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O controverso tratamento para o cancro que arruinou uma mãe no Luxemburgo

O controverso tratamento para o cancro que arruinou uma mãe no Luxemburgo

O controverso tratamento para o cancro que arruinou uma mãe no Luxemburgo

O controverso tratamento para o cancro que arruinou uma mãe no Luxemburgo


por Sibila LIND/ 02.05.2019

Quando soube que o cancro se tinha espalhado, Eva Silva, 47 anos, pediu um empréstimo de 20 mil euros para fazer um tratamento com células dendríticas numa clínica na Alemanha. Era a sua última esperança. Em abril, a imigrante portuguesa no Luxemburgo soube que não funcionou. A história de uma mãe que fez tudo para ganhar tempo com os filhos e o negócio duvidoso dos tratamentos alternativos contra o cancro.

Eva sabe todas as datas de cor: 1 de julho de 2015, o dia em que soube que tinha um cancro no útero; 8 de abril de 2016, o dia em que o marido morreu de cancro nos pulmões; 4 de outubro de 2016, o dia em que recebeu o certificado que dizia que estava curada; 14 de agosto de 2017, o dia em que soube que tinha várias metástases espalhadas pela barriga; 30 de outubro de 2018, o dia em que lhe disseram que o cancro se espalhou até à mama esquerda e ao fígado; 3 de dezembro de 2018, o dia em que começou o tratamento experimental numa clínica em Duderstadt, na Alemanha; 3 de abril de 2019, o dia em que soube que o cancro chegou ao baço, que as vacinas que tomou não fizeram efeito e que não vai durar muito.

Nas mãos segura um papel. Ainda não conseguiu ter cabeça para saber mais sobre o que lá está escrito. Há dois dias que o recebeu. Há dois dias que soube que o tratamento que fizera na Alemanha, a sua última esperança para ganhar mais tempo com os filhos, não funcionou. “Sabia que não me ia curar para a vida, mas podia dar-me mais tempo”, conta Eva, encostada ao sofá. “Estraguei a minha vida e não sei se vou ter tempo para pagar as dívidas. Enforquei-me. Andei a incomodar as pessoas na ilusão de que este tratamento me fosse prolongar o tempo de vida. Sempre me disseram que não havia muita probabilidade de me curar, porque é muito difícil curar estas coisas, mas podia dar-me mais tempo para estar cá neste mundo. Mas nem uma vacina funcionou”.

Eva gastou 30 mil euros num tratamento alternativo para o cancro: vacinas com células dendríticas, um tratamento que não é reembolsado pela Caixa Nacional de Saúde (CNS) luxemburguesa. As células dendríticas são agentes de defesa do organismo que alertam outras células do sistema imunitário para atacar os tumores. O tratamento não tem resultados clinicamente comprovados e levanta muitas questões éticas. Há quem acuse a clínica alemã de explorar doentes em fase terminal que procuram uma última esperança para vencer o cancro.

Durante três meses, Eva tomou quatro vacinas, o número mínimo recomendado pela clínica. “A primeira custou 12 mil euros, as restantes seis mil”. Dinheiro que não tinha. Pediu um empréstimo ao banco no valor de 20 mil euros, vendeu o carro e pediu ajuda a amigos e desconhecidos, através de um apelo na Rádio Latina, que resultou em perto de dois mil euros. “Tentei. Não consegui. Não posso devolver o dinheiro. Sinto-me mal pelas pessoas. Algumas transferiram dinheiro e não sei quem são”, conta, em lágrimas. “Só quero agradecer a todas e pedir desculpa pelo incómodo que causei. Não sei como me deixei levar por esta ilusão. Mas eles iam-me dizendo que estava tudo bem. Eu só gostava de estar aqui mais tempo”.

