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O caso de José Vaz do Rio: Um país dividido

O caso de José Vaz do Rio: Um país dividido

Foto: Gerry Huberty
Luxemburgo 3 min. 18.10.2017

O caso de José Vaz do Rio: Um país dividido

O caso de José Vaz do Rio, o português que não quis ser burgomestre, deu que falar nos jornais luxemburgueses. Num editorial publicado no diário Luxemburger Wort, o jornalista Marc Thill defende que "há fossos e barreiras" para os imigrantes no Luxemburgo e diz que o "défice democrático" não se limita à política. Para o jornalista luxemburguês, as barreiras começam na educação. O Contacto publica o editorial traduzido em português.

Um país dividido

Marc Thill

Teria podido tornar-se o primeiro burgomestre no Luxemburgo com nacionalidade portuguesa e luxemburguesa. No entanto, José Vaz do Rio, o mais votado nas eleições municipais em Bettendorf, acabou por renunciar ao cargo.

Não é como se não dominasse a língua luxemburguesa para poder exercer as suas funções: chegou mesmo a frequentar cursos noturnos durante seis anos, numa idade em que poucas pessoas estão dispostas a voltar aos bancos da escola ao fim de um dia de trabalho. 

Aquele que conquistou mais votos em Bettendorf, chegado ao Luxemburgo há 40 anos como trabalhador não qualificado, e que, até à sua bem merecida reforma, ganhou o pão de cada dia na fábrica de pneus da Goodyear, deixa, a seu pedido, o lugar aos outros eleitos. Não se sente à altura do cargo de burgomestre e prefere o de primeiro vereador. Trata-se de uma decisão sábia da sua parte, que merece que lhe tiremos o chapéu.

E, no entanto, um burgomestre com raízes portuguesas teria sido um sinal importante para o país e para a população. Porque há fossos e barreiras no Luxemburgo. Nem todos os habitantes com acesso à vida política votam ou podem candidatar-se às eleições.

 E, no entanto, um burgomestre com raízes portuguesas teria sido um sinal importante para o país e para a população. Porque há fossos e barreiras no Luxemburgo.

Não se fala muito nisso, mas no domingo [dia 8 de outubro], só 48% da população do Luxemburgo pôde votar. A maioria não votou. É verdade que havia 34.638 cidadãos não-luxemburgueses inscritos nos cadernos eleitorais, mas este número corresponde apenas a 22,8% do total da população estrangeira. Só um quinto dos estrangeiros votou nestas eleições.

Por que razão há tão poucos estrangeiros interessados na vida política do país que os acolhe? Uma explicação poderia ser o referendo falhado de junho de 2015. Nessa altura, o Luxemburgo poderia ter dado aos estrangeiros o direito de voto nas eleições legislativas. Mas 78% votaram contra, uma mensagem incómoda para numerosos imigrantes, sem os quais o país não pode funcionar. Eles também têm o seu orgulho: "Querem a minha mão-de-obra, querem os meus impostos? Tê-los-ão, mas não mais do que isso".

O referendo sobre o direito de voto dos estrangeiros dividiu a população do Luxemburgo. Há feridas abertas há dois anos que continuam por sarar. Mas a política já não quer ouvir falar desta questão.

Há a barreira da língua, que se converte rapidamente numa perigosa barreira educativa, e que impede a integração dos estrangeiros na sociedade e os afasta da vida política.

Há uma segunda linha divisória que atravessa o país. Trata-se do prolongamento da primeira barreira. Aqueles que não conseguem ter sucesso no sistema de ensino luxemburguês, e é esse o caso de muitas crianças de origem estrangeira, não têm depois qualquer oportunidade no mercado de trabalho. O atraso conduz frequentemente a um emprego não qualificado. Há a barreira da língua, que se converte rapidamente numa perigosa barreira educativa, e que impede a integração dos estrangeiros na sociedade e os afasta da vida política.

E há um novo fosso que se prepara: onde estavam no domingo os trabalhadores nas listas de candidatos, onde estavam os operários e os trabalhadores não qualificados? Não havia. Nos nossos dias, os trabalhadores atravessam a fronteira para vir trabalhar no Luxemburgo. Os que vivem e trabalham no país são, na sua maioria, estrangeiros, e estes raramente são candidatos às eleições e a maior parte continua a não votar. E assim se fecha o círculo. O Luxemburgo tem um défice democrático. Isto não pode continuar, e não deve continuar.

(publicado originalmente em alemão no Luxemburger Wort. Traduzido por Maurício Antunes e Paula Telo Alves)


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