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O dia em que os jovens tomaram o parlamento e defenderam o "canguru gay"

O dia em que os jovens tomaram o parlamento e defenderam o "canguru gay"

Foto: Lex Kleren
Luxemburgo 7 min. 11.03.2019

O dia em que os jovens tomaram o parlamento e defenderam o "canguru gay"

Catarina OSÓRIO
Querem um Luxemburgo mais sustentável, mais igualdade e tolerância de género e estágios remunerados para uma geração que não consegue suportar rendas "astronómicas". Foram as principais reivindicações dos cerca de 60 jovens que na semana passada participaram na Convenção dos Jovens. Deputado Fernand Kartheiser voltou a causar polémica.

Faz uma década que dezenas de jovens se reúnem anualmente com deputados e ministros na Câmara dos Deputados, com direito à palavra e sem intermediários. Este ano, a reunião aconteceu na passada sexta-feira, dia 8 de março, o dia Internacional da Mulher.

Após terem definido a lista de medidas e reivindicações da parte da manhã - nas áreas da digitalização, igualdade de género, Europa, sustentabilidade e mercado de trabalho - à tarde foi a vez de confrontarem os deputados e ministros. 

Para além do ministro da Educação, Claude Meisch, estavam políticos como Lydia Mutsch, ex-ministra da Saúde, Fernand Kartheiser, deputado do ADR e Sven Clement, deputado do Partido Pirata. O debate arrancou às 15:00 em ponto com o habitual toque do sino. No palanque, os jovens foram surgindo em grupo para as reivindicações. 

Tinham entre 15 e 30 anos - estudantes, trabalhadores ou desempregados - mas estavam todos interessados em dar voz às suas ideias. Nadine Schmit e Mike de Waha são dois dos nomes por detrás deste encontro. Ele lidera a CGJL, federação das associações de estudantes do Luxemburgo e organizador do evento. Ela preparou toda a Convenção. 

A CGJL representa "a voz" das novas gerações no Luxemburgo, dentro e fora do país, "junto das instituições e indivíduos que definem as políticas de hoje e amanhã". Recusam qualquer ligação partidária. "Após a Convenção utilizaremos as nossas ferramentas de lobbying no futuro para relembrar os políticos do que foi dito aqui", assegurou Mike de Waha.

Para além do ministro da Educação, Claude Meisch, estavam políticos como Lydia Mutsch, ex-ministra da Saúde, Fernand Kartheiser, deputado do ADR e Sven Clement, deputado do Partido Pirata.
Para além do ministro da Educação, Claude Meisch, estavam políticos como Lydia Mutsch, ex-ministra da Saúde, Fernand Kartheiser, deputado do ADR e Sven Clement, deputado do Partido Pirata.
Fotos: Lex Kleren

Problemas: Trabalho, qualidade do ensino e rendas "astronómicas" 

Nadine e Mike falam de jovens "motivados", "cheios de ideias", "conscientes do se que se passa" no mundo, e com vontade de lutar por uma vida melhor, que sabem que será tudo menos facilitada. 

No debate, os mais novos mostraram, inclusive, estar a par da situação dos refugiados na Europa, querem políticas que resolvam os problemas e um tratamento igual em matérias de igualdade e oportunidades, na escola, no trabalho e na vida. 

"Nem todos [os jovens] estão interessados na política, mas é injusto para os que estão interessados dizer-se que 'todos os jovens são preguiçosos'", diz Zohra Barthelemi. No futuro, a jovem de 16 anos pondera mesmo fazer carreira política. Para já, vai dando os primeiros passos, por exemplo, como membro da organização da marcha pelo ambiente no dia 15 de março, próxima sexta-feira. 

Zohra critica as contradições dos adultos: "As pessoas dizem 'és tão preguiçosa, devias mesmo lutar por algo', mas se fazemos algo dizem 'por favor não façam manifestações, vão mas é estudar e fiquem calados". 

Mas quais são as lutas deste jovens? "Não arranjar trabalho" mesmo sendo a geração mais bem qualificada, "a qualidade da educação e dos estágios" ou as rendas "astronómicas", referem Nadine e Mike. Que o diga Maeva Batista, filha de mãe portuguesa e de pai guineense e nascida no Grão-Ducado. 

Tem apenas 16 anos e já pensa como será ingressar no mercado de trabalho, nomeadamente na eventualidade de realizar um estágio não remunerado: "Quando não se paga pelo estágio e temos de financiar uma casa sozinhos... Algumas pessoas não têm os pais disponíveis para os ajudar e as casas estão muito caras", reflete. Ultimamente, há também a preocupação crescente com o ambiente. Esta última, poderá mesmo explicar a redução "para metade" do número de participantes na Convenção deste ano. 