Foi uma vizinha que disse a Eva que havia um “tratamento alternativo na Alemanha”, depois de ter visto um programa da Fátima Lopes na TVI, em que uma paciente oncológica contava ter ultrapassado os três meses de vida que lhe tinham dado, graças a umas vacinas. Quando Eva descobriu o terceiro cancro, a médica no Luxemburgo aconselhou-a a fazer quimioterapia, mas a imigrante recusou. Naquele momento, tinha decidido tentar a sua sorte na Alemanha. “A médica não concordou. Disse que era uma estupidez aquilo que eu ia fazer. Acha que eles levam muito dinheiro sem garantir a cura”, conta Eva. “Ela insistiu, mas eu recusei”.

Eles aproveitam-se dos estrangeiros porque sabem que eles gastam balúrdios lá e se calhar o tratamento não dá em nada.  

A vizinha de Eva ajudou-a a entrar em contacto com Raquel Abreu, uma portuguesa que se apresenta como “patient advocate” (literalmente, advogada dos doentes) e já acompanhou mais de 300 doentes portugueses à Clínica para Terapia Celular em Duderstadt, na Alemanha. Eva pagou 845 euros para que Raquel traduzisse o seu historial médico para inglês e elaborasse um relatório médico para ser entregue na clínica. Para acompanhá-la durante as consultas dos primeiros dez dias, Raquel pediu-lhe três mil euros. Eva não aceitou. “Os três mil euros faziam-me falta para a vacina”. 

Os primeiros dias que Eva esteve em Duderstadt foi com a filha mais velha,de 19 anos, que fala alemão e serviu de tradutora. Na clínica, encontrou-se com Thomas Nesselhut, médico especializado em Ginecologia e Obstetrícia e fundador da clínica alemã. “Ele nunca disse que me ia curar, mas também nunca me disse que não ia dar nada. Em todas as consultas a que nós íamos, ele dizia que estava sempre tudo bem”, conta Eva. Numa das visitas à clínica, Eva encontrou Raquel Abreu, que acompanhava uma “mulher portuguesa com 16 cancros”. “Mesmo com tantos cancros foi aceite por eles”, diz Eva. “Tudo porque veio de Portugal. Eles aproveitam-se dos estrangeiros porque sabem que eles gastam balúrdios lá e se calhar o tratamento não dá em nada”, lamenta a portuguesa, que foi incitada a fazer mais vacinas, apesar de as primeiras não terem tido efeito.

A vida de Eva nunca foi fácil. Nasceu na aldeia de Cortegaça, no norte de Portugal. Com 16 anos, começou a trabalhar numa fábrica de calçado para ajudar a mãe a sustentar os oito irmãos. Chegou ao Luxemburgo em março de 1998, com “27 anos feitos”, à procura de uma vida melhor. Começou por trabalhar num café, onde conheceu o marido. Na primeira noite que dormiram juntos, Eva engravidou. Só quando foram viver juntos é que Eva descobriu a dependência do álcool do companheiro. “Deixei-o ficar por três vezes, mas sempre voltei. Sempre na esperança que ele mudasse”.

O marido chegou a bater-lhe. Uma vez quando Eva estava grávida do primeiro filho, uma menina, e outra quando ela já tinha nascido. Eva não se esquece. Foi num sábado. Chegou a casa depois de dez horas de trabalho. “Encontro ele no sofá e a sobrinha que estava a viver connosco. Eu cansada deitei-me no sofá. ‘Então? Não vais fazer o comer?’, perguntou-me. ‘Acabei de trabalhar dez horas, chego a casa e vocês estão sentados no sofá e ainda queres que vá cozinhar? Olha, se queres comer vai fazê-lo’. O que eu fui responder”. A sobrinha levantou-se para ir cozinhar, enquanto o marido batia em Eva com uma vara. Mais tarde, Eva voltou a engravidar duas vezes. Só passados alguns anos, quando o marido levantou a mão à filha, é que Eva o expulsou de casa e pediu o divórcio, em 2013. Dois anos depois, descobriu que tinha cancro no útero. Em 2016, estava a tratar-se e ainda a divorciar-se, quando o marido morreu. Ficou sozinha com os três filhos.

