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No Luxemburgo há uma aldeia para um só homem

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No Luxemburgo há uma aldeia para um só homem

No Luxemburgo há uma aldeia para um só homem
Rindschleiden

No Luxemburgo há uma aldeia para um só homem


por Ricardo J. RODRIGUES/ 30.06.2022

Fotos: António Pires

Rindschleiden é a povoação mais pequena do Grão-Ducado: aqui vive oficialmente um único habitante. É um lugar isolado e genuíno, onde o tempo há muito parece ter parado. E é precisamente por isso que, todos os dias, dezenas de luxemburgueses a vão visitar.

A aldeia de Rindschleiden.
A aldeia de Rindschleiden.
Foto: António Pires

Só se dá pela aldeia de Rindschleiden mesmo na última curva da estrada. O povoado fica no meio de um vale escondido, rodeado de campos de pasto e de uma floresta onde bétulas e sequóias se elevam tão altas que escondem todo o casario. São terras ricas em água, e por isso é uma região onde a agricultura foi sempre a principal fonte de subsistência. Os lameiros continuam a ser usados pelo gado dos produtores que trazem vacas das redondezas, porque aqui já não há manadas. Nem gente. 

Olhando para o mapa do Luxemburgo, Rindschleiden fica no centro-oeste do país, mesmo no coração do Guttland. Para falar com precisão, está localizada na comuna de Wahl, o segundo município menos habitado entre os 102 que existem no Grão-Ducado.

A aldeia bem apontada num mapa do século XIX.
A aldeia bem apontada num mapa do século XIX.
Foto: António Pires

No meio da zona mais despovoada do país este é o lugar mais despovoado de todos. Tem apenas um morador oficial. Por isso mesmo, tem o título de aldeia mais pequena do Luxemburgo. O facto mais surpreendente é que é difícil viajar até à povoação e encontrá-la vazia. “É raro o dia de semana em que não temos pelo menos 30 miúdos a visitarem-nos”, diz a animadora social Angela Bissen, que recebe as crianças vestida a rigor como professora novecentista num museu que existe na aldeia. “Fazemos vários programas para que as crianças percebam como se vivia no Luxemburgo rural em 1900. Desde fazer pão a cozinhar gauffres, costurar a própria roupa e ou apanhar batatas.” 

Normalmente, as instalações fecham ao fim de semana – mas estão abertas no próximo. Há todo um programa preparado para receber grupos e famílias, a 2 de julho entre as 14h e as 16h, a 3 entre as 10h30 e as 16h. Aos sábados e domingos também não faltam visitantes. Vêm visitar a igreja de Saint Willibrondt, uma das mais antigas e celebradas do país. Tem os tetos decorados com frescos do século XVI e a partir da capela há um percurso pedestre meditativo pelos terrenos em volta. O padre Jean-Jacques Flammang não deixa de se surpreender com a vida que estas terras ganham ao fim de semana. “Sou pároco em Redange e tomo conta de 33 igrejas da região, mas esta é uma das mais requisitadas pa- ra casamentos e batizados.

Em frente à cafeteria, há placas a ideicar as zons comerciais em redor.
Em frente à cafeteria, há placas a ideicar as zons comerciais em redor.
Foto: António Pires

Há sempre gente, mas não custa perceber isso. Estamos num lugar tão antigo, tão bonito, tão autenticamente luxemburguês que toda a gente devia de facto conhecê-lo.” Mesmo ao lado da igreja, há um antigo presbitério, reconstruído mas desocupado. Nos jardins adiante, uma exposição de fotografia de natureza enche os caminhos pedonais. Ao lado, um café que abre to- dos os dias às seis da tarde e serve jantares noite dentro. Rindschleiden pode ser a pátria de um eremita, pode ser a povoação mais pequena e isolada de um Grão-Ducado inteiro. Mas está longe de ser um lugar morto.

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O único habitante da povoação
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Foto: António Pires

Há que fazer um aviso honesto aos leitores. Marco Neys não gosta de dar entrevistas, recusa receber visitas de curiosos, e muito menos aceita falar com a imprensa. É ele o eremita de Rindschleiden, o único habitante oficial da aldeia. Num povoado que não conta mais de cinco casas, a sua é a mais pequena de todas. A verdade é que são raros os dias que o homem passa aqui. “Na verdade ele só tem a residência oficial em Rindschleiden porque a comuna de Wahl lhe pediu”, conta o seu pai, Jean Neys, um dos grandes responsáveis pela dinamização cultural da terra. “Então ele tem aqui o registo mas na verdade vive duas aldeias adiante com a mulher e os meus netos”, conta o homem. 

Jean Neys tem 73 anos e tenta ajudar-nos a falar com Marco. “Não quer, nunca quer, mas não se importa que eu conte a história toda”, diz ele no jardim da sua casa na sede do município. Até porque, em abono da verdade, uma boa parte da história da atual Rindschleiden passa por ele. O casarão onde está hoje instalado o museu chama-se Thillenvogtei e é uma antiga quinta edificada no século XVII. Há uns anos, foram encontrados no sotão documentos datados de 1688 que assinalavam o lugar como um importante centro de produção agrícola na região. Havia estábulos para cavalos, pocilgas e vacarias. Produziam-se batatas e todos os tipos de cereais.

