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Nos rios luxemburgueses está a acontecer uma pequena revolução

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Nos rios luxemburgueses está a acontecer uma pequena revolução

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Nos rios luxemburgueses está a acontecer uma pequena revolução


por Ricardo J. Rodrigues/ 25.02.2021

Um castor transporta uma ramada de árvores no Luxemburgo. Foto: Jean-Luc Brausch

Estiveram 200 anos extintos no Grão Ducado mas, na última década, conseguiram encontrar o caminho de retorno. Há dois anos havia 20 colónias de castores no Luxemburgo. Hoje há mais de 60. A sua chegada está provocar uma transformação profunda na paisagem e nos ecossistemas ribeirinhos. A natureza conseguiu uma vitória extraordinária num pequeno país da Europa Central.

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Os castores construíram este dique de 60 metros num ribeiro do Luxemburgo.
Os castores construíram este dique de 60 metros num ribeiro do Luxemburgo.
Foto: Daniel Fragoso

Splash. O som de uma chapada na água é um sinal claro: há vida a acontecer no rio. Alexander Kristiansen conhece bem aquele barulho, são raras as vezes em que se aproxima de um ribeiro sem o ouvir. É técnico da Administração da Natureza e das Florestas (ANF), o organismo que cuida da vida selvagem no Luxemburgo. “Quando algum perigo se aproxima, os castores batem com a cauda no rio para alertar a colónia. O ruído ouve-se num raio de 100 metros e isso permite aos animais mergulharem imediatamente na água para se proteger.”

Nos três anos que Alexander leva neste ofício, o som das palmadas na água tem-se tornado banda sonora cada vez mais constante. O seu trabalho é no terreno. Identificar novos grupos de castores, avaliar estragos que possam produzir nos terrenos e sensibilizar agricultores para a presença de uma nova espécie. Não são só tarefas, são uma missão - e que cada vez mais lhe puxa o sorriso aos lábios: “Os castores estiveram extintos centenas de anos nesta zona, chegaram devagarinho e agora estão a expandir-se espetacularmente. E eu sinto-me privilegiado por poder assistir a um fenómeno como este.”

Os primeiros avistamentos começaram a dar-se no início do milénio, mas foi a partir de 2006 que os cientistas tiveram a certeza do regresso. “Não temos relatos de quando os últimos castores foram abatidos no Luxemburgo, mas estimamos que eles tenham desaparecido completamente desta região há 200 anos, ainda antes de o Grão Ducado ser independente”, diz Laurent Schley, subdiretor da ANF e uma autoridade na área da biologia (é um dos fundadores da Fundação Europeia de Mamíferos, é especialista na sobrevivência de espécies na União Internacional para a Conservação da Natureza, implementou um plano para reduzir o conflito entre homem e lobo quando os bichos começaram a regressar ao Grão Ducado).

Alexander Kristiansen passa os dias a investigar e descobrir novos vestígios da presença da espécie. Há cada vez mais castores.
Alexander Kristiansen passa os dias a investigar e descobrir novos vestígios da presença da espécie. Há cada vez mais castores.
Foto: Daniel Fragoso

“No início do século XX, a caça tinha sido de tal forma intensiva que o castor europeu esteve quase extinto. Nessa altura, restavam apenas 1.200 indivíduos em todo o continente, em pequenas bolsas no sul da Noruega, no sul do rio Rhône e no norte do Elba”, explica. “Vários países esforçaram-se por reintroduzi-lo artificialmente e eles começaram a espalhar-se. Aqui, o que aconteceu foi uma recolonização natural.”

Há dois anos, havia já 20 colónias de castores no norte e oeste do país. Este ano, diz o biólogo, serão pelo menos 60 – entre 200 e 250 indivíduos – mas o número poderá ser ainda maior. “Foram descendo pela Bélgica e estão a ocupar as bacias hidrográficas de rios luxemburgueses como o Sûre, o Eisch, o Attert, o Clerve ou o Wiltz”, diz Schley. “É extraordinário.” E ainda mais porque este regresso não significa apenas a vitória de uma espécie, é também um enorme triunfo ecológico. “Quando os castores chegam eles produzem um efeito dominó na natureza. Transformam os cursos dos rios em zonas húmidas que permitem o estabelecimento de novas espécies e revolucionam completamente os habitats.”

É precisamente esse acontecimento que está neste momento em marcha nos bosques do norte e oeste do país. Para perceber a dimensão da metamorfose é preciso calçar galochas e entrar nos caminhos de lama que ladeiam os riachos – e onde os pés se afundam na terra e na água. Esta é a história de como, discretamente, os castores trouxeram ao Luxemburgo uma das suas mais importantes vitórias ambientais. Começa tudo com o som de uma palmada na água. Splash.  