Ilustração: Sibila Lind

O “negócio da esperança"

A Clínica para Terapia Celular, em Duderstadt, foi a primeira a disponibilizar um tratamento experimental para tumores sólidos que recorre a vacinas de células dendríticas, retiradas do sangue do doente. O tratamento não é reconhecido pela comunidade científica e os preços são proibitivos. Cada vacina custa atualmente à volta de “cinco a sete mil euros, conforme o custo de produção”, segundo o responsável. A clínica aconselha o paciente a fazer no mínimo quatro vacinas e esta é geralmente administrada com intervalos de quatro a cinco semanas. Para além disso, é proposto ao doente fazer uma série de tratamentos complementares. Contas feitas, uma pessoa gasta no mínimo 30 mil euros.

Em Portugal, a corrida louca às vacinas começou em 2013, quando foi transmitida na TVI uma reportagem muito favorável sobre a clínica alemã, considerada parcial pelo Sindicato dos Jornalistas. Antes, a clínica já tinha sido falada em Portugal, por causa da história de Safira, uma menina de cinco anos diagnosticada com um tumor de Wilms. Depois de fazer quimioterapia, foi-lhe extraído o rim direito e, com ele, todo o tumor. Para diminuir a probabilidade de o tumor regressar, era necessário fazer mais quimioterapia. Os pais recusaram e procuraram outra solução na clínica em Duderstadt, onde Safira tomou as vacinas de células dendríticas. Hoje em dia, a menina está bem, mas não se sabe se a vacina foi decisiva, visto que Safira já estava em remissão completa há uns meses quando tomou as vacinas.

A reportagem da TVI sobre a clínica em Duderstadt focava-se especialmente em testemunhos positivos – de Raquel Abreu, Thomas Nesselhut, médicos e doentes -, e provocou grandes expectativas entre os pacientes oncológicos em Portugal, apesar de a paciente que aparece no início da reportagem morrer no fim. “Depois dessa reportagem, recebemos cerca de 20 a 30 mil pedidos de que não conseguimos dar conta. Os portugueses vieram em massa, com expectativas muito altas”, diz o fundador da clínica, Thomas Nesselhut. No ano seguinte à difusão da reportagem da TVI, 80% dos doentes que chegavam a Duderstadt eram portugueses, segundo a RTP.

António Marques, imigrante em Bielefeld, na Alemanha, é apresentado na reportagem da TVI como um caso milagroso. António tinha um cancro no pulmão direito não operável, em estádio IV, o mais avançado, de 2,5kg. Os médicos em Bielefeld deram-lhe dois meses de vida. António foi procurar outra opinião e encontrou-a na clínica em Duderstadt, onde começou a tomar as vacinas com células dendríticas. Na reportagem, o português diz que depois de ter tomado duas vacinas o tumor diminuiu bastante. “Estou novo, completamente novo”. As suas palavras são confirmadas pelas imagens das duas TAC que fez, a primeira em janeiro de 2013 e a segunda dois meses depois, na qual se pode ver uma grande redução do tumor.

Quando perguntamos o que aconteceu aos pacientes que aparecem na reportagem da TVI, o responsável da clínica não sabe responder. Já Raquel Abreu diz que alguns morreram, mas não se recorda de todos. “E António Marques?”, perguntamos. “Morreu”, diz Raquel. “Quando?”. Primeiro Raquel diz que não sabe, mas logo acusa a família pelo fracasso do tratamento. “Ele tinha que ter continuado as vacinas, só fez as quatro. Sentia-se lindamente e depois não foi lá”.

O Contacto conseguiu encontrar o rasto à viúva de António, Conceição MarquesE o que a portuguesa nos contou desmente inteiramente as afirmações de Raquel. “Nunca parámos as vacinas. Fizemos sempre o que o médico disse para fazer. Ele faleceu em junho de 2014 e a última vacina foi em abril de 2014”, conta Conceição.

