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O amor era a única coisa que Américo e Isaura tinham para escapar à miséria

O amor era a única coisa que Américo e Isaura tinham para escapar à miséria

O amor era a única coisa que Américo e Isaura tinham para escapar à miséria

O amor era a única coisa que Américo e Isaura tinham para escapar à miséria


por Ricardo J. RODRIGUES/ 24.02.2020

Foto: Sibila Lind

Uma paixão proibida, uma pobreza insuportável, a fuga a salto em 1968 e a discriminação à chegada ao Luxemburgo. No combate por uma vida digna, dois emigrantes portugueses tinham uma única arma: o amor.

A família de Américo Bronze, hoje com 76 anos, nunca aceitou bem aquele namoro. Pois se Isaura vinha de uma família mais pobre e não tinha feito mais do que a terceira classe, por que raio se embeiçaria um rapaz com o sétimo ano por ela? “A verdade é eu andava há meses a namoriscá-la”, conta agora o homem na sua casa em Dudelange. “Sempre que ela ia buscar água à fonte eu corria para ir de galanteio. Um dia pedi-lhe namoro e ela disse que sim. Quando contei aos meus pais, eles puseram-me fora de casa.”

Os Bronze foram os quartos portugueses a instalar-se em Dudelange e hoje são os decanos dos emigrantes que firmaram residência na cidade. Cresceram ambos numa aldeia da Figueira da Foz chamada Serra da Boa Viagem, que quando eram gaiatos contava 1500 habitantes e hoje não soma mais de 80.

Chegaram ao Luxemburgo em 1968, em fuga de uma miséria absolutamente sufocante, e na sua história percebe-se a coragem e o sofrimento de uma geração inteira de portugueses. Isaura não se lembra de outra infância que não fosse a ajudar a família a tomar conta da horta e dos animais. Américo estudou até aos 12, privilégio raro na aldeia, e depois empregou-se na cidade – primeiro numa mina de carvão, depois numa moagem de café.

Não tinha com quem deixar a pequena, então levei-a comigo. Como não parava quieta, enterrei-a numa cova até aos ombros, deixei-a ali e fui para a sementeira.

Isaura Bronze

“Todos os dias marchava para a Figueira da Foz e nessa altura a PIDE não deixava ninguém entrar descalço na cidade. Nós, na aldeia, sabíamos lá o que eram sapatos. Então eu esculpi uns tamancos de madeira, que me davam cabo dos pés. Mas tinha de ser.”

Começaram a namorar aos 17 e casaram aos 18, contra a vontade da família dele. “Os meus pai deixaram-nos ficar juntos e, enquanto namorávamos, ele dormia no chão da sala”, conta Isaura. “Depois lá tivemos um quartinho. E éramos felizes assim.” Tinham acabado de cumprir os 20 quando nasceu a primeira filha, mas ainda a miúda gatinhava quando Américo foi chamado à inspeção.

“Foi em 1964 e fiquei apto. Uns meses depois fui ver as listagens e só havia duas pessoas com o meu nome, mas nenhuma com o meu apelido. Então não me apresentei.” O que ele não sabia é que as autoridades militarem tinham cometido um erro e trocado o nome, passado uns dias bateram-lhe à porta de casa e levaram-no preso por deserção.

O casal segura um retrato de Isaura com as duas filhas
O casal segura um retrato de Isaura com as duas filhas
Foto: Sibila Lind

“Nessa altura já tinha rebentado a guerra em Angola, mas como eu já tinha mulher e filha acabei por cumprir o serviço na Figueira, como cozinheiro no quartel”, diz. “Vi e alimentei milhares de rapazes que embarcaram para África e ainda hoje me pergunto quantos deles não voltaram. Eu tive muita sorte porque fiquei. Quando tinha licença até podia ir dormir a casa.”

Para Isaura aqueles anos foram terríveis. “O Américo não tinha forma de trazer dinheiro para casa e eu tive de me fazer à vida. Foi muito duro." Em 1965 engravidou da segunda filha e lembra-se de ir com barriga de cinco meses trabalhar à jorna numa plantação da abóbora. “Ganhava 20 escudos por dia. Era uma miséria mas eu precisava de alimentar uma bebé e vinha outra a caminho. Não tinha com quem deixar a pequena, então levei-a comigo. Como ela não parava quieta eu enterrei-a numa cova até aos ombros, deixei-a ali e fui para a sementeira.” A mulher desaba em choro, e então Américo agarra-lhe a mão: “Já passou.” 

Mas depois o homem revolta-se. “Sabe que fiz mais um ano de tropa enganado? Pois é, devia ter ficado só dois, mas quando lhes perguntava quando saía os oficiais mentiam-me e diziam que ainda não estava dispensado. Eu com duas miúdas pequenas e eles a fazerem pouco da minha vida. Eram uns brutos.” No final de 1967, inquiriu os superiores e disseram-lhe que era livre de abandonar a posição. Assim que entrou em casa, abraçou a mulher e disse-lhe: “Isaura, não podemos ficar mais em Portugal.”

Ela tinha dois irmãos que haviam arranjado contrato na Bélgica, foram eles que lhe emprestaram o dinheiro para ir a salto. “Como só podia pagar quando chegasse lá, o passador mandou-me tirar o retrato. Metade levou ele, outra metade eu. Quando chegasse eles levariam a imagem completa aos meus cunhados e eles pagavam.” Saiu numa noite de fevereiro, depois de beijar a mulher e as filhas e prometer-lhes que se juntariam em breve. Da Figueira foi de carro até ao Sabugal, e daí passou a salto para Espanha. “Dormíamos em cortes de bois e de noite marchávamos a pé.” Em Ciudad Rodrigo tomou o comboio até Irún, depois foi uma semana de caminhada até Bordéus, pelos Pirinéus.

[Os luxemburgueses] chamavam-nos porcos a torto e a direito. Discriminavam-nos no trabalho e no trato social.

Américo Bronze

“Quando cheguei a Paris entreguei o retrato e lá pagaram. Arranjei um quarto no bidonville de Champigny, sem casa de banho nem nada. E meti-me a trabalhar nas obras, ganhava pouco mas dava para o gasto.” Todos os dias escrevia uma carta a Isaura e durante dois meses o futuro parecia compor-se. “Depois veio o Maio de 1968, com greves por todo o lado, e eu deixei de conseguir trabalhar. O dinheiro que tinha juntado gastou-se em comida. Então segui marcha para a Suíça.” Mas ali só conseguiu arranjar trabalho à jorna durante dois dias, o movimento juvenil que invadira França espalhava-se e chegava aos Alpes.

“Um rapaz disse-nos que havia trabalho no Luxemburgo e ia para lá. Pedi-lhe que me levasse. E fui.” Chegou a Dudelange a 23 de junho de 1968, dia da festa nacional. Arranjou um quarto e ao fim de dois meses mandou vir a família. Isaura chegou em agosto com as filhas e, quando viu Américo, caiu-lhe nos braços. Uma semana depois, arranjaram uma casita modesta, ele empregou-se nas obras e ela nas limpezas. Como não sabiam falar sequer francês, eram constantemente insultados. Evitavam ir à rua mais do que o necessário, os luxemburgueses insultavam-nos quando se passeavam por Dudelange. 

“Chamavam-nos porcos a torto e a direito. Discriminavam-nos no trabalho e no trato social.” A partir de 1970 as coisas começaram a melhorar, com a chegada de milhares de emigrantes. Tiveram outro filho, foram construindo a vida, e sempre se tiveram um ao outro. O Luxemburgo, hoje, é definitivamente a sua casa.