O dia glorioso do Luxemburgo
O dia glorioso do Luxemburgo
É agora, sem mais delongas. Desce o pano sobre a fase de grupos para o Euro-2020 e ainda ninguém sabe o futuro de Portugal. Apurado directamente ou...? Entre a tranquilidade do segundo lugar e o play-off, está o Luxemburgo. É verdade, sim senhor: o campeão europeu tem de ganhar na Cidade do Luxemburgo para chegar ao sétimo Euro seguido, o oitavo da sua história.
O obstáculo, convenhamos, é acessível. Por alguma razão, Portugal acumula nove vitórias seguidas sobre o Luxemburgo, desde o 1-1 em 1991, na estreia de Figo. Acontece, é um deslize. E duas vezes é o quê? Duas vezes, então? É obrigatório falar do surpreendente 4-2 em Outubro 1961, para a qualificação do Mundial-62. É uma das vergonhosas tardes de sempre de Portugal. E, claro, uma das mais gloriosas do Luxemburgo, então uma selecção amadora, que sofrera uma goleada redonda sobre Inglaterra (9-0), no ano anterior, também para o mesmo grupo de apuramento. Pelo meio, Portugal quase ganha à Inglaterra, num dia de intensa canícula no Jamor.
À temperatura elevada acrescente-se o apoio humano de 35 mil adeptos e ainda, como é óbvio, a categoria de Portugal, bem demonstrada no toque de bola, sobretudo do meio-campo para a frente. Os ingleses sentem uma dificuldade imensa para pegar no jogo e, verdade seja dita, esbarram numa muralha chamada Costa Pereira, um dos oito benfiquistas em campo – e isto a dez dias da final europeia com o Barcelona, em Berna (outros tempos). De resto, três sportinguistas num onze totalmente lisboeta. O golo português nasce de um jogada iniciada por Hilário e prossegue pelos pés de Cavém e Santana até chegar ao goleador Águas. O empate chega a sete minutos do fim num livre mal assinalado pelo árbitro (dizemos nós) e com direito a repetição. À segunda, Flowers mete a bola na gaveta.
O empate dá-nos moral, óbvio. Se ganharmos na Cidade do Luxemburgo, resta-nos um empate em Wembley para chegar ao Mundial do Chile. Nesse hiato temporal de meses sem competição, a federação portuguesa nomeia um novo seleccionador. É ele o consagrado Fernando Peyroteo, avançado de classe ilimitada e recordista de golos na 1.ª divisão portuguesa e até mundial (331 em 197 jogos), ao serviço do Sporting. O seu primeiro acto é juntar a comunicação social e dar o onze vs Luxemburgo, a duas semanas do jogo. A decisão é aplaudida por todos. Costa Pereira (Benfica); Lino (Sporting) e Hilário (Sporting); Pérides (Sporting), Morato (Sporting) e Lúcio (Sporting); José Augusto (Benfica), Eusébio (Benfica), Águas (Benfica), Coluna (Benfica) e Cavém (Benfica). Mais uma vez, um onze totalmente lisboeta: guarda-redes do Benfica, defesa e meio-campo do Sporting, ataque do Benfica. Atenção ao detalhe, o Benfica é o actual campeão europeu (3-2 ao Barcelona, em Maio).
Problema. Ou não. Benfica e Sporting estão de relações cortadas. Não se falam há mais de um ano. Aliás, o título europeu do Benfica é o único momento de diálogo entre os clubes, com o envio de uma carta do Sporting às redacções dos jornais mais importantes do pais a dar os parabéns pela brilhante e inédita conquista internacional. No fim-de-semana anterior ao jogo no Luxemburgo, tanto Sporting como Benfica ganham os seus jogos relativos à segunda jornada da 1.ª divisão. O Benfica dá 8-1 ao Salgueiros, naquela que é a primeira grande demonstração de força e classe de Eusébio, autor de quatro golos – para juntar aos dois da ronda anterior no 2-1 ao Leixões, em Matosinhos. Já o Sporting dá água pela barba ao FC Porto, nas Antas. Golos de Lúcio e Morais, 2-0.
Operação Luxemburgo, vamos a isso. O voo é tranquilo, a 6 Outubro. No dia seguinte, treino matinal no estádio do jogo. Chegámos ao domingo e cabuuuuum. Quando menos se espera, o escândalo abate-se sobre a selecção. Chegada a hora de defrontar os tais amadores, na qualificação para o Mundial-62, o modesto Luxemburgo surpreende tudo e todos com um explícito 4-2. Schmidt chama a si o protagonismo e faz o jogo da vida com um hat-trick: o primeiro é um remate seco, os outros dois partem de erros defensivos, um de Morato e outro de Pérides. Só para se ter uma ideia, Schmidt marca tantos golos nessa tarde como nas outras 48 internacionzalições. Só para se ter outra ideia, tanto Morato como Perides estreiam-se pela selecção. À imagem de Eusébio. Com tão-só 19 anos, o interior-direito do Benfica veste a camisola 8 e até marca um golo. Golaço, aliás. É um remate portentoso do meio da rua, rezam as crónicas. Tantos as portuguesas como as luxemburguesas. Essa arte é insuficiente para evitar a derrota e calar os críticos. Até porque Hoffmann amplia a marca no minuto seguinte. Cabe a Iaúca fixar o 4-2. Que deita por terra todo o trabalho até aí desenvolvido, no sentido de tão-só empatar em Wembley daí a três semanas.
A imprensa inglesa delira em absoluto. Donald Saunders, Daily Telegraph: “Os portugueses foram uma mera sombra e as cinco alterações desde o 1-1 com a Inglaterra enfraqueceram a equipa em vez de a fortalecer.” Clive Toy, Daily Express: “Uma vitória portuguesa em Wembley significaria um jogo de desempate, mas não posso prever tal acontecimento.” Ron Peskett, Daily Mail: “Faltou ali Germano; a defesa portuguesa tem de ser fortalecida, caso queira dar luta à Inglaterra.” Franck McGhee, Daily Mirror: “A verdade crua é que os arrogantes senhores de Portugal entraram em pânico.” Peter Lorenzo, Daily Herald: “Este resultado é um dos mais chocantes da história. Tão chocante como o 1-0 dos EUA à Inglaterra no Mundial-50.” Laurie Pignon, Daily Sketch: “Portugal cometeu o erro fundamental de subestimar a oposição e pagou o preço da sua loucura futebolística.”
Rui Miguel Tovar
