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O fado dos proletários

O fado dos proletários

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Editorial Luxemburgo 2 min. 22.05.2019

O fado dos proletários

Nuno Ramos de Almeida
Nuno Ramos de Almeida
Onde se fala do fado e do fardo do inteletual branco em educar os pobres operários e mulheres a dias supostamente ignorantes e a precisar de elites esclarecidas.

No seu livro "A Noite dos Proletários", o filósofo francês Jacques Rancière aborda a vida dos escravos do trabalho, que não precisam que lhes expliquem a exploração. Em lugar de os remeter para a sua condição daqueles que estão presos num canto da fábrica, revela que em muitos momentos eles fogem das cadeias que os prendem, fugindo à sua condição de explorados em golpes de subversão.

Vou fazer apelo à badana do livro para resumir este processo de libertação. "'A Noite dos Proletários' é um périplo pelas noites dos operários emancipados da primeira metade do século XIX. Jacques Rancière revela uma galeria de figuras autodidatas e constrói uma teia de textos em cujas linhas ressoam as vozes anónimas e esquecidas de artesãos, sapateiros, alfaiates e tipógrafos, que dedicavam as suas noites à leitura e à escrita. Condenados pela sua condição material a dias de trabalho e a noites de repouso, os operários, num peculiar exercício de subversão ao cair da noite, eximiam-se assim a esta sujeição, quebrando a ordem do tempo e rompendo com o desígnio que destina alguns aos privilégios do pensamento e que relega outros para a escravidão do trabalho".

Para alguns, ser-se trabalhador da construção civil ou mulher a dias é ser-se menos que as outras profissões mais bem pagas."

No meu trabalho tive a sorte de conhecer vários proletários e militantes do movimento operário que acompanhavam a luta pela sua libertação coletiva com o enriquecimento pessoal que os levava a aprender línguas, a ler álgebra, mergulhar na física quântica com uma curiosidade insaciável e a devorar livros nas bibliotecas populares.


Amália já não vai ser nome de rua em Differdange
A proposta de batizar uma rua com o nome da fadista causou incómodo na autarquia do sul do Luxemburgo. Em causa está a alegada ligação de Amália com a ditadura de Salazar. Em vez disso, a rua deverá vir a chamar-se Sophia de Mello Breyner Andresen. Mas há quem conteste que a fadista fosse fascista e a preferisse à poetisa portuense.

Faziam parte das gentes que tinham orgulho no trabalho e naqueles que o faziam. Para mim, o estranho são determinadas pessoas que se dizem de esquerda hoje e que quando confrontadas com a cultura popular, como o fado e os seus cantores, fazem um ar enojado e garantem que isso reforça o preconceito de que os portugueses do Luxemburgo são homens das obras e mulheres a dias. Como se aqueles, muitos, que fazem esse trabalho, não fossem imensamente dignos, e se a luta política da gente que se preze não passasse por dar mais voz àqueles que não têm voz, apoiar o seu combate por uma vida mais digna, em vez de estigmatizar aqueles que trabalham, menorizando-os intelectualmente.

A parte que mais me chateia neste caso da rua da Amália em Differdange, não é a leviandade com que se condena uma pessoa sem conhecer bem a sua história, é mesmo o facto de um conjunto da elite se achar capaz de escolher aquilo que supostamente faz bem à maioria, começando por não a ouvir. Mas sobretudo aquilo que me indigna mais é o que parece subjacente a algumas opiniões: para alguns, ser-se trabalhador, operário da construção civil ou mulher a dias é ser-se menos que outras profissões mais bem pagas. Quando na verdade essas pessoas trabalham e fazem o mundo em que essas outras pessoas vivem.

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