Escolha as suas informações

“No Luxemburgo, se não tens estudos vais para as limpezas. Não é bem assim”

“No Luxemburgo, se não tens estudos vais para as limpezas. Não é bem assim”

“No Luxemburgo, se não tens estudos vais para as limpezas. Não é bem assim”

“No Luxemburgo, se não tens estudos vais para as limpezas. Não é bem assim”


por Sibila LIND/ 23.01.2020

Foto: Sibila Lind

Maquilha-se como quer e usa roupas extravagantes quando lhe apetece - chega a ir para o trabalho vestida de gueixa. Inês Alves, de 29 anos, nasceu no Luxemburgo, mas é com a cultura portuguesa que se identifica. Cresceu e estudou em Portugal, onde não chegou a acabar a universidade. Em 2016, decidiu voltar para o país onde nasceu. Começou por trabalhar atrás do balcão de um bar, agora coordena a produção da Kulturfabrik, em Esch.

Como é que veio parar ao Luxemburgo?

O meu pai veio para o Luxemburgo quando era criança, em 1967, para fugir à ditadura. Com pouco mais de 20 anos, foi a Portugal e conheceu a minha mãe. Namoraram dois anos por carta e decidiram casar e a minha mãe veio para cá.

Quanto tempo viveu aqui?

Vivi quatro anos. Depois voltei para Portugal, para as Caldas da Rainha. Eu fui a primeira a ir, e fiquei com os meus avós. Lembro-me que o tempo que estive sem os meus pais pareceu-me uma eternidade. Chegou a uma altura em que eu já não queria falar com a minha mãe ao telefone porque achava que tinha sido abandonada. E, na verdade, eu tinha estado sem eles umas duas semanas. Eles depois vieram com o meu irmão e, a partir daí, fiz toda a minha vida em Portugal.

O que é se lembra desses quatros anos no Luxemburgo?

Lembro-me de uns biscoitos de café que a minha avó paterna tinha sempre, andei anos à procura deles em Portugal. E também dos “Boxemännercher” e do pão com passas. Lembro-me também que, quando era miúda, o meu pai dizia-me que existia um “macacula”, um monstro que vivia debaixo da cama e comia os pés dos meninos que não queriam ir para a cama. E eu lembro-me de estar ao lado da estátua do Gulliver, no parque Merveilleux, em Betemburgo, e de o meu pai me dizer: “É este o ‘macacula’”. Eu desatei a correr. Há quatro anos, quando voltei, foi das primeiras coisas que quis voltar a ver no Luxemburgo.

Eu não sei o que é ser uma imigrante portuguesa no Luxemburgo. Não vim por necessidade, como o meu pai. Vim para ter uma vida melhor, mas sobretudo a nível pessoal.

O que é que a fez voltar para o Luxemburgo?

Eu queria sair de Lisboa, ir para um sítio qualquer, mas não tinha coragem. Entretanto vim cá ver o meu pai. Ele e o meu irmão tinham voltado para cá. Fui, voltei, e no dia 5 de junho de 2015, lembro-me perfeitamente, acordei, liguei à minha mãe e disse-lhe: “Vou viver para o Luxemburgo”. Nesse dia dei baixa da casa e comprei o bilhete de avião. Passado duas semanas estava no Luxemburgo.

Como foi o retorno?

No início senti-me muito sozinha. Mas aos poucos fui conhecendo outras pessoas. Comecei a perguntar a desconhecidos se não queriam ir sair. Mandava mensagem a dizer: “Vou para o Luxemburgo, não conheço ninguém, queres ir beber um copo?”. E foi assim, comecei-me a mexer. Eu sempre quis estar longe da comunidade portuguesa. Isto é perigoso o que eu estou a dizer. Mas não é no sentido de ter vergonha. Eu queria ter a mesma experiência como se fosse para outro país, como a China, a Argentina ou a Alemanha. Queria chegar e conhecer o Luxemburgo, os luxemburgueses. Não queria ficar fechada num círculo só de portugueses. Então durante o primeiro ano só tinha amigos luxemburgueses, italianos e alemães. Só depois é que comecei a conhecer portugueses.

Considera-se portuguesa ou luxemburguesa?

