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O comboio desaparecido onde se forjou a Europa

  • A ferrovia que criou cinco ilhas
  • Um comboio para a guerra
  • Os carris que já não são
  • A bicicleta em vez do comboio
  • O caminho da pacificação
  • A ferrovia que criou cinco ilhas 1/5
  • Um comboio para a guerra 2/5
  • Os carris que já não são 3/5
  • A bicicleta em vez do comboio 4/5
  • O caminho da pacificação 5/5

O comboio desaparecido onde se forjou a Europa

O comboio desaparecido onde se forjou a Europa

O comboio desaparecido onde se forjou a Europa


por Ricardo J. Rodrigues/ 19.01.2021

Fotos: António Pires

Esta é a Vennbahn. Começa em Aachen, na fronteira da Alemanha com a Holanda e a Bélgica, e termina em Troisvierges, no Luxemburgo. Hoje é uma ciclovia de 125 quilómetros, mas durante décadas foi a grande ferrovia de transporte do ferro e do carvão que chegavam das minas da Alsácia e da Lorena. Foi neste traçado que a Europa construiu a guerra. E depois edificou a paz.

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A ferrovia que criou cinco ilhas
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Foto: António Pires

A pandemia de 2020 revelou um problema que toda a gente parecia ter esquecido. As fronteiras abertas da Europa voltaram a ser fechadas 35 anos depois dos acordos de Schengen – e isso afetou verdadeiramente Nicolas Fickes, um rapaz de 20 anos que vive ao lado da antiga linha férrea da Vennbahn. 

“De repente eu não podia ir visitar os meus avós, porque tinha de passar a ferrovia e a ferrovia é belga. Eu vivo na Alemanha, eles também, e estamos a menos de 100 metros de distância. Mas temos aquela faixa a dividir-nos. Era uma coisa que eu sabia dos livros, mas durante a pandemia percebi pela primeira vez o impacto de viver junto a esta linha de comboio.”

“De repente eu não podia ir visitar os meus avós, porque tinha de passar a ferrovia e a ferrovia é belga. Eu vivo na Alemanha, eles também", diz Nicolas Fickes.
“De repente eu não podia ir visitar os meus avós, porque tinha de passar a ferrovia e a ferrovia é belga. Eu vivo na Alemanha, eles também", diz Nicolas Fickes.
Foto: António Pires

A Vennbahn tem esta característica: é o único caminho de ferro do mundo que pertence a um país estando dentro de outro. Na verdade já não é uma ferrovia, na maior parte do percurso os carris foram arrancados para dar lugar a uma das mais aclamadas ciclovias europeias – mas o seu traçado continua a ser território belga. 

A linha vai de Aachen, na fronteira germano-belgo-holandesa, até Troisvierges, no Luxemburgo, mas no troço entre Raeren e Kalterherbert entra Alemanha adentro e isola cinco enclaves – ilhas germânicas rodeadas de Bélgica por todos os lados.

Ruitzhof, um dos cinco enclaves alemães criados pela Vennbahn.
Ruitzhof, um dos cinco enclaves alemães criados pela Vennbahn.
Foto: António Pires

Os avós de Nicolas vivem numa dessas ilhas, em Ruitzhof. Ele em Kalterherberg, uns metros adiante. Até 1919 tudo aquilo era Alemanha – mesmo a Vennbahn. Mas o Tratado de Versalhes, que definiu as fronteiras dos países europeus no final da I Guerra Mundial, entregou aquela linha de território à Bélgica. Hitler ainda tentou recuperar a ferrovia. Invadiu a região e anexou-a em 1940. 

Mas os Aliados haveriam de recuperar o caminho no Inverno de 1944/45, durante as batalhas na linha Siegfried e nas Ardenas. A abertura das fronteiras europeias haveria de por fim ao embaraço alemão até 2020. Depois veio a pandemia, as fronteiras foram fechadas e ninguém podia passar de um lado para o outro. Nicolas faz uma piada sobre o assunto: “Eu trabalho no Luxemburgo, tinha de ter autorizações para sair e entrar. Os meus avós tinham imensos problemas em fazer compras. E pela primeira vez na minha vida eu pensei: lá se foi a Europa.”