O caso anunciado como milagroso pela TVI, afinal, durou pouco tempo. António viveu mais um ano e meio. Durante um ano, António fez quimioterapia no hospital em Bielefeld e tomou vacinas com células dendríticas na clínica alemã, de dois em dois meses. Após as duas primeiras vacinas, o tumor diminuiu bastante, ficou “do tamanho de uma agulha”, e as metástases no rim e no fígado desapareceram. Nessa altura, António também estava a experimentar um novo tratamento, “uma experiência do Dr. Nesselhut, em que ele tirava o sangue dos filhos e aproveitava as células boas”.

No total, o tratamento na clínica alemã custou 70 mil euros. A família conseguiu, “a muito custo”, que a segurança social alemã pagasse metade. “No fim, os técnicos de saúde provaram que o que fez o tumor diminuir foi a terapia com as células dendríticas. Então pagaram metade, e nós o resto, 35 mil euros”. Mas no início de 2014, e apesar de continuar o tratamento em Duderstad, o tumor chegou ao cérebro, “e já não havia nada a fazer”, recorda a viúva. Ainda assim, António foi incitado a continuar as vacinas, apesar de os terapeutas da clínica já saberem que o tumor era incurável. “Ele tomou as vacinas com células dendríticas, mas não adiantou nada. O tumor não desapareceu e continuava a aumentar cada vez mais”.

Cinco anos após a morte do marido, Conceição continua endividada. “Ainda estou a pagar a quem pedi”, contou ao Contacto. Mesmo assim, não se arrepende. “O que fizemos foi mais para lhe dar qualidade de vida. Ele levava uma vida normal. Só sentiu dor, a doença, dois dias antes de morrer.”

Fica sempre a questão no ar: será que António viveu mais tempo do que os dois meses que lhe foram diagnosticados por causa das vacinas? Esse parece ser o argumento que leva muitos doentes a manter a fé na clínica, ainda que acabem por morrer pouco tempo depois.

Mas para o presidente da Sociedade Luxemburguesa de Oncologia e membro da Sociedade Europeia de Oncologia, Stefan Rauh, a expectativa de vida de um doente oncológico é imprevisível. “Muitas vezes os pacientes perguntam-me: ‘Quanto tempo tenho de vida?’. Ao que eu respondo: ‘Não lhe posso dizer. Eu não consigo dizer quanto tempo poderá viver, só tenho uma estimativa’. Tenho pacientes que deviam ter morrido há sete anos e meio, mas ainda estão cá. E o pior é que não sei por que é que eles continuam aqui, a fazer o mesmo tratamento que os outros pacientes”, explica o médico.

Há um fenómeno raro, mas que existe, com ou sem tratamento, que é a regressão espontânea. 

O presidente da Sociedade Luxemburguesa de Oncologia desmistifica também o fenómeno das “curas milagrosas”, apontando que há situações em que o próprio organismo consegue combater o cancro. “Tive pacientes que iam começar a fazer quimioterapia comigo. Quando estava a fazer o controlo final, o tumor já não estava lá. Discuti com o radiologista, porque achei que ele tinha trocado o paciente, mas não trocou. O tumor tinha apenas desaparecido. Há um fenómeno raro, mas que existe, com ou sem tratamento, seja ele falso, antroposófico, alternativo ou convencional, que é a regressão espontânea”, explica. E conta um caso paradigmático. “Tive uma paciente que sempre que viajava para Maiorca tinha cancro, mas quando voltava tinha uma remissão. É muito estranho. Não é frequente, mas existe”, garante o especialista. “Já mandei pacientes para a Haus Omega [centro de cuidados paliativos para doentes terminais], que achei que iriam viver dois meses e viveram nove, sem qualquer tratamento. Acontece”.

A reportagem da TVI, com o caso alegadamente milagroso de António Marques, gerou várias críticas da Ordem dos Médicos. O organismo denunciou o facto de o tratamento com células dendríticas não ser “sujeito à avaliação científica exigível a qualquer terapêutica inovadora”, criando “exageradas expectativas a alguns doentes oncológicos que, insistentemente, manifestam o desejo de se submeterem a esta terapia que os oncologistas portugueses não podem validar, por ausência de informação científica publicada”. A Direção-geral de Saúde, Infarmed e a Ordem dos Médicos continuam a desaconselhar este tipo de tratamento.

