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O ator que envergonhou os políticos luxemburgueses com uma simples pergunta
Luxemburgo 7 min. 19.02.2019

O ator que envergonhou os políticos luxemburgueses com uma simples pergunta

O ator que envergonhou os políticos luxemburgueses com uma simples pergunta

Foto: Sibila Lind
Luxemburgo 7 min. 19.02.2019

O ator que envergonhou os políticos luxemburgueses com uma simples pergunta

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Brice Montagne é ator e ativista do ambiente. Este mês, subiu ao palco do Grand Théâtre para interpretar a peça “Breaking the waves”, a adaptação para teatro do filme homónimo de Lars Von Trier. Mas não foi só em palco que o jovem ecologista fez ondas. Com uma simples pergunta, pôs a nu a ignorância dos deputados luxemburgueses sobre mudanças climáticas.

Foi durante a discussão da petição anti-plástico na Câmara dos Deputados do Luxemburgo, a 6 de fevereiro. Brice Montagne aproveitou a tribuna para testar o conhecimento dos deputados em relação às questões ambientais. Em causa está o mais recente relatório do Painel Intergovernamental de Especialistas sobre a Evolução do Clima (GIEC, na sigla em francês, IPCC, em inglês), que revelou dados alarmantes sobre o aquecimento climático. O documento, aprovado na ONU, tem boas e más notícias, mas mesmo as boas são alarmantes. As más são que temos menos de 12 anos para salvar o planeta, evitando que as temperaturas subam mais de 1,5 graus acima dos valores pré-industriais, sem o qual poderão morrer milhões de pessoas e ser destruídos ecossistemas inteiros. A boa é que ainda vamos a tempo de o fazer, mas para isso são precisas "medidas sem precedentes" em todos os setores da sociedade.

As conclusões foram notícia em todo o mundo, em outubro de 2018. António Guterres disse que "não há tempo a perder". “Tenho uma pergunta para vocês: quem leu este relatório?”, perguntou Brice Montagne aos deputados. “Quem o leu, levante a mão”. A câmara mostra as bancadas durante alguns segundos: nem uma mão se levanta. Depois, o ativista insta os deputados a ler o documento e a declarar "o estado de emergência ecológica".

O vídeo com a intervenção de Brice Montagne já foi visto mais de 380 mil vezes e o ativista foi mesmo elogiado fora do Luxemburgo. No Grão-Ducado, Brice Montagne é um rosto conhecido apenas num grupo restrito de pessoas: os fãs de teatro e os ambientalistas. Foi ele que organizou a Marcha pelo Clima, que reuniu um milhar de pessoas em dezembro, e é umas das estrelas em ascensão entre os ativistas ambientais. Mas quando o Contacto lhe pediu uma entrevista, insistiu em não vir sozinho. “A luta é coletiva”, justificou.

À conversa com o Contacto num café em frente ao Parlamento do Luxemburgo, com mais dois ativistas ambientais, Brice Montagne diz que os deputados luxemburgueses não são os únicos a não ter lido o documento, destinado aos decisores políticos em todo o mundo. “É preciso dizer que não é um problema específico do Luxemburgo. Penso que a maior parte dos responsáveis políticos não leram o relatório do GIEC, porque se o tivessem lido haveria algumas enormidades que não veríamos”. Alguns deputados disseram-lhe mais tarde que não perceberam a pergunta, porque estão habituados à sigla em inglês (IPCC), e David Wagner, do Déi Lénk, escreveu mesmo no Facebook que o leu, mas que não gosta de ser forçado a responder, “como na escola”. Em qualquer caso, a dramática intervenção pôs muitos a falar do problema.


Brice Montagne com mais dois ativistas pelo ambiente, Karine Kock e Jean Larock.
Brice Montagne com mais dois ativistas pelo ambiente, Karine Kock e Jean Larock.
Foto: Sibila Lind

O relatório tem 400 páginas, mas a síntese destinada aos decisores políticos limita-se a 32. Os especialistas dizem que o planeta pode chegar a um aumento de 1,5 graus já em 2030 (2052 no cenário mais otimista), e explicam as diferença entre limitar o aquecimento climático a este valor ou ter mais dois graus. Mesmo com 1,5 graus, os cientistas apontam que 70 a 90 por cento dos corais morrerão, mas com uma subida de 2° C deixarão simplesmente de existir. O nível das águas subiria menos 10 centímetros, o que colocaria menos 10 milhões de pessoas em risco. Os cientistas dizem que as secas serão cada vez mais violentas e os desastres causados por incêndios e ciclones tropicais aumentarão, e definem as medidas a adotar para alcançar a meta de limitar o aquecimento a 1,5º C. Uma delas é cortar para quase metade (45%) as emissões de dióxido de carbono (CO2) em 2030.