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Um comboio para a guerra
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Ferroviários alemães na estação de St. Vihn no início do século XX.
Foto: Arquivo pessoal de Klaus-Dieter Klauser

Nicolas não há de ter sido o primeiro a pensar isso. Quando a Veenbahn nasceu, no final do século XIX, toda ela ocupava território prussiano. O Luxemburgo só conseguira a independência plena em 1867, e desenvolvera a sua economia em torno da captação do ferro e da produção de aço. “Uma boa parte dos caminhos de ferro europeus e dos arranha-céus de Nova Iorque e Chicago foram construídos com aço e ferro do Grão-Ducado, da Alsácia e da Lorena, possessões alemãs até ao final da I Guerra Mundial”, diz o historiador alemão Klaus-Dieter Klauser no seu livro “Hommage à la Veenbahn”.

Em Aachen, o ponto mais ocidental da Alemanha – e mesmo na intersecção com a Bélgica e a Holanda – as minas de carvão permitiam a produção fabril. “A indústria militar desenvolvia-se rapidamente ali, mas era preciso ferro para construir armamento. Foi sobretudo por isso que se construiu a Veenbahn”, segue Klauser, “para transportar mais ferro e mais carvão para a Alemanha e preparar a aurora da Guerra.” De Troisvierges, as ferrovias estabeleciam já a ligação aos grandes centros minerais do sul do Luxemburgo, da Alsácia e da Lorena. A partir do início do século XX, a produção de armamento tornava-se implacável na Alemanha Ocidental.

O ponto onde começa a Vennbahn, em Aachen.
O ponto onde começa a Vennbahn, em Aachen.
Foto: António Pires

A ofensiva alemã na I Grande Guerra partiria precisamente de Aachen – em direção a Liége, na Bélgica. Outro historiador, este belga e chamado Herbert Ruland, descreviria isto numa entrevista de 2018 à agência de notícias Deutsche Welle, quando se comemoravam 100 anos de Armistício: “A Vennbahn servia sobretudo para transportar mercadorias, mas no verão de 1914 a linha encheu-se também de carruagens de passageiros, que vinham cheias de militares alemães. Quando a 2 de Agosto a Bélgica é invadida, a primeira preocupação foi assegurar um cordão de segurança da ferrovia. O Luxemburgo também foi rapidamente anexado pelo mesmo motivo. O caminho de ferro era absolutamente essencial para as aspirações alemãs.”

Um ano depois de a Alemanha perder a guerra, como já se viu, o Tratado de Versalhes entrega a administração da Veenbahn à Bélgica – mesmo nos troços em que a linha entrava em território alemão. Em 1940, as tropas de Adolf Hitler invadem a Bélgica, anexam o Luxemburgo e recuperam a soberania sobre a Vennbahn. Com esse reforço, o regime nazi ganha fôlego e avança para Holanda e França. Em 1944, depois do desembarque aliado na Normandia, a Vennbahn é bombardeada consecutivamente. Nesse Inverno, as tropas – sobretudo os batalhões norte-americanos – avançam para leste, conseguem desfazer a Linha Siegfried que a Alemanha tinha montado para proteger o país. Nas Ardenas, travam-se algumas das mais mortíferas batalhas da II Guerra Mundial. Mas os Aliados vencem, recuperam o Benelux e o domínio sobre a Vennbahn, cortando o transporte de matérias primas para a guerra. A guerra contra a Alemanha também se ganhou nestes 125 quilómetros.

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Os carris que já não são
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Joseph Philippen cumpre a Vennbahn uma vez por mês.
Foto: António Pires

O quilómetro zero da Vennbahn, em Aachen, não é particularmente bonito. A linha começa na estação de comboio da e atravessa toda a zona industrial da cidade alemã antes de mergulhar num circuito de montanhas, vales, pontes e túneis espetaculares. A primeira placa a assinalar a antiga ferrovia fica junto a um centro comercial de arquitetura severa chamado Aachen Arkaden. “Oh, mas a maioria das pessoas que fazem esta ciclovia preferem começar aqui”, ri-se Katharina Weitz, uma alemã de Kornelimünster.

Katharina Weitz explica a pressão dos 80 mil ciclistas que passam anualmente na sua aldeia para fazer a Vennbahn.
Katharina Weitz explica a pressão dos 80 mil ciclistas que passam anualmente na sua aldeia para fazer a Vennbahn.
Foto: António Pires

“Estamos no quilómetro sete da linha, aqui ainda há carris no chão e a ciclovia ao lado”, conta. “E as pessoas começam normalmente o percurso nesta região porque saem da área urbana e entram na natureza.” Katharina mora mesmo ao lado da linha férrea desativada, mas não é fã de ciclismo. “Uma vez fiz metade da Vennbahn a cavalo, mas não é o ideal quando há tantas bicicletas a passar para um lado e para o outro. A verdade é que temos aqui 80 mil pessoas a fazer o circuito por ano e esta é uma das maiores e mais conhecidas ciclovias de toda a Europa. Às vezes, sobretudo no verão, há demasiada gente.”

