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O efeito extraordinário do mexilhão
Luxemburgo 3 min. 30.04.2021

O efeito extraordinário do mexilhão

O efeito extraordinário do mexilhão

Luxemburgo 3 min. 30.04.2021

O efeito extraordinário do mexilhão

Ricardo J. Rodrigues
Ricardo J. Rodrigues
Num antigo moinho do norte do Luxemburgo, um grupo de cientistas instalou uma criação de mexilhões de água doce. Quando os largaram nas águas do rio Our, os bivalves começaram a espalhar-se e a filtrar as águas de toda a bacia hidrográfica, permitindo a subida dos peixes até áreas onde há muito não chegavam. História de um herói improvável do ecossistema.

“Conseguimos uma coisa bastante improvável, que é exportarmos mexilhões para a Bélgica”, ri-se Frankie Thielen, biólogo da fundação Natur&Ëmwelt, enquanto passa as mãos por um tanque onde mexilhões minúsculos vão cumprindo o processo de metamorfose de larvas para bivalves. Estamos no moinho de Kalborn, na margem luxemburguesa do rio Our, lugar a partir de onde se produzem mexilhões para recolonizar um curso de água que atravessa Alemanha, Bélgica e o Grão-Ducado.

No início do século XX, o mexilhão de água doce estava praticamente extinto no Our, mercê da sua colheita para utilização ornamental e da sedimentação excessiva dos cursos de água por causa do excesso de barragens e açudes. “Enquanto aqui houve mexilhão, também houve salmão do Atlântico em abundância”, diz o biólogo. “Peixes como as trutas e os barbos tinham muito mais colónias e massa corporal. À medida que o mexilhão de água doce foi desaparecendo, o ecossistema foi perdendo biodiversidade.”

Frankie Thielen, biólogo da fundação Natur&Ëmwelt.
Frankie Thielen, biólogo da fundação Natur&Ëmwelt.
Foto: RJR

O efeito de purificação que estes pequenos animais produzem não é nada menos que notável. “Cada mexilhão adulto consegue filtrar 25 a 50 litros de água por dia”, explica Thielen. Alimentam-se de todas as impurezas que circulam na corrente e das microalgas que sobrecarregam as águas de dióxido de carbono, comprometendo a sobrevivência dos peixes e dos mamíferos que os caçam – nomeadamente as lontras, que estão extintas no Luxemburgo. “Os mexilhões acabam por estar na base de toda a cadeia alimentar. Se eles falham, toda a cadeia fica comprometida.”

Em 2007, a Fundação Natur&Ëmwelt decidiu intervir. “Numa primeira fase, removemos 12 açudes para que os peixes conseguissem subir o rio”, diz o biólogo. As larvas do mexilhão são parasitas e instalam-se nas guelras das trutas, o que lhes permite apanhar boleia para colonizar os regatos onde, de outra forma, nunca poderiam aceder. “Rapidamente começámos a sentir os efeitos positivos e vimos que 10,2 quilómetros de ribeiro se estavam a reconectar ao rio principal,” conta. Ao poderem instalar-se rio acima, os mexilhões começaram a filtrar as águas e abrir os cursos onde os peixes podiam agora chegar com regularidade, depositar ovos, recuperar.

Depois veio a segunda fase do projeto, que foi montado entre 2012 e 2019 e que está neste momento em plena operação. “A recolonização natural seria demasiado lenta para repor o equilíbrio, por isso decidimos criar o nosso próprio berçário de mexilhões”, conta Frankie Thielen. Para isso, ocuparam o grande moinho de Kalborn, usado desde 1728 pela família Lentz para a magem de centeio, aveia e trigo sarraceno. O edifício, apesar de estar classificado como de interesse público pelas autoridades luxemburguesas, não sobreviveu à Batalha das Ardenas e foi abandonado em 1944. Hoje, tem as paredes reconstruídas e está rodeado de tanques de água. É aqui que se cria o mexilhão de água doce.

Num tanque onde a temperatura é controlada, e onde se tentam reproduzir as condições meteorológicas naturais do Our, as larvas são guardadas e crescem até aos dois anos. Nessa altura, são mudadas para um outro tanque, este repleto de trutas, e aí têm a possibilidade de se instalar nas

guelras dos peixes. Quando estes são largados no rio, sobem-no e ocupam os pequenos afluentes do Our no Luxemburgo, na Alemanha e na Bélgica, largando mexilhões ao longo do percurso.

Um mexilhão vive em média entre 80 e 90 anos, mas pode atingir uma idade de 120. Pode crescer até aos 14 centímetros e uma boa maneira de identificar a sua idade é contar as riscas que tem na casca – tal como os anéis do tronco de uma árvore. Desde que começaram a criação, os cientistas da Fundação Natur&Ëmwelt libertaram dois mil bivalves no Our. “Com a reprodução natural eles estão a desenvolver-se e calculamos que hoje haja cerca de 15 mil mexilhões nas águas do Our”, diz Frankie Thielen.

Na sua guerra pela sobrevivência, os últimos mexilhões do Our parecem estar finalmente a ganhar uma batalha. Os cientistas continuam a tentar dar-lhes armas para o combate. É que, bem vistas as coisas, uma vitória do mexilhão é uma vitória da natureza inteira.

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