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Novo centro de refugiados em Contern afinal não vai ser só para ucranianos
Luxemburgo 6 6 min. 27.04.2022 Do nosso arquivo online
Acolhimento

Novo centro de refugiados em Contern afinal não vai ser só para ucranianos

O novo centro de refugiados era um antigo armazém que o Governo alugou a uma empresa privada, na zona industrial de Contern.
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Novo centro de refugiados em Contern afinal não vai ser só para ucranianos

O novo centro de refugiados era um antigo armazém que o Governo alugou a uma empresa privada, na zona industrial de Contern.
Foto: Guy Jallay
Luxemburgo 6 6 min. 27.04.2022 Do nosso arquivo online
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Novo centro de refugiados em Contern afinal não vai ser só para ucranianos

Tiago RODRIGUES
Tiago RODRIGUES
Afinal, o novo centro de refugiados que esteve para abrir nos últimos dois meses numa zona industrial de Contern, com o objetivo de acolher até mil ucranianos, só deverá funcionar no final do ano, com metade da capacidade e para qualquer refugiado.

A informação foi avançada ao Contacto pela burgomestre da Comuna, Marion Zovilé-Braquet, e depois confirmada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, que relembra que a estrutura "requer obras adicionais para garantir que todas as medidas de segurança possam ser respeitadas". Não são adiantados mais pormenores.

Segundo a autarca de Contern, o espaço - um antigo armazém que o Governo alugou a uma empresa privada, na zona industrial de Weiergewan - só deverá abrir no final deste ano. O ministro Jean Asselborn já tinha anunciado, no início de abril, que a estrutura não iria funcionar nos próximos meses devido a problemas de segurança. Questionado pelo Contacto, o Ministério não esclareceu quais são exatamente esses problemas.


Contacto, Point de collecte Ukraine, Flüchtlingen, Réfugiés, Ukraine, Foto: Chris Karaba/Luxemburger Wort
Contern ia receber mil refugiados ucranianos e agora tem um centro com camas vazias
A comuna de Contern estava a preparar-se para acolher mil refugiados ucranianos num armazém na zona industrial. Depois de um mês a transformar o espaço num abrigo, o Governo decidiu adiar a abertura por alegados problemas de segurança.

Na altura, Marion Zovilé-Braquet criticou o Governo e a tutela por não ter sido informada sobre a decisão de adiar a abertura do espaço, afirmando que soube da alteração através das notícias. "Não recebi qualquer contacto por parte do Governo. Falam em problemas de segurança, mas tive todo o cuidado para preparar as saídas de emergência naquele espaço. Agora dizem que não deve abrir até ao fim do ano, mas não sei se posso acreditar nisso", reagiu a burgomestre ao Contacto no início de abril.

O ministro dos Negócios Estrangeiros anunciou que a estrutura seria substituída por uma tenda em Kirchberg, embora com apenas 500 camas, metade das que já estavam montadas no centro em Contern. Sobre o que irá acontecer aos outros refugiados em Contern - cerca de 140 foram acolhidos no Centro Cultural de Moutfort - que iriam supostamente ser transferidos para o novo espaço, o Governo também não remeteu qualquer esclarecimento.


Governo vai instalar tenda em Kirchberg para acolher refugiados
Estrutura vai substituir a que estava prevista em Contern, que já não vai poder abrir portas nos próximos meses.

A burgomestre tem vindo a criticar a falta de comunicação por parte do Governo, revelando que, numa conversa por telefone com um responsável do Gabinete Nacional de Acolhimento (ONA, na sigla em francês), descobriu que afinal o centro de refugiados só deverá abrir no final do ano e com metade da capacidade. "Disse-me que só iriam abrir um dos dois andares, com cerca de metade das camas, para tornar o espaço mais confortável. E já não será apenas para os ucranianos, mas para qualquer refugiado no Luxemburgo", contou ao Contacto na segunda-feira.

Além disso, a estrutura já não será um abrigo temporário, mas sim um projeto "para os próximos anos", revelou Marion Zovilé-Braquet. "Mas isto foi o que me disseram na chamada. Não é uma declaração oficial. Isto é só o que contaram, não sei se será assim", acrescentou. O Contacto questionou o ONA e o Ministério, que validaram a novidade: "Confirmamos a informação dada pela burgomestre da Comuna de Contern", respondeu a tutela em email esta quarta-feira.

Um espaço isolado e sem aquecimento

O antigo armazém na zona industrial de Weiergewan foi transformado nos últimos meses num abrigo. O edifício tem três pisos, cada um com 3000 metros quadrados. O rés-do-chão tem as casas de banho e chuveiros portáteis, assim como as máquinas de lavar. Nos andares de cima ficam as camas, 500 em cada piso, mais a cozinha. À volta do armazém existe apenas um parque e um espaço reservado para os animais. Dali até à vila de Contern são cerca de 15 minutos a pé e também há autocarros.

