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O cabelo do Dylan
Opinião Luxemburgo 3 min. 07.05.2022
A fava

O cabelo do Dylan

A fava

O cabelo do Dylan

Opinião Luxemburgo 3 min. 07.05.2022
A fava

O cabelo do Dylan

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
(...) não há muitos sítios no mundo onde um miúdo de 16 anos me consiga dar tamanha lição de humildade.

Toda a gente tem o seu cantinho. No Luxemburgo, o meu é um bar de Clausen que também é café, restaurante, sala de jogos e confessionário. O facto de o dono ser um dos melhores amigos neste país ajuda bastante à conversa. Mas é mais do que isso, na verdade. É aquele lugar onde vamos sem combinarmos nada previamente com ninguém – e ainda assim sabemos que não vamos passar um minuto sozinhos.

Quando o Erwin e o Marcel foram passar a Páscoa à Alemanha, senti saudades deles. São dois luxemburgueses que vão ali todos os dias, e por quem nunca passo sem cumprimentar. Já tivemos conversas profundas e já tivemos conversas de circunstância. Mas são a mobília da casa, e se eles não vierem um dia é como se o meu bairro perdesse um bocadinho de cor.

Há um grupo de miúdos lusodescendentes que frequenta o mesmo espaço. São provavelmente um dos melhores veículos que encontrei para perceber a imensa juventude de passaporte grão-ducal, (...) mas que se afirma portuguesa antes de todas as coisas – e com um orgulho que às vezes tenho dificuldade em entender.

A Mira vai estar lá, e o Niko e a Dóra. Não nos conhecíamos de parte nenhuma antes destas paredes nos porem juntos, mas temos sempre um abraço uns para os outros. Trouxe aqui os melhores amigos que fiz neste país, vizinhos na geografia ou na mentalidade, e deixaram-se levar também. Se chega fraternidade ou família de Portugal, este é sempre poiso para arrepiar conversa. É como a sala de visitas de nossa casa, em versão maior. E, pronto, mais boémia.

Há um grupo de miúdos lusodescendentes que frequenta o mesmo espaço e de quem gosto muito, também. Partilhámos tantas noites de esplanada que nos fomos conhecendo. São provavelmente um dos melhores veículos que encontrei para perceber a imensa juventude de passaporte grão-ducal, que fala luxemburguês entre si e normalizou os hábitos do centro da Europa, mas que se afirma portuguesa antes de todas as coisas – e com um orgulho que às vezes tenho dificuldade em entender.

Sou mais velho, dei aulas muitos anos, sou capaz de ter uma certa tendência paternalista. Há por exemplo este puto que tem o mesmo nome que eu e um coração de ouro. Fala muitas vezes de ir viver para Portugal, e eu digo-lhe para medir prós e contras. Explico-lhe que penso muitas vezes em voltar a Lisboa, também. Mas que tenho de medir prós e contras. Acho que ele percebe.

No outro dia, o melhor amigo dele fez anos – 16. Outro gaiato de quem gosto muito, o Dylan. É bom aluno, ainda não sabe quer ser assistente social ou técnico de cuidados primários, mas sabe que quer passar a vida a ajudar os outros. É animador no centro de juventude do nosso bairro, dá explicações gratuitas e ajuda nos trabalhos de casa dos mais pequenos, já o apanhei um par de vezes a fazer compras e traduções para os velhotes da nossa rua. Na noite do seu aniversário, meti-me com ele por ter o cabelo comprido. Perguntei-lhe se gostava de música metal, se ainda estava na moda deixar crescer crina, se era comum ver garotos da idade dele a deixarem crescer o pêlo. Ele tirou-me o tapete dos pés. Disse-me que toda a gente lhe dizia que ficava melhor de cabelo curto, mas queria simplesmente deixar crescer o pêlo para doar a uma associação francesa que apoia pessoas com cancro e recebe donativos capilares para pacientes em quimioterapia.

Toda a gente tem o seu cantinho. E é se calhar por isto que eu encontrei o meu. Bem vistas as coisas, não há muitos sítios no mundo onde um miúdo de 16 anos me consiga dar tamanha lição de humildade. Sorte a minha.

(Grande Repórter)

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