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O Dia dos Namorados do Zé Carlos
Editorial Luxemburgo 5 min. 19.02.2021

O Dia dos Namorados do Zé Carlos

O Dia dos Namorados do Zé Carlos

Editorial Luxemburgo 5 min. 19.02.2021

O Dia dos Namorados do Zé Carlos

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Quatro namoradas? É tudo?! O Zé Carlos riu. A crónica semanal de opinião de Raúl Reis.

O Zé Carlos divorciou-se no início de 2020. Ambos debatemos então o timing do seu divórcio, assim como ele questionou o facto de eu ter comprado dois carros em fevereiro.

É preciso ser cromo, Raúl! Compras dois carros, e quinze dias depois tiveste de fechar fechado em casa e deixar os carros na garagem! O Zé Carlos tem razão. Um dos carros chegou exatamente duas semanas antes do primeiro confinamento e passei março e abril a pô-los a trabalhar uns minutos para não deixar morrer a bateria. O outro só chegou em junho e, nessa altura, já estávamos livres da pandemia. Até pude ir de férias lá abaixo nele.

Mas o Zé Carlos e a mulher, que andavam de candeias às avessas há muito tempo, só decidiram-se separar-se definitivamente em janeiro de 2020. E uso a palavra definitivamente porque o Zé Carlos e a Maria Rita são daqueles casais que se zangam e decidem que não se queriam ver nunca mais várias vezes. Tomaram pelo menos seis vezes decisões inabaláveis... que acabaram por ser esquecidas. Uma vez foi durante as férias no Algarve, outra quando o Zé Carlos perdeu o emprego, e outras tantas separações que acabaram sempre num regresso à base.

Vocês não podiam ter escolhido pior, disse-lhe eu. Separaram-se em janeiro, tu mudaste de casa em fevereiro e depois ficámos todos confinados. Na altura perguntei-lhe: mas como é que tu vais arranjar uma nova namorada?

O Zé Carlos não parecia nada preocupado com isso. Sinceramente, acho que nunca me contou como é que refez a sua vida sentimental fechado em casa, mas suponho que usou apps e outras tecnologias. Não voltámos a falar da vida sentimental do Zé Carlos até esta semana. Cruzei-o no trabalho, junto à máquina dos snacks.

Então, está tudo bem contigo? O Zé Carlos disse que sim, mas que este fim de semana queria era dormir porque estava muito cansado. Não deve ser o trabalho, que isto aqui anda calmo, disse-lhe eu.

Não é do trabalho, confessou. É a minha vida pessoal.

E começou-me a contar que o fim de semana de São Valentim foi um inferno.

Sabes que eu ando com a Ana? Sim, estás a falar da Ana da contabilidade, não é?

Exatamente. Mas também tenho saído com a Chloé, aquela francesa que trabalha no restaurante onde costumávamos ir almoçar às terças, estás a ver? Estou sim senhor. A Chloé era uma esbelta garota, se calhar muito nova para o Zé Carlos, mas prontos. Pensei-o, mas não lhe disse.

E conheci antes do Natal uma das minhas vizinhas na cave, enquanto punha a roupa a lavar. Olha, conversa puxa conversa...

Então, tu tens três namoradas, digamos, regulares? Perguntei surpreendido, porque sempre tive o Zé Carlos como um moço recatado e amigo da sua amiga.

Não, também vejo regularmente uma luxemburguesa que mora no norte do país, mas vemo-nos pouco...

Quatro namoradas? É tudo?! O Zé Carlos riu. Não, não são propriamente namoradas, mas claro que no Dia dos Namorados todas estavam à espera de uma surpresa, de um jantar, ou de algo assim.

E como é que resolveste isso? perguntei, curioso, já a pensar que esta história dava um bom artigo para o Contacto...

Nem imaginas, Raúl. Foi um pesadelo. Eu não falei de São Valentim a nenhuma delas, tentei que a coisa passasse despercebida, mas foram elas que começaram a perguntar o que íamos

fazer no fim de semana. A Ana disse-me aqui no escritório: e se fossemos dar um passeio até à Suíça? Ouvi dizer que lá se pode jantar nos hotéis.

Convenci-a a não irmos a lado nenhum: expliquei que há controlos na fronteira e que para atravessar a França é preciso um teste PCR negativo. Decidimos por isso jantar em casa dela no sábado, dia 13. Mas a Chloé, que por acaso cozinha muito bem, já tinha combinado comigo que eu fosse a casa dela jantar no sábado. Tive de dizer que não à Ana: expliquei que o Dia dos Namorados é a 14 de fevereiro e que, se calhar, era melhor jantarmos no domingo. Assim fizemos, em casa dela.

E as outras duas não quiseram jantar também? perguntei eu a pensar que se calhar o Zé Carlos tomou pequeno almoço com as outras...

A minha vizinha está-me sempre a bater à porta, eu vivo no primeiro e ela no segundo andar. Aparece-me lá quase todos os dias e tem a minha segunda chave. Por isso é que eu não convido nenhuma das outras lá para casa. Combinámos um almoço no dia 14. Mandei vir do restaurante um menu cheio de esses e erres daquele hotel chique perto do meu apartamento. A Véronique adorou. Mas a maior dificuldade foi mandá-la para casa. Depois de almoço deu-lhe para ver Netflix, que queria ver a nova série luxemburguesa e não sei quê. Mas eu tinha combinado ir dar um passeio nas margens do Mosela com a Brigitte, a tal luxemburguesa que mora perto de Waltz. A Brigitte apareceu-me lá em casa logo a seguir ao almoço e eu disse à Véronique que era uma colega de trabalho que me vinha buscar porque havia uma urgência. Espantado com a criatividade do Zé Carlos perguntei: e a tal Brigitte não quis saber quem era a Véronique? O Zé Carlos explicou que não, que a Brigitte não era ciumenta. Deve ser a única, disse-lhe eu. O Zé Carlos riu-se e assentiu.

Demos uma volta pelo rio, e ela queria que jantássemos juntos, só que eu não podia porque tinha combinado com a Chloé. Tive de dizer à Brigitte que não me sentia bem, que tinha uma coisa para fazer para o trabalho. Ela, que nunca trabalhou, estranhou, mas eu expliquei que as pessoas normais costumam trabalhar, sobretudo às segundas-feiras e que no dia seguinte era segunda-feira.

Ela lá aceitou, mas disse-me que lhe ficava a dever um fim de semana inteiro.

Lá fui a correr para Haltange, onde mora a Chloé. Não vais é acreditar que me pararam no cruzamento de saída da autoestrada para perguntar onde ia e se tinha teste covid negativo. Meti os pés pelas mãos e, de repente, olhei nos olhos o gendarme e disse-lhe: olhe, hoje é São Valentim e estou atrasado para ir jantar com a minha miúda. Vá lá, deixe-me passar.

O gendarme foi um porreiro, deixou-me seguir viagem, mas disse para o colega: mais um luxemburguês que nos anda a roubar as nossas miúdas!

(Os nomes e locais citados são para fins meramente ilustrativos e qualquer semelhança com pessoas reais é pura coincidência)

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