“A nossa apatia tem consequências concretas. E é um combate filosófico: não temos o inimigo à nossa frente. É por isso que este relatório, que é a pedra angular da ação política, devia ser lido por todos os políticos”, defende Brice Montagne. "O problema é: os políticos leram-no e perceberam-no? E se não o perceberam, é porque são estúpidos, ou porque obedecem a outros interesses?”, questiona outro ativista, Jean Larock.

Para Brice Montagne, os interesses económicos e o modelo de produção e de consumo capitalistas estão a ditar a morte do planeta. “Emmanuel Macron, como grande parte dos políticos que nos governam, continua sem perceber a relação entre capitalismo e alterações climáticas. Quando se decreta que é preciso milionários, que é preciso crescimento e que as empresas tenham lucro, é porque não se compreende que o crescimento come recursos, o que é um problema no nosso planeta, que tem recursos limitados”, diz. “Eles enganaram-se na urgência: escolheram a urgência económica, quando na verdade a urgência é climática”, acrescenta Karine Koch.


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Brice frisa que "a crise ambiental já aí está", e as consequências estão à vista. “Agora, estamos com um aumento de 1,1 graus. Levámos 219 anos para chegar a este valor, e em apenas uma dúzia de anos vamos chegar aos 1,5. No ano passado, na Europa, perdemos 30% das colheitas, e há quem tenha perdido 60%. Houve imensos mortos nos incêndios em Portugal e na Califórnia", diz. "A perda de matérias-primas, como a alimentação, vai agravar-se se chegarmos aos 1,5 graus, e vai haver conflitos por causa do acesso à comida”. Há quem aponte que a atual crise de refugiados vai parecer "uma coisa sem importância" quando comparada com os milhões que vão ser afetados pelas mudanças climáticas, como a climatóloga australiana Lesley Hughes.

“Quando se fala em refugiados do clima, imagina-se sempre os outros. Mas foi o que aconteceu este verão na Grécia, com as pessoas que perderam as casas com os incêndios, e foi o que aconteceu em Portugal e na Califórnia”, frisa Brice Montagne. “É importante passar a mensagem às classes populares, porque são elas as primeiras vítimas. Porque o grego riquíssimo, o californiano ou o português milionário não é atingido imediatamente. O melhor exemplo que temos é que, na Califórnia, as casas das estrelas de Hollywood foram poupadas, porque elas pagaram a bombeiros privados para as proteger. Isto enquanto por todo o lado se aposta em políticas de austeridade que diminuem os meios e os efetivos dos bombeiros, e que não podem socorrer as vítimas dos incêndios causados pela seca”.

O grego riquíssimo, o californiano ou o português milionário não é atingido imediatamente. O melhor exemplo que temos é que, na Califórnia, durante os incêndios, as casas das estrelas de Hollywood foram poupadas, porque elas pagaram a bombeiros privados para as proteger.

O ativista defende que “não há justiça climática sem justiça social”. “O fim do mês ou o fim do mundo, é o mesmo combate, porque as primeiras vítimas são as mesmas pessoas”, explica. “É como se estivéssemos no Titanic e nos dissessem: 'Não subam para os botes'. O que é que passa no Titanic quando as pessoas que viajam em terceira classe percebem que estão condenadas? A violência explode. E a qualquer momento, se os políticos e as empresas não dão resposta às exigências dos cidadãos e das cidadãs, as coisas também vão acabar por degenerar. É aliás o que diz o GIEC: que haverá provavelmente conflitos, e mais uma vez são aqueles que estão mais abaixo na escala social que vão sofrer.”

Brice Montagne tem 31 anos, é francês, a avó paterna era chinesa, mas afirma-se “europeu”. “A consciência cívica deve transcender as fronteiras”, justifica. "Nesse caso, por que não terráqueo?", sugerimos. “Mas é claro, sou um terráqueo”.

O ativista passou pelos Jovens Verdes do Luxemburgo, mas acabou por se tornar membro do Movimento Democracia na Europa 2025 (DiEM25), um movimento político pan-europeu fundado pelo antigo ministro grego Yanis Varoufakis, que em Portugal inclui o partido Livre, de Rui Tavares. E defende que os adultos devem seguir o exemplo dos estudantes que preparam uma greve mundial pelo clima, a 15 de março. "Foi importante fazer greve para ter direitos sociais, reduzir o horário de trabalho, ter melhores salários. Aqui, é vital", diz. "A greve é uma ferramenta da democracia. Tentam retirá-lo às pessoas em muitos países, e no entanto é um dos nossos direitos mais importantes, juntamente com o direito de voto. É preciso servir-se dele e ousar desobedecer, porque se não desobedecermos, com as regras e a dinâmica atual, a humanidade está em perigo".

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