Jean Neys.
Jean Neys.
Foto: António Pires

Durante séculos, esteve nas mãos da família Gricius, até Neys comprar a propriedade em 2002, quando o último herdeiro morreu. Jean Neyes lembra-se bem dos Gricius. “Eram quatro irmãos solteiros, três homens e uma mulher. Além deles, o único outro habitante da terra era o padre. Desde que sou miúdo que me lembro que Rindschleiden ser um sítio onde morava pouca gente. Mas havia muito trabalho à jorna que era feito ali pelas gentes da região. Sobretudo da altura das ceifas”, diz. “Na altura do Pentecostes, isto enchia-se de romeiros, que faziam uma procissão em honra de São Bartolomeu e depois havia sempre piqueniques junto ao rio.” 

Uns metros ao lado da povoação nasce afinal o Mechelbaach, um pequeno afluente do Sûre. A compra da casa foi a oportunidade de guardar os objetos que Jean Neyes colecionara toda a vida. “Nasci em 1949, quatro anos depois do fim da guerra. O gosto pelo colecionismo foi-me imposto pelo meu pai, que começou a recolher objetos militares da II Guerra Mundial. Ele acreditava que, se os soldados americanos tinham vindo do outro lado do mundo salvar-nos na Batalha das Ardenas, o mínimo de respeito que lhes devíamos era guardar as relíquias que tinham deixado para trás. Ele dizia sempre que um dia podiam voltar e haviam de gostar de ver a sua memória bem guardada”, lembra. 

Num barracão em casa dos tios guardavam-se as peças que se iam encontrando. Pistolas e capacetes, medalhas e fardas, até canhões os Neys salvaram ao esquecimento. “E, conforme fui crescendo, fui acrescentando a isso alfaias agrícolas, velhos quadros e documentos, objetos de um tempo que eu percebia que estava a chegar ao fim”, diz Jean. Eram peças mais miúdas, mais fáceis de se estragar, que já não faziam sentido num barracão. 

Quando comprou a velha quinta de Thillenvogtei, encontrou um depósito para essas memórias. A comuna e a região de turismo de Guttland juntaram-se a ele para criar um museu dedicado à ruralidade, e a casa hoje recria o ambiente luxemburguês do final do século XIX e início do século XX. Entrar aqui é cumprir uma viagem no tempo, e há autocarros inteiros a viajar todos os dias até Rindschleiden para embarcarem nessa aventura. Em boa medida, a coleção que um miúdo começou a fazer porque o seu pai queria homenagear os americanos pode muito bem ter salvo uma aldeia que parecia condenada.

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O relógio que parou em 1900
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Angela Bissen reencarna uma professora do início do século XX na ldeia.
Angela Bissen reencarna uma professora do início do século XX na ldeia.
Foto: António Pires

Hoje há churrascada para uma família holandesa no antigo estábulo do Thillenvogtei. Angela Bissen anda às voltas por ali e, mesmo que o dia não seja de visitas guiadas, acede a vestir-se de mestre escola e dar uma aula aos miúdos mais novos. “O mais importante de tudo é ter uma régua para dar umas reguadas a quem se porta mal”, avisa em tom de brincadeira. Depois, larga um suspiro e vira-se para os adultos: “Infelizmente, as coisas eram mesmo assim. Uma professora nunca sorria, porque era obrigada a ser sol- teira para poder dar aulas. Não acredito que fossem mulheres felizes, de facto.” Rindschleiden nunca teve escola primária, mas agora ei-la instalada numa antiga vacaria. 

Há um fogão no meio da sala, onde se aquecia carvão para os dias frios. Há antiquíssimos mapas do Luxemburgo, onde a aldeia está bem assinalada. Há carteiras de madeira com quadros de ardósia e pequenos pedaços de giz. Na sala ao lado, a recriação de uma antiga loja onde se vendia um pouco de tudo. Essa existia na aldeia, sim, no lugar onde fica hoje o restaurante local. Quando se entra na casa principal, segue a viagem no calendário. No piso térreo há o salão de refeições onde se recebiam as visitas, e uma enorme mesa na cozinha que eram onde as famílias se sentavam diariamente à mesa. 

“A coisa que deixa os miúdos mais intrigados é que neste tempo era normal que um casal tivesse mais de dez filhos. Às vezes digo-lhes podiam ser irmãos de todos os colegas da turma e eles desatam a rir”, conta a animadora do museu. “Mas o que os deixa mais aflitos é que naquele tempo não havia casas de banho. As necessidades faziam-se fora de portas e o banho era dado numa selha. Às vezes ponho um dos mais pequenos lá dentro para exemplificar e eles ficam francamente pasmados.” 

