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O canário na mina
Editorial Luxemburgo 4 min. 13.03.2019

O canário na mina

O canário na mina

Foto: AFP
Editorial Luxemburgo 4 min. 13.03.2019

O canário na mina

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
É necessário proteger quem arruina as suas vidas profissionais e se arrisca a ir parar à prisão - ou pior - pelo interesse público.

Rui Pinto e Ricardo Salgado. Dois personagens faces de uma mesma moeda: um país europeu, Portugal, onde a corrupção no topo da pirâmide é cada vez mais difícil de disfarçar, mas vai passando incólume entre a indiferença de uns, o clubismo de outros e a raiva impotente de uns tantos mais. Rui Pinto é o herói/vilão, o jovem anónimo que graças aos seus conhecimentos informáticos faz tremer o sistema apodrecido ao descobrir provas de crimes; hoje em dia, é celebrado por essa Europa fora com faixas de apoio em todos os estádios com adeptos cansados do negócio escuro em que o futebol se tornou. Já Ricardo Salgado, o banqueiro que se auto-intitulava “o Dono Disto Tudo”, representa o próprio sistema. Ele é o capo que, na sombra, compra(va?) políticos, juízes e advogados, jornalistas e homens de negócios, clubes de futebol e hotéis construídos em zonas protegidas. Mesmo descoberto e caído aparentemente em desgraça, cobra favores suficientes aos políticos no poder para manter-se em liberdade e para que sejam os contribuintes a pagar o seu estilo de vida faustoso. A fatura da “salvação” do BES/Novo Banco já anda nos nove mil milhões.

Perante as notícias da iminente extradição para Lisboa do hacker Rui Pinto, neste momento detido na Hungria, a eurodeputada Ana Gomes – como sempre sem temor nem silêncios comprometidos – não se conteve e, também fazendo a ligação entre os dois homens, explodiu em direção às autoridades portuguesas: “Esmifram-se todos para apanhar o rapaz que denuncia corruptos, mas deixam à solta criminosos e corruptores do gabarito de Ricardo Salgado e capangas!”.

É verdade que a ópera bufa da repentina perseguição da justiça portuguesa ao hacker exala, a grande distância, um odor fétido. A Doyen, empresa opaca que ganha o seu dinheiro transferindo jogadores de clube para clube, em carrossel, todos os anos ou duas vezes ao ano, queixou-se de tentativa de extorsão. Estávamos então em 2015 e durante três anos não se passou nada; a polícia não foi bater à porta de Rui Pinto, não lhe revistou a casa, não lhe pediu para testemunhar. Nem um simples telefonema lhe fez. O hacker, membro das Football Leaks – a versão futebolística das Luxleaks – não era relevante. Mas tudo mudou quando, em outubro do ano passado, Rui Pinto apareceu relacionado com o caso dos “e-mails” (onde a SAD do Benfica foi constituída arguida por corrupção numa primeira fase); a sua cabeça passou a estar a prémio. A gota de água veio em janeiro, quando as Football Leaks começaram a revelar informação incómoda para um dos verdadeiros governos-sombra da República, o grande escritório de advogados PLMJ, que além de representar o maior clube de futebol do país está sempre envolvido nas privatizações e demais negócios de vulto realizados pelo Estado português (e sempre ruinosos para o erário público, por tremenda coincidência). O mesmo nome PLMJ também ronda habitualmente os escândalos que têm abalado (pouco…) o país nos últimos anos: operações Monte Branco e Furacão, caso dos vistos gold vendidos a criminosos internacionais, o escândalo das secretas, as lojas maçónicas.

Quem se mete com os poderosos arrisca-se. E efetivamente a justiça portuguesa passou, quase da noite para o dia, do desinteresse para a absoluta necessidade de capturar Rui Pinto. Foi por isso que em janeiro emitiu um mandato de captura europeu – ilegalmente, porque primeiro precisava de ter emitido um mandato nacional, que nunca existiu…

É provável que este hacker, ao cometer as ilegalidades que cometeu, se tenha deparado com ainda mais informação de grande interesse público (ou seja, sobre alta corrupção) do que aquela que já conhecemos (e que já motiva por parte do MP uma investigação “particularmente complexa”). Essa informação, a existir, faz perigar gente com muito dinheiro e poder – gente que fará o necessário para a silenciar.

Depois dos escândalos do Panama Leaks, Luxleaks ou Cambridge Analytica, a Europa finalmente entendeu que era necessário proteger quem arruina as suas vidas profissionais e se arrisca a ir parar à prisão – ou pior – pelo interesse público. As perdas por corrupção que nunca chega a ser descoberta oscilam entre os 5,8 e os 9,6 mil milhões de euros anuais… E assim a legislação pan-europeia sobre os lançadores de alerta, incluindo proteção contra retaliação e apoio financeiro e legal, está prestes a ser aprovada. Resta saber se chegará a tempo para Rui Pinto, pois Portugal é como o Luxemburgo: não tem qualquer proteção legal para os lançadores de alerta, eles que são tantas vezes comparados com o proverbial canário usado para alertar os mineiros com antecedência em caso de concentração de gases tóxicos dentro da mina. O problema é que no fim dessa história o canário morre sempre.

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