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Com os diques, os animais abriram canais por onde a água circula a diferentes velocidades.
Com os diques, os animais abriram canais por onde a água circula a diferentes velocidades.
Foto: Daniel Fragoso

O inverno parece dar finalmente tréguas, mas ainda há pedaços de gelo agarrados aos troncos de madeira de um dos maiores diques que os castores construíram no Luxemburgo. A norte dos lagos do Haute Sûre, nos arredores de Bavigne, há uma família que tem estado particularmente ativa. Há três anos, começaram a edificar a sua barragem no curso de um ribeiro discreto. De uma margem à outra não se mediam mais de 3 metros, antes de os animais aqui se instalarem. Agora o dique mede 60 metros de comprido, criou uma extraordinária represa e abriu uma série de novos canais para a água. 

Os castores são a mistura perfeita entre um lenhador norueguês, um engenheiro holandês e um operário português.

Alexander Kristiansen

“Os castores são a mistura perfeita entre um lenhador norueguês, um engenheiro holandês e um operário português”, brinca Alexander Kristiansen enquanto se mete dentro de água para mostrar a fortaleza que ali foi erguida. Uma complexa teia de troncos de árvore trava a corrente e retém a água. Há toros mais miúdos e há grandes cepos que os animais cortaram com os próprios dentes. “Eles gostam de usar a água para transportar a madeira até aos estaleiros porque a madeira flutua. Mas para cobrir tudo com musgo e lama – que serve de cimento – vão às margens e apanham a terra molhada com as patas dianteiras. É muito engraçado vê-los caminhar em duas patas com os braços cheios de lama. Na postura quase parecem pinguins”, diz Kristiansen.

Laurent Schley, subdiretor da Administração da Natureza e das Florestas.
Laurent Schley, subdiretor da Administração da Natureza e das Florestas.
Foto: Daniel Fragoso

Nas margens, ou em ilhotas no meio do curso de água, também se veem pequenos montes feitos com os caules do arvoredo – que com o passar das estações tendem a confundir-se com o terreno em redor. São tocas e, nalguns casos, depósitos de alimento. “As entradas para estes lugares são sempre subaquáticas”, explica o biólogo Laurent Schley, “depois os animais percorrem grandes túneis até chegarem a uma zona seca e confortável.” Normalmente, há duas entradas para as tocas – são como saídas de emergência dos edifícios.

Os diques, as tocas e os depósitos de comida remodelam completamente a paisagem. “Não é só que se desenvolvam represas e zonas húmidas, é também que se criam canais de água que circulam a diferentes velocidades. O efeito de travagem do fluxo permite uma melhor sedimentação e isso acaba por purificar as águas”, diz Schley. “Quando há muitas colónias de castores num rio, os diques que eles constroem permitem também reduzir os riscos de inundação nas aldeias, porque funcionam como uma sucessão de barragens.”

Os castores estão protegidos pela Diretiva Europeia Habitat de 1992 e são considerados pelos biólogos uma das espécies-chave do continente. Sobretudo por isto: a sua presença cria lugares de grande biodiversidade. “Temos países a gastar muitos milhões de euros a renaturalizar os habitats quando eles o fazem de borla”, comenta o cientista. Também por aqui se explica o esforço que várias nações têm feito de reintroduzi-los na paisagem. Se o assunto é a conservação da natureza, então o regresso destes animais é bem capaz de ser a melhor coisa que aconteceu a um continente que durante décadas preferiu a urbanização e industrialização à preservação da vida selvagem.  

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Uma árvore derrubada pelos castores.
Uma árvore derrubada pelos castores.
Foto: Daniel Fragoso

O regato é largo e no meio dele há meia dúzia de bétulas que já estão condenadas. “A maioria das árvores inundadas pela água vão sendo derrubadas pelos castores, e depois cortadas em pedaços. Mas muitos resíduos ficam depositados no fundo do rio”, e Schley vai apontando a dedo as áreas onde tudo acontece. “E depois há algumas que ficam de pé, como aquelas bétulas. Acabarão por apodrecer por terem as raízes constantemente molhadas.”

Tudo isto cria um novíssimo ecossistema. “Com o apodrecimento de algumas árvores criam-se colónias de insectos. Atrás das colónias de insectos vêm uma série de aves e pequenos mamíferos. As árvores enchem-se de picapaus. Os regatos e as zonas alagadas tornam-se berçários perfeitos para peixes e anfíbios. A disponibilidade de alimento é tamanha que, segundo um estudo feito por cientistas da Baviera, a biomassa dos peixes chega a crescer 80 vezes”, e Schley abre os braços, dando asas ao seu entusiasmo.

Foto: Daniel Fragoso

“Mas não é só no desenvolvimento e proteção das espécies existentes que os castores são importantes. Eles também criam refúgios e lugares de descanso estupendos para as aves migratórias que atravessam a Europa. E permitem a chegada de novas espécies.” No caso luxemburguês, acredita o biólogo, contam-se agora os dias para o regresso das lontras, há muito desaparecidas do país. “Os castores criam os habitats perfeitos para as lontras, e também lhes fornecem alimento, porque elas lhes caçam algumas crias. Agora, com isto que estamos a viver, é apenas uma questão de tempo até as lontras voltarem.”