Em março de 2014, a RTP transmitiu uma reportagem sobre a mesma clínica, intitulada “O negócio da esperança”. A televisão pública questionava a eficácia das vacinas de células dendríticas e os valores altíssimos que eram cobrados aos pacientes. Segundo a RTP, “centenas de doentes” acusavam Raquel Abreu “de estar a explorar a dor e a doença”. Havia inclusive um casal que vendeu o carro para poder pagar pelos serviços de Raquel. Contudo, no dia da vacina, Raquel não apareceu e o dinheiro pago não lhes foi devolvido. A jornalista da RTP confrontou Raquel Abreu, que garantiu não ter falhado qualquer compromisso e acrescentou que “os valores que pratica são justos e que foram aliás concertados com os responsáveis da clínica”.

Essa informação foi desmentida por Thomas Nesselhut que, na altura, afirmou desconhecer os valores e negou uma parceria formal entre os dois. O Contacto voltou a questionar ambos quanto à parceria, e cinco anos depois, as contradições mantêm-se. “Ela é independente. Não temos qualquer relação. Ela vem cá com pacientes que procuram os seus serviços. Não temos nenhum contrato, nada”, garante Nesselhut. Apesar de o responsável da clínica negar qualquer parceria, o nome de Raquel Abreu, assim como os seus contactos, são indicados no site da clínica alemã, que a recomenda como a pessoa que deve ser contactada pelos pacientes portugueses, e também por aqueles que falam francês e espanhol.

“Há um negócio da esperança, de propaganda exagerada, e acho que esse tipo de tratamento [com células dendríticas] vai na mesma direção”, lamenta o presidente da Sociedade Luxemburguesa de Oncologia. “Alguns dos meus pacientes acham que por pagarem grandes quantias de dinheiro, quer dizer que é melhor. Na medicina não funciona assim”.

Ilustração: Sibila Lind

Uma descoberta promissora ainda em estudo

Em 1973, Ralph Steinman descobriu as células dendríticas, capazes de identificar e atacar as células cancerígenas, uma investigação que lhe valeu o Nobel da Medicina em 2011. O investigador canadiano tinha um cancro no pâncreas e estava a tratar-se com células dendríticas, sem sucesso. Morreu três dias antes de receber o prémio pelos seus trabalhos sobre o sistema imunitário.

Desde então, o crescimento de imunoterapias tem sido exponencial. Algumas doenças apresentam uma pequena resposta às terapias com células dendríticas, como é o caso do melanoma, glioma, cancro da próstata e carcinoma de células renais, mas os resultados clínicos continuam aquém das expectativas. “Podemos dizer que, uma vez que é promissor e que estamos a saber cada vez mais sobre estas células dendríticas, isso significa que um médico oncologista, ao pegar nessas células e colocá-las no tumor, vai funcionar? Não, de todo”, explica o presidente da Sociedade Luxemburguesa de Oncologia. “Infelizmente, na ciência, particularmente na oncologia, podemos ter coisas que são fantásticas e lógicas, mas que não funcionam”.

A Fundação do Cancro, no Luxemburgo, não sabe exatamente quantas pessoas no país recorrem à clinica alemã. Mas a diretora da fundação, Lucienne Thommes, diz que normalmente os pacientes procuram este tipo de tratamento quando a terapia convencional não funcionou e “não têm outra saída”.

A clínica na Alemanha aceita “qualquer paciente”, disse o responsável ao Contacto, e raramente recusa tratar uma pessoa, apesar do diagnóstico terminal. “Nós nunca desistimos, enquanto o doente estiver disposto a lutar. Mesmo num estado avançado, temos uma hipótese, embora pequena, de sucesso”, diz Nesselhut. “Às vezes funciona, de forma fantástica, outras vezes só um pouco, e outras vezes nada. Eu digo aos pacientes o que é que eles podem esperar. A maior parte deles prefere focar-se no sucesso do que no insucesso. E faz sentido. Caso contrário, já ninguém estaria disposto a lutar”.