Um portão abre-se e dá acesso a uma espécie de copa, que é onde se fazem os workshops de cozedura de pão e gauffres. São as atividades de maior sucesso no museu, e as que as escolas tendem a pedir para repetir. “Aprender fazendo, metendo a mão na massa, é meio caminho andado para eles perceberem um tempo que não é o deles. Mas às vezes também os levo a lavar a roupa nos tanques e acontece uma coisa engraçada: os miúdos portugueses e cabo-verdianos contam que ainda viram as avós fazer a mesma coisa nas aldeias de origem. Deixa-me a pensar que ainda há lugares onde esta ruralidade que julgamos perdida subsiste.” No primeiro piso estão os quartos. O dos pais está cheio de vestidos e tem uma máquina de costura. “As roupas eram feitas em casa”, diz Angela.

A habitação dos filhos está cheia de brinquedos e há um pormenor guardado dentro de um dos armários. “Aqui há uma série de roupas de criança que eram da família original. Um enxoval que os irmãos solteiros guardaram até aos oitenta e tal anos. É curioso, não imagino que nessa altura tivessem ainda esperança de ter descendência, mas havia o hábito de guardar tudo, aproveitar tudo, não desperdiçar nada”, diz a mulher. Há também um quarto para os recém casados, com manequins dos noivos ao lado da cama, e um outro que é bem mais tétrico. Ali encontra-se a representação de um avô no leito de morte e um padre ao lado a dar-lhe a extrema-unção. “No início do século XX as pessoas nasciam e morriam em casa, não nos hospitais. É algo que também tentamos explicar às crianças, porque faz parte da vida”, justifica a animadora.

A preparar o pão à maneira antiga
A preparar o pão à maneira antiga
Foto: António Pires

Por fim, na última sala, a recriação novecentista de um cabeleireiro. “Às vezes vêm grupos dos lares de terceira idade visitar-nos e são eles que ficam mais impressionados com esta parte”, explica Angela. “Sobretudo as mulheres, que se lembram dos antigos secadores de cabelo e da tortura que isso significava.” Há um outro facto justo quando se fala nos elementos que ocupam as paredes e as prateleiras do Thillenvogtei. É que, aqui, todos os relógios estão parados, o que não deixa de ser justo. Afinal, o tempo parece ter sido também ele colocado em suspenso dentro destas paredes. E, quando se volta à rua, é impossível não sentir que a paisagem é o que sempre foi. Não fosse a estrada de alcatrão a cruzar o povoado e era bem possível acreditar que se tivesse cumprido de facto uma viagem de século e meio para o passado.

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Um lugar de peregrinação
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A igreja de Saint Willibrord está aberta todos os dias para quem a quiser visitar. “Às sete da tarde as portas fecham automaticamente”, diz o padre Jean-Jacques Flammang, que hoje veio celebrar dois batizados à aldeia. “Mas isso não quer dizer que quem fique lá dentro tenha de passar a noite”, zomba o sacerdote. “A partir daí a porta abre por dentro para as pessoas poderem sair, mas não por fora.” É uma das igrejas mais antigas do Luxemburgo, e seguramente a mais antiga do Guttland. 

Apesar de haver uma pia batismal do século XX, a torre é a instalação arquitetónica mais remota: data do século XII. É um monumento românico com pequenos apontamentos do período gótico. “O mais extraordinário de tudo são os frescos pintados no teto, os primeiros são de 1435. Muito antes de existir Luxemburgo já existia esta capela”, diz o padre Flammang. “Penso que é também por isso que tanta gente queira vir aqui celebrar as suas cerimónias religiosas. É um lugar que representa uma solidez e uma durabilidade tremenda.” 

O padre Jean-Jacques Flammmang na igreja de Saint Willibrord, uma das mais antigas do país.
O padre Jean-Jacques Flammmang na igreja de Saint Willibrord, uma das mais antigas do país.
Foto: António Pires

Num Grão-Ducado com menos de 200 anos de independência, não deixa de ser um legado precioso. Saint Willibrord é o padroeiro do país. É a ele que se deve a procissão dançante de Echternach, classificada pela UNESCO património imaterial da Humanidade. O mosteiro da cidade foi também erguido em seu nome – e ali foram encontrados os Evangelhos de Echternach, produzidos na Irlanda no ano 690 e que atravessaram o Canal da Mancha para evangelizar o Luxemburgo. Mas, no topo do altar da igreja de Rindschleiden, é outro santo a ocupar o palco. Uma figura de São Bartolomeu do período barroco é todos os anos retirada dali para cumprir uma procissão no dia de Pentecostes. “A romaria atrai centenas de pessoas há séculos”, garante o pároco. 

Da porta da igreja tem início um roteiro meditativo com 12 estações, que durante 1,8 quilómetros percorre as terras em redor de Echternach. Há uma paragem onde está instalado um relógio de sol e outra com uma enorme bússola, uma com uma pequena apela em formato de tipi e outra com um banco onde cada pessoa é convidada a sentir, pensar na vida e no tempo. O caminho faz-se pelo meio da floresta, junto a pequenos regatos de água, atravessando passadiços e cruzando até um cromeleque. Se Rindschleiden é uma viagem no tempo, então também pode ser uma travessia interior. E então percebe-se todo o sentido que existe quando se pensa que esta é a aldeia de um só homem. No fundo, no fundo, é de cada um que a visita.

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