Os castores são exclusivamente herbívoros e são animais de médio porte. Têm cerca de um metro de comprido, aos quais se devem acrescentar 20 centímetros de cauda. O peso pode variar entre os 20 e os 30 quilos, e vivem em grupos familiares que vão de seis a oito indivíduos. Os pais, que acasalam para a vida, tomam conta das crias durante dois anos. Como cada ninhada tem entre dois a três nascimentos por ano, cada família conta normalmente com os pais, as crias desse ano e as do ano anterior. Assim que aprendem a nadar, os animais participam nos trabalhos de engenharia.

Numa noite, uma colónia de castores é capaz de derrubar qualquer árvore do hemisfério norte, por maior que seja. Normalmente, não se aventuram mais do que 10 a 20 metros para lá da margem do rio. “Não se pode falar num efeito de deflorestação por causa dos castores, até porque ao cortarem as árvores em lascas eles fazem com que novos rebentos se multipliquem nos toros mordidos”, diz Schley.

Pelos de castor na mão dos biólogos.
Pelos de castor na mão dos biólogos.
Foto: Daniel Fragoso

A reprodução acontece apenas uma vez por ano, entre o final do inverno e o final da primavera. Quando as crias atingem os dois anos (a esperança de vida de um castor em liberdade é de 10 anos, em cativeiro chega aos 17), dispersam e procuram formar novas colónias. Nessa altura, a taxa de mortalidade da espécie aumenta significativamente. Os territórios estão extremamente bem marcados e defendidos e as lutas pela dominância são muitas vezes letais – não só pelas mordeduras como pelas infeções que daí derivam. Então os juvenis começam a descer o rio até encontrarem a curva certa e uma companheira para formar uma colónia. “Em média, movimentam-se 20 a 40 quilómetros, embora haja casos de animais que percorreram 200 quilómetros”, diz o cientista. É assim que o castor recoloniza o território e cria um admirável ecossistema novo. E foi assim, na verdade, que ele chegou ao Luxemburgo.  

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Foto: Daniel Fragoso

O comportamento muda com as estações. Se no verão a escassez de água é maior, então o castor constrói mais diques para garantir a área inundada. Por outro lado derruba menos árvores do que no inverno. Os solos em redor das colónias estão repletos de vegetação nos meses quentes, e não há a mesma necessidade de procurar as cascas e as ramadas mais altas do arvoredo.

Alexander Kristiansen, o técnico da ANF, tem mais algumas colónias para mostrar. Uma fica numa margem pacata do rio onde um agricultor plantou várias árvores, e estão quase todas destruídas por causa de um novo grupo que se formou no ano passado. A outra fica ao fundo de uma encosta íngreme, mas perto de um caminho pedonal por onde passam anualmente centenas de turistas. “Há ali uma ponte que não tarda muito há de ficar inundada”, avisa ele. “Nesse caso, resta-nos fazer uma coisa: construir outra ponte mais alta.”

A história mostra como a relação entre homens e castores é muitas vezes dança de guerra. Ao longo do século XIX, os animais foram caçados exaustivamente por agricultores que se recusavam ver os terrenos inundados, mas sobretudo por causa da sua valiosa pele e por culpa de uma segregação urinária chamada castoreum, usada pela indústria farmacêutica na produção de analgésicos. “Uma boa parte do meu trabalho agora”, explica Alexander, “é reduzir o impacto deste conflito, falando com os agricultores e com as populações que o castor possa afetar.”

A inundação de terrenos agrícolas e o desbaste de árvores podem ser problemas. Mas a ANF paga compensações a quem tenha perdido espaço de lavra para os castores. “Também instalamos proteções para árvores ornamentais nos jardins com redes”, esclarece ele. “E tentamos explicar que é perigoso conduzir tratores nos terrenos ribeirinhos, porque o subsolo está escavado e pode não aguentar o peso de uma máquina.”

Laurent Schley acredita que este tempo será bem mais pacífico para os castores do que os últimos séculos. “Até agora, não registámos grandes queixas nem problemas – e penso que as coisas se vão manter assim nos próximos tempos.” Depois atira uma piada: “Pelo menos agora ninguém os quer comer.” É que, durante séculos, os frades consumiam castor durante a quaresma. “Como nessa altura não se come carne, e os castores têm escamas na cauda, preferiam considerá-lo um peixe para poder comê-lo à vontade.”

Ali ao fundo, numa ilhota do rio Sûre, há um grupo de árvores derrubadas e não são nada pequenas. Foram cortadas a dente, uma circunferência que se vai abrindo a toda a volta, até tombar com estrondo no chão. Um grupo de árvores abatidas não costuma ser a imagem que temos de um ecossistema em rejuvenescimento. Mas é precisamente isso que está a acontecer.

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