No entanto, estamos em janeiro. À medida que se segue o caminho até Monschau e se sobe o parque natural de Eifel a neve toma conta da paisagem e os ciclistas desviam-se da rota. Joseph Philippen vai ali mais adiante no caminho, montado em duas rodas e equipado como se fosse para uma pista de esqui. “Tenho 65 anos, sou de Aachen e estou reformado. As bicicletas e os comboios são a minha paixão, então eu faço a Vennbahn uma vez por mês porque neste percurso consigo misturar duas paixões.” 

Não é demasiado apressado, costuma em média demorar três dias a cumprir o itinerário. “Agora os hotéis estão fechados por causa da pandemia, então o que te tenho feito é ir de Aachen a Monschau e volto.” No total, cumpre 64 quilómetros, mais de metade da pista.

Monschau não é nada menos do que uma pérola. Uma aldeia medieval no coração do Eifel, por onde corre um rio e a Vennbahn. Por estes dias está coberta de neve. Na II Guerra Mundial, a povoação revelou-se o extremo norte da mortífera Batalha das Ardenas e é neste município que se localizam os cinco enclaves alemães separados do país pela ferrovia belga. A partir daqui, o antigo caminho de ferro entra em terras belgas e por aí continuará até chegar ao Luxemburgo. Ao longo do caminho encontram-se constantes monumentos à Guerra, tanques ocupam rotundas nos centros habitacionais, a memória da infâmia é presença constante.

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A bicicleta em vez do comboio
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Foto: António Pires

Vista da Vennbahn, a Bélgica torna-se perentória a partir de Küscheklscheid. Charles Servaty, 54 anos, é vereador do município, e nas suas terras a autarquia instalou os últimos nove quilómetros de ferrovia que subsistem até ao fim da rota. “Sim, guardámos uma carruagem antiga para as pessoas poderem ver como as coisas eram. E agora também temos umas bicicletas vagões que permitem aos turistas andar pelos carris. Sabe, quando os últimos comboios deixaram de passar aqui, há precisamente 20 anos, nós vimo-nos sem alternativas. Tínhamos de fazer alguma coisa para atrair as pessoas.”

Charles Servaty, vereador em Kücheldcheid
Charles Servaty, vereador em Kücheldcheid
Foto: António Pires

Este argumento é ainda mais visível em Saint Vith, uns quilómetros abaixo. A pequena vila belga era o coração da força de trabalho da Vennbahn, e no início do século XIX havia mais de 3000 ferroviários a trabalhar aqui. “Há 20 anos eram ainda uns mil, e depois os carris foram arrancados, deixámos de ter sequer uma linha de comboio. Foi muito traumatizante para as pessoas desta região”, diz Sarah Borne, historiadora no museu de St. Vihn, que funciona num edifício de tijolo que até 2001 era a casa do chefe da estação.

A uns poucos quilómetros de St. Vihn, Marguerite Dupoint lamenta o que aconteceu com o passar dos tempos. Tem oitenta anos e vive em Weweler, encostada à fronteira com o Luxemburgo. “Quando o comboio funcionava tínhamos aqui duas padarias, dois talhos, quatro mercearias, um restaurante e um café. Agora já só resta uma padaria.” A aldeia é conhecida pela capela de São Basílico, ponto de peregrinação do Caminho de Santiago. “Nos anos da guerra muitos soldados alemães apeavam-se aqui e iam rezar lá acima”, lembra. “Mas há muitos para quem a oração não foi forte o suficiente, o cemitário está cheio de rapazes alemães que perderam a vida a combater nas Ardenas.”

Aldeias como Küscheklscheid, St. Vihn e Weweler têm isto em comum: perderam gente e fôlego económico com o desmantelamento da Vennbahn. Volta a falar Sarah Borne, historiadora: “A ferrovia era o grande motor de emprego até aos anos setenta. Quando os carris começaram a ser desmantelados, ficaram os que tinham terrenos agrícolas a lavrar as terras, e os que tinham porções de floresta tornaram-se lenhadores. Mas a partir dessa altura há uma grande migração para as cidades. E isso é um fenómeno que só começa a ser invertido a partir de 2008.”

