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Num fogo em Bonnevoie ardeu um tesouro lusófono
Opinião Luxemburgo 3 min. 23.07.2022
A fava

Num fogo em Bonnevoie ardeu um tesouro lusófono

A fava

Num fogo em Bonnevoie ardeu um tesouro lusófono

Opinião Luxemburgo 3 min. 23.07.2022
A fava

Num fogo em Bonnevoie ardeu um tesouro lusófono

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
O Métissage era uma ilha de alegria num país onde ela é por vezes escassa. Lá dentro, falava-se alto, bebia-se bastante, convivia-se com toda a gente.

Na madrugada de sábado as chamas deram conta do Métissage, um café cabo-verdiano que também era restaurante improvisado e salão de dança informal. Era ponto de encontro dos muitos mundos que falam português no Luxemburgo. Aqui desaguava Cabo Verde e Portugal e Brasil e Angola e Guiné-Bissau. Tinha um arquipélago atlântico nas raízes e na ementa, sim, mas era muito mais largo do que isso.

Era um encanto tão certo quanto imprevisto, ir ao Métissage.

Para mim, a dor do incêndio é privada. Este foi o primeiro lugar onde me levaram a jantar no Luxemburgo, ainda antes de me mudar para aqui. Uns meses antes de aceitar uma proposta de trabalho no Grão-Ducado, os meus colegas do jornal levaram-me àquele cafezito de esquina e saudaram-me com grogue e pastéis de atum. Era um lugar de referência deles, mas percebi no primeiro minuto que podia ser meu também. Os lugares especiais têm esse condão de ter portas e braços abertos para toda a gente. Talvez tenha sido esse jantar a convencer-me a arrumar a trouxa em Lisboa e mudar-me para aqui.

O Métissage era uma ilha de alegria num país onde ela é por vezes escassa. Lá dentro, falava-se alto, bebia-se bastante, convivia-se com toda a gente. Não me lembro de um jantar em que não acabasse a conversar com alguém de uma mesa ao lado. Mais do que grogue ou ponche, eu bebi deste espaço histórias incríveis de cabo-verdianos que atravessaram o mundo, de portugueses que aprenderam a construir a sua própria dignidade, de brasileiros que encontravam aqui a dança que lhes faltava, de guineenses que desafiaram a sorte e a encontraram. Ir aqui era a garantia de receber uma lição de humanidade. Sempre.


Cachupa de Cabo Verde
No Luxemburgo, pusemo-nos a experimentar a cozinha de vários países lusófonos. Aprenda a fazer um dos pratos típicos de Cabo Verde.

Ainda há umas semanas, o dono da casa passou horas a cozinhar uma cachupa para um artigo que escrevi neste mesmo jornal. Fiquei bastante tempo à conversa com o Luís Carvalho e ele a explicar-me como aquela casa, aberta há 12 anos, era um berço para as raízes. Apesar de ele ser um cozinheiro internacional nas instituições europeias, aqui era o lugar onde ia buscar as memórias de infância. E quem provou o guisadinho de polvo, a cachupa e o pica-pau entende o que ele queria dizer. É inevitavelmente à volta de um tacho que se entende a lusofonia, e aqui isso acontecia todos os dias.

À noite, as colunas passavam morna e coladeras e funaná e não eram raras as vezes em que toda a gente começava a dançar. Quando se anunciava a hora do fecho, a Ana e a Andreia saiam de trás do balcão, vinham dar uns golpes à anca e a festa tornava-se coisa danada. Era um encanto tão certo quanto imprevisto, ir ao Métissage.

Há pouco mais de um ano, os donos do estabelecimento abriram um outro espaço no Wallis, com o mesmo menu e música ao vivo ao fim de semana. Chama-se Morabeza – e deixa-me aliviado saber que, pelo menos, sobrou uma réplica da casa original. Mas, tal como eu, há centenas de almas que sentirão a falta daquelas paredes onde só se respirava alegria. Quando este fim de semana ardeu um edifício em Bonnevoie, ardeu também um pedaço de nós. Daquilo que nos aproximava como falantes de uma mesma língua, por mais diferentes que fossem os nossos sotaques. Descansa em paz, Métissage. Obrigado por tanto.

(Grande Repórter)

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