Segundo Raquel Abreu, se o doente chegar logo no início da doença, “o Dr. Nesselhut consegue prever uma taxa de sucesso entre 80% ou mais. Porque o doente chega sem contaminação nenhuma”. “A pessoa passa por isto como quatro idas à Alemanha, tipo férias”, diz Raquel. “Há números quanto aos casos de sucesso?”, perguntamos. “Não, não se consegue”, responde Raquel, mas afirma: “Temos muitas pessoas vivas”.

A diretora da Fundação do Cancro ironiza. “Eles não têm estudos que provem a eficácia? É um argumento muito fácil dizer que poderia funcionar se a pessoa não tivesse feito antes qualquer tratamento”, diz. “Pode haver alguém com quem tenha funcionado, mas não se sabe que cancro tinha, em que estádio estava… Há demasiadas incógnitas para ser possível concluir que pudesse ser válido para toda a gente. É como quando alguém cai do quinto andar e sobrevive sem qualquer problema. Isso não quer dizer que vá acontecer o mesmo com outra pessoa que também caia do quinto andar”, aponta.

Para a Sociedade Luxemburguesa de Oncologia, a clínica levanta suspeitas. “Dei uma olhada ao site desta… vamos dizer, empresa, e a meu ver, não me parece muito séria”, diz Fernand Ries, membro da Sociedade Luxemburguesa de Oncologia, sem desconsiderar a potencialidade do tratamento no futuro. “Acho que é um negócio rentável. A segurança social não paga este tipo de tratamento, não porque é caro, mas porque não há dados suficientes que comprovem a sua eficácia”.

Há demasiadas incógnitas para concluir que pudesse ser válido para toda a gente. É como quando alguém cai do quinto andar e sobrevive sem qualquer problema. Isso não quer dizer que vá acontecer o mesmo com outra pessoa.   

Apesar de ser olhado com desconfiança e ceticismo pela comunidade médica e científica, estes tratamentos alternativos estão disponíveis em vários centros privados na Alemanha. Como explica a jornalista de investigação Lindsay Gellman, numa reportagem publicada no ano passado, há um vazio legal naquele país que permite o florescimento deste tipo de empresas privadas. Segundo a lei alemã, “as clínicas que funcionam independentemente dos sistemas de seguro de saúde da Alemanha, que empregam profissionais de saúde licenciados e exigem que os pacientes assinem um termo de responsabilidade, têm um mandato amplo para administrar as práticas privadas como entenderem”, afirma a jornalista. Por essa razão, considerada “uma anomalia nos cuidados de saúde ocidentais”, a Alemanha tornou-se “terreno fértil para empresas independentes que disponibilizam medicamentos contra o cancro não comprovados cientificamente a pacientes gravemente doentes”, a maior parte estrangeiros.

Desesperadas, muitas pessoas vendem a casa, gastam as poupanças de uma vida, pedem empréstimos e donativos, através de campanhas de angariação na Internet, e endividam-se. Tudo para tentarem ganhar tempo com terapias alternativas, sem saber se vão realmente conseguir. Muitos pacientes morrem durante estes tratamentos, deixando para trás os familiares com as dívidas que contraíram. Até agora, a Federal Drug Administration (FDA), entidade que controla os alimentos e medicamentos nos Estados Unidos, aprovou uma única terapia com células dendríticas, para tratar o cancro da próstata. Uma vacina que custa milhares de euros e garante apenas mais alguns meses de vida. Apesar disso, na clínica de Duderstadt, as vacinas são usadas como se servissem para todos os tipos de tumores.

