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Nova Bauhaus. Uma revolução cultural e casas em madeira para travar a crise climática
Luxemburgo 6 min. 30.04.2021

Nova Bauhaus. Uma revolução cultural e casas em madeira para travar a crise climática

Nova Bauhaus. Uma revolução cultural e casas em madeira para travar a crise climática

Foto: AFP
Luxemburgo 6 min. 30.04.2021

Nova Bauhaus. Uma revolução cultural e casas em madeira para travar a crise climática

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Uma ideia lançada em setembro vê agora a luz do dia. A nova Bauhaus, diz a Comissão, não é uma cópia do movimento alemão de há um século, tem o objectivo de inventar novas casas que combatam o aquecimento global.

Quando em setembro, no seu extenso discurso Estado da União Europeia, Ursula von der Leyen falou pela primeira vez da nova Bauhaus, muitos pontos de interrogação ficaram a pairar. “Os nossos edifícios geram 40 % das emissões que produzimos. Precisamos de os tornar menos desperdiçadores, menos dispendiosos e mais sustentáveis”, explicou a presidente da Comissão Europeia no tradicional discurso Estado da União à frente do hemiciclo de eurodeputados. Quando se referia ao Pacto Ecológico Europeu, von der Leyen sublinhou que o sector da construção “pode inclusive deixar de ser uma fonte de emissões de gases com efeito de estufa para passar a ser um sumidouro de carbono se se utilizarem materiais de construção orgânicos como a madeira e tecnologias inteligentes como a inteligência artificial”. E para esta nova onda de mudança da paisagem construída, a alemã sugeriu o nome de nova Bauhaus europeia - uma recuperação do movimento modernista de entre as duas guerras mundiais surgido na escola de arte Staatliches Bauhaus, fundada por Walter Groupius, durante a República de Weimar, na Alemanha, e que embora tivesse durado apenas 14 anos teve repercussões durante décadas no design e na arquitetura da Europa. Para von der Leyen esta nova Bauhaus será “a estética própria da transformação sistémica”, que levará a “combinar estilo com sustentabilidade”. A ideia ficou no ar sem se saber muito bem o que viria a dar, admitiram responsáveis da Comissão. Vagamente sugeria-se que seria “um espaço de cocriação onde arquitetos, artistas, estudantes, engenheiros e designers trabalharão em conjunto para fazer disso uma realidade”.

O elefante na sala do clima


John Schellnhuber. “O setor da construção é o elefante na sala do clima”
Eminente cientista do clima, o físico alemão desconfia das soluções de “geoengenharia perigosas” de Bill Gates. Acha que a administração Biden entrou no bom caminho, mas que o mundo está a reagir muito devagar. Construir em madeira é a solução mágica e possível.

A ideia da Bauhaus veio de Hans-Joachin Schellnhuber, um físico e cientista do clima, fundador e direto do influente Instituto Potsdam de Pesquisa de Impacto do Clima. Consultor de Angela Merkel e do Papa Francisco, Schellnhuber é um dos cientistas alemães mais reputados e também dos mais odiados pelos vários grupos de negacionistas do aquecimento global. Foi ele quem inspirou Ursula von der Leyen: “Falei com ela várias vezes e ela pedia-me contributos para o seu discurso do Estado da Nação. Propus-lhe várias coisas, mas a que me apaixona é a ideia da Bauhaus da Terra. Disse-lhe que não podemos cumprir os objetivos do Acordo de Paris se o setor da construção continuar responsável por 40% das emissões globais de gases com efeito de estufa”, contou ao Contacto. “ A construção é a maior fonte de emissões e é o elefante na sala do clima”, concluiu. Por isso, Shellnhuber apresentou a utopia climática de converter o sector da construção civil de fonte de emissões em sumidouro de gases de efeito de estufa.