Apesar da grande capacidade da estrutura, a autarca reconheceu há umas semanas durante uma visita com o Contacto, que não oferece as melhores condições de habitação. "Quando vi o centro fiquei um pouco chocada. Não havia nada. Era um pavilhão vazio, sem aquecimento, sem casas de banho, sem portas ou janelas. Tem 20 camas em cada quarto, que nem sequer é um quarto, porque não é fechado, só tem divisões e beliches. E tiveram de instalar o aquecimento, porque é muito frio", descreveu.

Outra das preocupações da burgomestre era o facto de o armazém estar muito isolado. "Não há nada à volta. Não sei o que é que mil pessoas iam fazer ali, fora da vila, na zona industrial". Além disso, seria um desafio enorme acolher mil refugiados, um número que representa mais de metade da população da vila (1.700 habitantes) e um quarto da população total de Contern (4.000 habitantes).


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"Enquanto o Governo é tão lento, vemos as pessoas no Luxemburgo a juntar-se para ajudar os refugiados"
Mais de quatro mil ucranianos já chegaram ao Luxemburgo. A maior parte está em casas de famílias de acolhimento, através de iniciativas civis e de organizações como a LUkraine, que criticam a falta de comunicação com o Governo e a demora dos apoios.

O maior dos desafios seria, porém, a integração das crianças. "Elas teriam de ir para a escola, não podiam ficar ali sem fazer nada. Mas as nossas escolas não são grandes o suficiente. Vamos começar no próximo ano a fazer escolas e creches maiores, mas isso vai demorar dois ou três anos", estimou a autarca, lembrando que cerca de metade dos refugiados são menores.

Além do armazém, que foi alugado pelo Governo, a comuna de Contern disponibilizou dois espaços municipais: o antigo pavilhão desportivo e o Centro Cultural de Moutfort, para alojamento temporário. O abrigo está a ser gerido pela Cruz Vermelha e os 140 ucranianos que lá estão iriam ser transferidos para o novo centro na zona industrial. "Não sei o que lhes vai acontecer. Para onde é que eles vão agora? Precisamos de recuperar aquele espaço, não amanhã, mas o mais depressa possível", assumiu a burgomestre. 

Quanto ao pavilhão desportivo, que foi transformado num centro de entrega e recolha de bens essenciais para refugiados ucranianos, Marion Zovilé-Braquet também ainda não sabe o que irá acontecer. "Supostamente ficaria aberto porque iriam chegar mais mil pessoas, mas agora não sei se vamos fechá-lo ou não. É tudo muito estranho", assumiu.

Cerca de 20 refugiados continuam a chegar todos os dias

Cerca de 20 refugiados ucranianos continuam a chegar ao Grão-Ducado todos os dias, afirmou Nadine Conrardy, diretora do Departamento de Ação Social e Saúde da Cruz Vermelha Luxemburguesa, numa entrevista ao Luxemburger Wort. "A crise ucraniana que estamos a atravessar atualmente não é um sprint, é uma verdadeira maratona", explicou, considerando que ainda estamos muito longe do fim da crise ucraniana.


Refugiados ucranianos são ajudados por um agente romeno após atravessarem a fronteira com a Ucrânia em Siret, a 18 de abril
Cruz Vermelha do Luxemburgo: "Ainda há cerca de 20 refugiados a chegar diariamente"
A diretora do departamento de Ação Social e Saúde faz o ponto de situação sobre a ajuda humanitária prestada pelo Luxemburgo.

A Cruz Vermelha luxemburguesa continua a acompanhar de perto a crise humanitária desencadeada pela guerra, tanto no Luxemburgo como no Donbass, o epicentro da ofensiva russa. No Grão-Ducado, houve no início a "dificuldade da falta de estruturas", lembrou a responsável. "O Estado teve de abrir muitas estruturas temporárias muito, muito rapidamente. Os refugiados tiveram de se deslocar em várias ocasiões. Isto é normal em contexto de emergência, mas idealmente, tentamos estabilizar a situação ao máximo".

Nadine Conrardy reconhece que o número de estruturas de acolhimento no país ainda não é suficiente, mas já está "a caminhar para uma maior estabilidade do que há algumas semanas". "Em qualquer caso, não existe a mesma urgência que havia inicialmente [em abrir mais centros]. Agora é preciso ver quais as estruturas existentes que podem durar e quais as que são apenas temporárias, como estes alojamentos em tendas", concluiu.

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