Para Raquel Abreu, o tratamento ainda não foi aprovado porque as vacinas de células dendríticas representam “uma ameaça à indústria farmacêutica”, por se tratar de uma “medicina individualizada”, que não pode “ser comercializada e colocada em frasquinhos”. Uma afirmação contestada pelo presidente da Sociedade Luxemburguesa de Oncologia, Stefan Rauh, que a considera mais uma teoria da conspiração. “Na era de Trump e de Putin”, diz, “estamos rodeados delas e de pessoas que nos dizem para deixarmos de ler os jornais, porque é só ‘fake news’, e que devíamos antes acreditar nos blogues”, explica o especialista. “Se há dinheiro envolvido e provas de sucesso, as farmacêuticas e as grandes empresas seriam as primeiras a investir”.

De acordo com o oncologista de origem alemã, o cancro é uma doença extremamente versátil e o sistema imunológico muito complexo e imprevisível. E apesar de alguns estudos sobre tratamentos que recorrem a imunologia terem taxas modestas de sucesso, o médico acredita que “é uma área promissora”. O problema é que “ainda está em fase de desenvolvimento”.

Por enquanto, não se sabe se as células dendríticas não passam de um efeito placebo, ou seja, se criam melhorias em alguns doentes pelo poder da sugestão, afirma Rauh. E enquanto não houver provas científicas da sua eficácia, para o presidente da Sociedade Luxemburguesa de Oncologia não é ético cobrar dinheiro aos doentes por tratamentos experimentais. “Os honestos vão propor ao paciente que participe num estudo. Os menos honestos, esses, vão pedir à pessoa para pagar por isso”.

Ilustração: Sibila Lind

A mãe que se endividou para ter mais tempo com os filhos

Desde 1993 já passaram mais de 5.500 pacientes pela clínica em Duderstadt, apesar da incerteza dos resultados dos tratamentos. Até porque, como o responsável, Thomas Nesselhut, admitiu, a clínica não segue todos os pacientes que trata, a começar pelos que lá vão tomar “três vacinas ou quatro e depois nunca mais voltam”.

É o caso de Eva Silva. Depois de saber que as quatro vacinas não só não funcionaram, como o cancro avançou para o baço, a portuguesa já cancelou a próxima vacina, agendada para meados de maio. “Em outubro, quando me apareceu o terceiro cancro, a taxa tumoral [indicadores tumorais] estavam a 165%, e agora estão a 500%”, diz Eva. “Depois dos resultados, a minha vizinha enviou um e-mail à Raquel Abreu. Ela disse-lhe para eu continuar a lá ir, porque eles iam dar-me outras vacinas. E eu disse: ‘Pois sim, agora vendo a casa’”.

No mês passado, a imigrante portuguesa no Luxemburgo piorou e entregou o papel da baixa médica no trabalho. Não conta voltar. Em agosto iria fazer 13 anos que trabalhava como empregada de limpeza na autarquia de Walferdange. Depois de ter recusado a quimioterapia para fazer as vacinas na Alemanha, Eva aceitou finalmente fazer o tratamento proposto pelos médicos no Luxemburgo. Agora, resta esperar por sinais do organismo e perceber se ele reage ao tratamento. “Se a quimioterapia não fizer nada, tenho três ou seis meses de vida”, diz.

Se a quimioterapia não fizer nada, tenho três ou seis meses de vida.  

Para além do sofrimento da doença, e sem saber como vai pagar as dívidas que contraiu para fazer o tratamento na Alemanha, Eva ainda tem de procurar uma solução para os três filhos, dois rapazes com 14 e 16 anos e uma rapariga com 19. “Eles sabem que a mãe daqui a uns meses não está cá. Agora ando a ver uma família para eles. Vou prepará-los, para que continuem a vida deles”. A portuguesa não quer que a filha mais velha fique responsável pelos irmãos. “Ela não pode privar-se de seguir os estudos e os seus sonhos para cuidar deles”, defende.

Eva está a fazer de tudo para deixar a vida arrumada. E lamenta. “Não querer morrer e saber que vou morrer é…”. Não tem palavras. À porta de casa, olha para o pátio da entrada com ervas a crescer. Diz que é capaz de as arrancar e mandar colocar tijoleira, para que os filhos não tenham trabalho. “Vendo tudo o que passei, acho que merecia mais. Já não digo eu, mas pelo menos os meus filhos”.


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