A estação de St. Vith no final do século XIX.
A estação de St. Vith no final do século XIX.
Arquivo pessoal de Klaus-Dieter Klauser

É precisamente nesse ano que as autoridades alemãs, belgas e luxemburguesas assinam um acordo para transformar a Vennbahn em ciclovia. Com apoio de fundos europeus, alisam-se terrenos, criam-se marcações, instalam-se painéis informativos ao longo dos 125 quilómetros do percurso. A obra custa 15 milhões de euros, mas estanca a sangria populacional. “Agora todas estas aldeias têm hotéis, bed&breakfasts, cafés e oficinas para assistir os ciclistas. Em média, temos 80 mil pessoas a fazer a ciclovia por ano. E, se não contarmos com dormida, cada um gasta diariamente 35 euros”, diz Charles Servaty, o vereador de Küscheklscheid. “O desaparecimento da Vennbahn condenou-nos à pobreza. A sua recuperação como ciclovia revelou-se a nossa tábua de salvação.”

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O caminho da pacificação
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Foto: António Pires

A rota presta-se a chegar ao fim. De Lengeler, a Vennbahn mergulha num túnel de 790 metros até Wilwerdange, já no Luxemburgo. Hoje, o acesso a peões e ciclistas é condicionado, porque o túnel alberga uma importante comunidade de morcegos. Há um caminho alternativo que se desvia uns metros da rota inicial, e está cheio de painéis interativos e informações sobre o contrabando e a fuga de judeus que aqui aconteciam.

O percurso começa a descer os montes por curvas e contracurvas, até chegar a Troisvierges, a paragem final. Termina precisamente junto à casa da família Koch, pertíssimo da estação de comboios. “Mas as pessoas estão preguiçosas, agora parece que toda a gente usa biciletas elétricas para não ter que dar aos pés”, zomba o dono da casa. Em 2021 comemora-se o Ano Internacional do Transporte Ferroviário, e ele, que toda a vida trabalhou nos caminhos de ferro, gostava de ver a Vennbahn assentar carris outra vez. “Eu não digo para se destruir a ciclovia, mas era bonito voltar a ver o comboio passar para Aachen. Ele tem uma história demasiado importante para continuar desaparecido.”

O túnel entre a Bélgica e o Luxemburgo está hoje fechado para proteger uma importante comunidade de morcegos.
O túnel entre a Bélgica e o Luxemburgo está hoje fechado para proteger uma importante comunidade de morcegos.
Foto: António Pires

 Depois de se cumprir toda a rota da antiga linha férrea, há duas impressões que qualquer visitante guarda: a paisagem avassaladora que a ferrovia atravessa e a memória de horror que ela carrega. “Mas, se repararmos bem, há que ver que é na rota da Vennbahn que se constroi a identidade europeia”, diz o historiador Klaus-Dieter Klauser. Está a referir-se a um acontecimento que se deu há precisamente 70 anos: a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA).

A CECA foi ratificada em 1951 por proposta de um ministro luxemburguês que servia o governo de França: Robert Schumann. Seis países criaram nesse ano aquilo que seria o berço da União Europeia: Alemanha, Bélgica, França, Holanda, Itália e Luxemburgo. “A UE nasceu na mesma rota de ferro e carvão onde anos antes se tinha levantado os maiores conflitos a que o mundo já assistiu. As duas guerras mundiais travaram-se nesta linha dos minérios. Repare que a Vennbahn vai da fronteira entre a Alemanha, a Bélgica e a Holanda até ao Luxemburgo, porque aí se podia receber o que se produzia na Alsácia e na Lorena, as zonas de fronteira entre França e Alemanha. Era aí que estava a fonte do conflito. Mas também era aí que estava a fonte da pacificação”, continua o historiador.

Olhando para o mapa, percebe-se que esta é uma espécie de coluna vertebral da Europa. Atravessa o continente de sul a norte e, de certa maneira, define a sua identidade. Em tempo de guerra, primeiro, e depois em tempo de paz. 2021 é o Ano Europeu do Transporte Ferroviário. Para quem se lembra dos comboios da Vennbahn, esta bem podia ser uma oportunidade para recuperar o comboio que nos explica quem somos.


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