Como consultor do Governo alemão, e à frente do reputado Instituto Potsdam, Shellnhuber dirigiu um grande estudo sobre urbanização para um encontro da ONU na América Latina. “E pensámos que se não conseguíssemos uma transformação no ambiente construído todos os nossos objetivos climáticos seriam fúteis e não seriam alcançados. E aí comecei a desenvolver a ideia falando com arquitetos e designers, uma espécie de visão de como a paisagem edificada será no futuro, que será bom para o planeta e também para as pessoas, em todo o lado. Em 2019, no ano do centenário da criação da Bauhaus em Weimar, decidi criar a associação Bauhaus da Terra”. Shellnuber não tem dúvidas de que construir em madeira, ou em bambu, nos países asiáticos onde o bambu prolifera, é uma saída de emergência da crise climática. “Eu posso calcular quanto dióxido de carbono se absorve se se construir em madeira. Posso até calcular como gerir as florestas de forma a garantir os recursos certos. Desta forma estaremos a absorver dióxido de carbono da atmosfera durante décadas, a estabilizar o clima, e a construir as nossas casas de forma sólida e bela”.

Belo, inclusivo e sustentável

Entretanto, a nova Bauhaus europeia, já não é apenas uma nova forma de construir. Tornou-se um movimento cultural com o slogan : “Belo, inclusivo e sustentável”. Na semana passada, nos dias 22 e 23 abril, realizou-se a conferência da Nova Bauhaus Europeia, com mais de 6 mil pessoas a assistir ao evento online. Na abertura da conferência, von der Leyen clarificou que a nova Bauhaus europeia é sobre “esperança, inspiração e novas perspetivas”, o lado cultural do Pacto Ecológico Europeu, cujas vertentes política e económica são necessárias, mas que, para mobilizar os cidadãos europeus é preciso um movimento cultural.

A comissária europeia da inovação, Marya Gabriel, e a comissária portuguesa, Elisa Ferreira, responsável pelas políticas de coesão e reformas, têm em conjunto a responsabilidade de gerir a pasta. Ao Contacto, Elisa Ferreira explicou que este é um projeto diferente dos outros. “Não tem dinheiro. É um projeto que chama a atenção para a maneira como se fazem as coisas. As pessoas que ouvem que Portugal vai receber 14 mil milhões de euros do Plano de Recuperação e Resiliência e mais 24 mil milhões do Fundo de Coesão, acham que não tem nada a ver com elas, é uma coisa que paira, é uma coisa muito macro. O que se tenta fazer é acompanhar isto que é a parte de cima para baixo com um trabalho que é proposto ao nível dos cidadãos”. Para Elisa Ferreira, a nova maneira de olhar para tudo implica que “não façamos uma casa que não tenha em atenção o comportamento térmico e energético, os materiais que se utiliza. E ao mesmo tempo que sejam casas também bonitas. Com a covid-19 ainda temos mais noção de que a vida é curta, devemos vivê-la com qualidade e deixar aos nossos filhos e nossos netos o planeta menos sacrificado pelos maus usos dos seus recursos. Temos essa responsabilidade”. Mas não é só a casa que cada um vai construir, é também um “zeitgeist”, em que “também a maneira como se faz a conservação de um monumento nacional, a maneira como um presidente de câmara pensa a circulação dos transportes urbanos, ou no bairro social, ou numa praça. É uma ideia de nos relacionarmos de maneira diferente com o ambiente”.

Vamos por fases

 A primeira fase foi a de lançar a ideia. “Resolvemos usar um método diferente, em que não é a Comissão dizer o que se vai fazer. Pedimos para nos trazerem ideias”. Nesta primeira fase, houve uma partilha de ideias no site oficial. Na passada sexta-feira, dia 23, foram lançados os prémios “para projetos que sejam inclusivos, que não sejam de elites, e que respondam a uma boa relação com o ambiente quer em termos energéticos quer em termos de circularidade. São dez categorias de prémios para projetos que já existem, mas que podem ser uma fonte de inspiração para outros. E depois há um prémio de ideias inovadoras”. No outono será aberto concurso aos primeiros cinco projetos piloto, que terão apoio dos fundos, e nessa altura vai igualmente ser dado apoio técnico a municípios ou a regiões que o peçam. “Vamos selecionar cinco casos mas depois outros cinco virão, outros 10 virão. De maneira a que tenhamos todos fontes de inspiração nas várias dimensões que esta grande mudança cultural pode trazer. E o nosso objetivo é que isto seja um movimento. Não estamos a pensar fazer regras rígidas, de maneira nenhuma. Para já queremos reconhecer e estimular boas práticas que sejam copiadas, de maneira a que os nossos países materializem o grande objetivo de sustentabilidade ambiental”.

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