A manifestação do próximo dia 15 de março, está a mobilizar milhares de jovens que "optaram por faltar às aulas na próxima sexta-feira", afirmam os organizadores da Convenção. Ainda assim, este foi um dos tópicos mais debatidos na audiência com os deputados.

Cerca de 60 jovens entre os 15 e os 30 anos participaram na audiência com os deputados no passado dia 8 de março.
Cerca de 60 jovens entre os 15 e os 30 anos participaram na audiência com os deputados no passado dia 8 de março.
Foto: Lex Kleren

Rótulos com pegada ecológica dos produtos 

Num dos temas quentes do momento, as alterações climáticas, os jovens surpreenderam os políticos com medidas inovadoras, pelo menos para o Luxemburgo. Sarah Duarte Mendes, uma das dez jovens lusodescendentes presentes, integrou este grupo de trabalho. Para além da redução do plástico, os jovens pedem rótulos em todos os produtos com a pegada ecológica de cada item, e maior transparência sobre o ciclo completo do produto. 

"Que quantidade de água foi gasta para produzir uma banana? Quanto dióxido de carbono foi emitido para a atmosfera na sua produção e transporte? Por onde passou até chegar ao destino?". Ao mesmo tempo, pedem uma redução da importação de produtos fora da época, "por exemplo ananás no inverno" e uma maior valorização dos produtos locais. 

Sarah, de 21 anos, não é uma estreante na política. Candidata da zona sul nas últimas eleiçoes comunais, está atualmente a estudar ciências económicas e línguas no liceu, na Bélgica. Quis participar na Convenção para interagir e motivar outros jovens e não nega a possibilidade de ocupar uma cadeira de deputada parlamentar no futuro. Considera que hoje os políticos "levam os jovens e as suas ideias mais a sério".  

Kartheiser e nova polémica sobre homossexualidade 

Um dos momentos mais tensos do debate envolveu o deputado do ADR,Fernand Kartheiser. O deputado de extrema-direita - conhecido pelas suas posições consideradas, por muitos, homofóbicas - defendeu mais uma vez que pais homossexuais são algo "anti-natural". 

Há pouco tempo, o político criticou mesmo uma peça de teatro infantil sobre um canguru homossexual, que tinha sido promovida pelo ministério da Educação. Durante o debate, uma das jovens respondeu ao deputado argumentando que o género não determina a possibilidade de se ser ou não um bom pai ou mãe, o que arrancou risos e palmas de outros jovens. 

Após a audiência, Zohra criticou o "desrespeito" do político que "estava mais interessado no telemóvel do que nos jovens", aludindo ao facto de amiúde o parlamentar usar o seu aparelho durante o debate.

Kartheiser, o primeiro da fila na foto, "estava mais interessado no telemóvel do que nos jovens", repararam os participantes.
Kartheiser, o primeiro da fila na foto, "estava mais interessado no telemóvel do que nos jovens", repararam os participantes.
Foto: Lex Kleren

Casas de banho unissexo e terceiro género

De DocMartens nos pés e piercing no nariz, chegou a vez de Zohra Barthelemi enfrentar os deputados luxemburgueses sobre as questões de género. "Queremos casas de banho e vestiários unissexo e o reconhecimento de um terceiro género em documentos oficiais, como o Cartão de Cidadão", referiu ao Contacto após o fim do debate. "Um sítio onde elas possam escrever o seu género. Atualmente existe o feminino, masculino e 'outros' e há pessoas que não se identificam nesta categoria. Só porque não se consideram homens ou mulheres não significa que sejam 'outros'", argumenta. 

Outra das medidas propostas foi a possibilidade de a mudança de género por jovens menores de 18 anos ser feita sem autorização parental. "Jovens cujos pais não as apoiam estão a sofrer com isso e têm diferentes oportunidades dos jovens que são apoiados", lamenta Zohra. 

A (des)igualdade salarial foi outro ponto de discussão. No espaço de uma década, entre 2007 e 2017, o fosso entre os géneros no que toca a salários desceu para metade. Apesar de o Grão-Ducado ter atualmente uma das menores diferenças entre homens e mulheres da UE, elas ainda ganham menos 5% do que eles

Estes dados foram aliás, mencionados pelos deputados, que foram rapidamente interrompidos pela 'força': "Porque é que essa diferença não é de 0% hoje?”, questiona uma participante. Silêncio na Câmara. 

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