Quando nasci aqui não era possível pedir a dupla nacionalidade, e os meus pais escolheram a nacionalidade portuguesa. E eu identifico-me mais com o carácter português, relaxado, desvairado [risos]. Visto-me como quero, até já cheguei a vir trabalhar vestida de gueixa. Na maneira de trabalhar ou estar na vida não sou nada luxemburguesa. Escrevo imensos postais para pessoas que não conheço de lado nenhum. Escolho moradas ao calhas e envio, às vezes só a dizer: “Bom dia”. Eu adoro receber cartas, então gosto de proporcionar esse momento. E eu nasci de uma relação assim, por carta.

Foto: Kulturfabrik

Como é que chegou a responsável de produção da Kulturfabrik?

Quando cheguei ao Luxemburgo demorei alguns meses até arranjar trabalho. Comecei a trabalhar num café e depois passei para trás do balcão do Rocas, onde trabalhei dois anos. Através das jam sessions, conheci o Fred, que trabalha aqui. Um dia, depois de me ter despedido, o Fred liga-me e diz: “Há uma vaga para fazer a produção do festival de arte urbana e eu lembrei-me de ti. É só dois meses e meio. Estás interessada?” Eu sabia lá o que era fazer a produção de um festival, mas disse que sim. Foram dois meses e meio intensos, a fazer o “Kufa’s urban art festival”, em 2018. Quando acabou, fui para casa. Passado um mês ligaram-me e recebi uma proposta para trabalhar como responsável de produção.

Como foi receber essa proposta?

Desde pequenos que nos dizem que sem um diploma não chegamos a lado nenhum. E é ainda mais difícil quando somos imigrantes. No Luxemburgo, se não tens estudos vais para as limpezas. Mas não é bem assim. E o meu percurso é a prova disso. Tenho amigos que estudaram gestão cultural e não conseguem trabalho e eu, que não acabei a faculdade, sem querer estava no sítio certo, à hora certa. Houve alguém que viu qualquer coisa em mim e, sem querer, encontrei aquilo que gosto de fazer. Quero estar ligada à cultura, a projetos pedagógicos. E Esch faz cada vez mais sentido para mim. Quero facilitar a cultura a toda a gente, sem elitismos.

Foto: Sibila Lind

Ainda há muito a fazer a nível cultural em Esch?

Acho que é preciso quebrar o medo que existe... Eu sinto isso em Esch. Muitas pessoas, muitos imigrantes que ouvem a palavra “Centro Cultural”, colocam imediatamente uma barreira e dizem: “Isto não é para mim”.

Estamos a falar do público português?

Os portugueses… Eu acho que quando antes falava da imigração portuguesa era muito imatura. Porque eu não sei o que é ser uma imigrante portuguesa no Luxemburgo. O meu pai, a minha tia viveram isso. Mas eu não. Não tinha a situação ideal em Lisboa, mas podia ter ficado. Não vim por necessidade, como o meu pai. Vim para ter uma vida melhor, mas sobretudo a nível pessoal, de crescimento pessoal. Hoje em dia tu já não vens para tentar a tua sorte no Luxemburgo. Acho que esses tempos acabaram. E eu não fui vítima de discriminação. Quando cheguei, inseri-me logo na cultura luxemburguesa.

A sua família foi discriminada no Luxemburgo?

Os meus pais sentiram discriminação. E a minha tia também. Ela lutou muito pela comunidade portuguesa aqui no Luxemburgo. Eles vieram para cá em 1967. A minha tia começou como empregada das limpezas, aos 19 anos, e acabou na Comissão Europeia. Mas a discriminação não é só dos luxemburgueses, mesmo entre os portugueses existe uma certa forma de racismo. Mas é um assunto do qual não posso falar, porque eu não vivi nada disso. Eu sei que a minha tia engoliu muitos sapos por ser portuguesa.

No seu caso, então, não se sentiu excluída por ser portuguesa?

Não, mas há um comentário que ouço muitas vezes e detesto. Não sou nada nacionalista, mas quando o ouço, reivindico a minha “portuguesidade”, se é que se pode dizer assim. Quando trabalhava no bar, imensa gente dizia-me: “Eu nunca diria que és portuguesa”. Eu perguntava: “Como assim?” E diziam: “Pela maneira como te vestes, como falas, pelas tuas ideias, os teus valores”. E isso para mim é ofensivo. Aí sim, estás a categorizar, a limitar os portugueses. Mas é a única experiência que tenho de racismo. Mas também é a consequência daquilo que mostramos aqui. Uma vez fui à “Fête de la Musique” e perto da Gare passei por quatro ranchos folclóricos. Não tenho nada contra, mas chateou-me porque é só isto que mostram. E no cartaz tinhas belgas, alemães, luxemburgueses, mas não tinhas um único grupo português diferente, que não fosse música tradicional. Tudo o que seja eventos públicos é sempre fado, Xutos e Pontapés ou ranchos folclóricos.

