriam há horas, em mais um dia da mobilização que tem levado milhões de pessoas às ruas de Hong Kong, e o ambiente era tenso. Horas antes, o fotógrafo português tinha visto um jovem a sangrar no chão, atingido por uma bala de borracha disparada pela polícia. “Dizem que era um jornalista, mas não posso garantir”, conta o português ao Contacto.

Os protestos começaram pouco depois do almoço e à hora a que o vídeo foi filmado seriam já 17h30. No local em que o português se encontrava, em Harcourt Road – onde fica a sede do Governo –, “a Polícia atirava”, apesar de “os manifestantes estarem calmos, estavam a uns bons 500 metros”. Nessa altura, José aproximou-se para fotografar os disparos, quando ouviu um recrudescimento dos tiros. “Fui ver o que se passava, e quando cheguei vi-os a apontar para dois fotógrafos de Hong Kong que lá estavam. Dispararam contra eles e quase que acertaram num”.

José nem pensou. O vídeo mostra-o a acusar a Polícia de disparar contra os jornalistas. “You shoot at the press! [Vocês disparam contra a imprensa]”, grita, em inglês, antes de se ouvir um segundo tiro. “Vocês disparam contra os jornalistas!”. Nesse momento, a polícia de choque avança em direção ao fotógrafo e aponta-lhe um bastão, dando-lhe ordem para sair dali. O português recusa. “Um carregou depois outra vez a pistola e apontou-a para mim. E foi quando eu comecei a provocá-lo”, recorda. “Então disparem! Disparem!”, ouve-se gritar no vídeo.

A Polícia parece recuar. José volta a gritar: “Ainda estamos em Hong Kong, não estamos na China. Ainda não!”. E remata com mais uma provocação: “Xí Jìnpíng [o atual Presidente da República Popular da China] vai ficar contente convosco!”.

O vídeo foi partilhado no Twitter e já teve mais de 580 mil visualizações. E o português, cujas fotos dos protestos já foram publicadas em França, foi notícia nos jornais. Muitos consideram-no um herói. “Obrigada por falar em nome da população de Hong Kong”, agradeceu um comentador.

O fotógrafo português documentou os protestos que levaram milhões de residentes de Hong Kong para as ruas e a tensão entre a Polícia e os manifestantes.
O fotógrafo português documentou os protestos que levaram milhões de residentes de Hong Kong para as ruas e a tensão entre a Polícia e os manifestantes.
Foto: José Lopes Amaral

A luta pela liberdade

Os protestos em Hong Kong começaram por causa de uma proposta de lei que permitiria a extradição para o continente chinês, violando a autonomia do território, acordada aquando da transferência para a República Popular da China, em 1997. Tal como aconteceu com Macau, Hong Kong passou a ser uma região administrativa da China com autonomia, que deveria vigorar durante 50 anos. O estatuto prevê que a autonomia se aplique aos poderes executivo, legislativo e judicial.  

José Lopes Amaral está solidário com os manifestantes. “Oficialmente, é uma lei para permitir extraditar criminosos para a China. Mas as pessoas têm medo: na China, quem fale mal do Governo é considerado um criminoso. Ser criminoso na China não é o mesmo que ser criminoso no Luxemburgo ou em Hong Kong”, aponta.

Durante os dois dias que passou em Hong Kong, o fotógrafo freelance falou com alguns manifestantes. “Os jovens têm medo de perder completamente a liberdade”. Tudo o que pedem, defende, é poderem “viver na cidade deles em paz, com direitos humanos, como viveram até agora”.

De vitrinista no Luxemburgo a fotógrafo na Ásia

José Lopes Amaral tem 42 anos e nasceu no Luxemburgo. A mãe é de Moimenta da Beira. O pai, falecido em 2018, era de uma aldeia perto de Viseu.

No Grão-Ducado, onde viveu até 2014, o português era vitrinista: “fazia decorações para lojas, vestia os manequins”. Há cinco anos, depois de umas férias em Taiwan, decidiu mudar de vida. “Primeiro vim passar férias, conheci pessoas, e depois conheci a minha esposa, ela é taiwanesa. Já namorávamos, e pensei que podia vir para aqui”. Hoje é diretor artístico de uma empresa em Taipé, a capital de Taiwan, mas a fotografia é a sua obsessão. “Com o dinheiro que faço financio as minhas maluqueiras, como diz a minha mulher”, brinca.

“As maluqueiras” são os trabalhos de fotoreportagem, que faz nos tempos livres e vende através de uma agência e podem ser vistas no seu site. As suas fotos já foram publicadas na BBC, France Info ou Deutsche Welle. A maioria são sobre as dificuldades sociais em Taiwan. “Pessoas que não conseguem pagar a renda ou comprar casa, ou não têm pensões. O sistema de pensões é muito pobre, e só as pessoas que trabalham para o Governo é que têm uma reforma mais ou menos. Por isso, há pessoas que têm 80 e mais anos e andam na rua a apanhar papel para vender à reciclagem”.

José Lopes Amaral não vive da fotografia, mas é um apaixonado pelo fotojornalismo.
José Lopes Amaral não vive da fotografia, mas é um apaixonado pelo fotojornalismo.
Foto: DR

Ao telefone com o Contacto a partir de Taipé, o fotógrafo freelance explica como foi parar a Hong Kong. “Já queria ter ido quando houve as manifestações dos guarda-chuvas amarelos [em 2014, para reclamar mais transparência nas eleições], mas nessa altura não podia ir”. Agora, pensou, “é desta, senão nunca mais”. “Pedi férias e fui”.

Hong Kong fica a dois mil quilómetros de Taipé, a “hora e meia de avião”. Nos dois dias que lá passou, José Lopes Amaral viu jovens agredidos e jornalistas ameaçados, e garante que a polícia não trata da mesma maneira os jornalistas ocidentais e os de Hong Kong. “Durante o dia todo, não me deixavam passar, intimidaram-me, puseram-me bastões à frente da cara, para me assustar, mas a mim não me bateram. Mas aos meus colegas jornalistas de lá [Hong Kong], bateram-lhes com matracas”.

O caso valeu-lhe elogios nas redes sociais, mas também ouviu críticas. “Há sempre pessoas que acham bem e quem ache mal. Fiz o que fiz sem pensar, mas também não estou arrependido, porque ajudei duas pessoas, e é o que conta”. E depois, “o que os outros pensam não me importa muito”.

A mãe e a irmã continuam a viver no Luxemburgo e ficaram preocupadas, mas José desvaloriza. “A minha mãe tem sempre medo que me aconteça alguma coisa e a minha irmã também ficou preocupada. Mas também estão contentes por ver o que eu fiz.”

No sábado, a chefe do Governo de Hong Kong, Carrie Lam, suspendeu o debate da proposta de lei, mas não conseguiu desmobilizar os manifestantes, que voltaram a protestar no domingo.