Fui à Fête de la Musique e passei por quatro ranchos folclóricos. Não tenho nada contra, mas chateou-me porque é só isso que mostram. Tudo o que seja eventos públicos é sempre fado, Xutos e Pontapés ou ranchos folclóricos.

A Kulturfabrik situa-se em Esch, onde existe uma grande comunidade portuguesa. Existe interesse da vossa parte em desenvolver uma programação específica para atrair o público português?

Nós queremos chegar a toda a gente. E também aos portugueses. Temos concertos de grupos portugueses, tivemos há pouco tempo os Moonspell. Tivemos quase Mão Morta, mas foi cancelado, não havia público suficiente. Fizemos durante imenso tempo o Portugal Pop. Mas não há uma campanha específica para os portugueses. Até porque quando há concertos com bandas portuguesas, não são necessariamente os portugueses que vêm ver.

Foto: Kulturfabrik

Para muitos, a cultura não é uma necessidade e acaba por ficar em segundo plano. Como é que se torna a cultura uma necessidade ou um hábito?

É uma boa pergunta. Aqui, de certa forma, somos privilegiados. Há apoios. Podemos ver um concerto ou um filme por um euro e meio, com o passe cultural. Por isso acho que a desculpa não é o dinheiro. Mas há imensa gente em Esch que não sabe o que é a Kulturfabrik. E isso tem a ver com a realidade das pessoas. Acho que a cultura ainda está muito concentrada na capital e não é uma prioridade. Para além disso, existe ainda a barreira da língua.

Fala luxemburguês?

Está nos meus planos aprender luxemburguês, mas não é uma necessidade. Aqui no sul as pessoas falam sobretudo francês. Mas tenho curiosidade em aprender luxemburguês, até por uma questão de identidade. No fundo, eu nasci aqui, e o pedido de dupla nacionalidade também é algo que gostava de fazer.

Muitas pessoas ouvem a palavra “Centro Cultural” e colocam imediatamente uma barreira e dizem: “Isto não é para mim".

Para quem vem de uma capital tão movimentada e rica culturalmente como Lisboa, como é viver aqui no Luxemburgo?

No início foi difícil porque eu adoro sair sem planos e saber que… É como fumar. Eu posso não fumar, mas se souber que tenho cigarros fico mais descansada. E a cultura funciona da mesma maneira. Eu gosto de saber que, se eu decidir sair à uma da manhã de casa, como fazia em Lisboa, vou encontrar uma data de sítios abertos e coisas para fazer. E aqui isso não é tão simples. Mas também a dimensão do país é completamente diferente. E o maior erro é começarmos a comparar Portugal ao Luxemburgo. É impossível. O Luxemburgo é do tamanho de Lisboa. Então não podemos exigir que haja tanta oferta cultural, como existe em Lisboa, ou Bruxelas ou Amesterdão. Mas acho que há muito mais a acontecer do que o que as pessoas pensam. É preciso ser curioso. É mais fácil ir para um café reclamar que aqui não se passa nada, do que fazer o esforço e procurar. E o facto de não existir tanto como nos outros sítios, significa que existe mais espaço para criar.


Notícias relacionadas

A menina luxemburguesa que pediu para aprender português
Chama-se Maria e fala português desde menina, mas é luxemburguesa dos quatro costados. Maria Hoffmann aprendeu português em criança, em Larochette, nos anos 1970. A menina luxemburguesa pediu para frequentar um dos primeiros cursos de língua portuguesa organizados para imigrantes.
ITW Maria Hoffmann - Photo : Pierre Matgé
Editorial: Que idade tem a comunidade portuguesa?
O CONTACTO festeja este ano o seu 45° aniversário. O jornal foi fundado em Janeiro de 1970, para informar a comunidade portuguesa no Luxemburgo. Ao comemorarmos esta data, surgiu-nos uma questão natural. Em que ano exacto situar o início da emigração portuguesa para o Luxemburgo?
Em Junho de 1965 uma missa na catedral do Luxemburgo juntou meio milhar de portugueses para celebrar pela primeira vez o Dia de Portugal no Grão-Ducado.
Depois disso houve um almoço eu ma festa. Foi o primeiro evento organizado pela comunidade portuguesa no Grão-Ducado de que há registo