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No Luxemburgo, continua a ser mais eficiente utilizar carro do que transportes públicos
Luxemburgo 13 min. 13.02.2020

No Luxemburgo, continua a ser mais eficiente utilizar carro do que transportes públicos

No Luxemburgo, continua a ser mais eficiente utilizar carro do que transportes públicos

Foto: Chris Karaba
Luxemburgo 13 min. 13.02.2020

No Luxemburgo, continua a ser mais eficiente utilizar carro do que transportes públicos

Catarina OSÓRIO
Catarina OSÓRIO
No país com o número mais elevado de carros per capita na Europa, o que podemos fazer para diminuir a nossa pegada de carbono? Usar os transportes públicos e reduzir o consumo de carne tem mais impacto do que reciclar, considera Thomas Gibon, investigador do Instituto de Ciência e Tecnologia do Luxemburgo (LIST).

Um dos principais problemas atuais na questão das emissões de gases é a poluição do ar e o elevado tráfego nas estradas. O que é que o Luxemburgo pode fazer para combater isto?

É uma questão muito complexa. O Luxemburgo é o país com o número mais elevado de carros per capita na Europa, primeiro porque aqui assume-se que toda a gente tem um carro. Fiquei um pouco surpreendido quando cheguei aqui vindo da Noruega onde não há muita gente com carro.

É uma questão cultural?

Em primeiro lugar é assumido que cada pessoa tem um carro e que esta é a forma mais fácil de deslocação e portanto toda a gente o utiliza. E, desta forma, as estradas estão sempre congestionadas. Falando de uma forma simplificada obviamente, porque é muito mais complexo do que isto. Até agora os transportes públicos não têm sido comunicados da melhor forma. Ainda existe a perceção de que estão sempre atrasados, há um grande grau de incerteza ligado aos transportes públicos. E não são assim tão baratos. São baratos, mas continua a ser mais barato utilizar o carro. Em termos de emissões, quando falamos de poluição do ar, mas se mantivermos o mesmo nível de tráfego, podemos pensar na mobilidade elétrica. Tem menos emissões, mas claro que isso depende de como essa eletricidade é produzida. Se o país importa muita eletricidade da Alemanha e ao carregar a bateria do seu carro elétrico provavelmente a eletricidade é oriunda da uma central de carvão. Portanto, não é assim tão melhor para as emissões, mas pelo menos não as tem a nível local.

Thomas Gibon, investigador do Instituto de Ciência e Tecnologia do Luxemburgo (LIST)
Thomas Gibon, investigador do Instituto de Ciência e Tecnologia do Luxemburgo (LIST)
Foto: Guy Jallay

Mas aí existe um outro problema, os carros elétricos são caros.

Verdade, mas acho que devíamos pôr a questão de outra forma: se os carros elétricos são caros ou se os carros a diesel são baratos. O problema é os combustíveis fósseis terem sido muito baratos durante tanto tempo, especialmente no Luxemburgo onde os preços do combustível são mais baixos do que nos países vizinhos. Na economia do ambiente existe um termo que se chama “externalidades” que tem em consideração todas as consequências em usar um produto e como essas consequências deviam ser integradas no preço. A questão principal em relação aos combustíveis fósseis é o efeito nocivo para a saúde, os problemas respiratórios provocados pelas emissões em cidades onde o carro é muito utilizado. Portanto os efeitos para a saúde custam dinheiro, o dióxido carbono a uma escala geral custa-nos imenso dinheiro devido aos problemas que implica e se integrarmos estes custos na origem do problema então os preços dos combustíveis seriam muito mais elevados. Esta é a ideia das taxas de carbono, por exemplo. A Noruega é um excelente exemplo de integração das externalidades. Os carros a diesel são mais caros do que os carros elétricos, e é por isso que mais de metade das vendas de carros nos países são de veículos elétricos.

A carne é um dos principais contribuidores das alterações climáticas.

Thomas Gibon

A Greenpeace tem exigido várias medidas ao governo luxemburguês, nomeadamente o fim das vendas de carros a diesel até 2028. Em que medida é que isto é viável?

A indústria automóvel irá dizer que isso é impossível, a Greenpeace dirá que é possível. Acho que a solução estará algures no meio, de que é possível com uma enorme vontade e de termos a certeza que a infraestrutura que suporta novas formas de mobilidade é suficiente, por exemplo saber se temos energia elétrica suficiente para abastecer milhões de carros na Europa. Não é uma decisão que um ministro sozinho deveria tomar, tem de ser algo coordenado, precisa de ser assumido pelo ministro dos Transportes, do Ambiente, Energia, de forma a conseguirmos ter uma solução viável até 2030.


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Não poderemos falar de alguma hipocrisia quando os governos falam em diminuir as emissões de carbono e ao mesmo tempo mantêm as taxas sobre os combustíveis fósseis muito baixas?

Obviamente os combustíveis são demasiado baratos, as pessoas usam-no sem realmente pensar nisso. Não acho que o caminho será por aí, pela eliminação de carros movidos a diesel. Acho que primeiro temos de ser capazes de diminuir de forma drástica a compra destes veículos. Hoje em dia ainda são vendidos carros que consomem oito, nove, dez litros aos 100 km/hora, isso é muito ridículo. Ninguém precisa de um carros destes hoje em dia. E outra coisa é o preço do carro. Julgo que na Noruega existe uma taxa elevada sobre as emissões de cada veículo. Em França existe um sistema semelhante. Isto é suposto desencorajar a compra de carros grandes [mais poluentes] mas não sei se na prática a medida é eficiente.

Há mudanças tecnológicas que deveriam estar a ser feitas pela indústria automóvel?

Sim, claro. Carros mais eficientes, claro que não vão ter um desempenho de um SUV por exemplo. Mas hoje em dia é possível fazer carros que consomem três litros por cada 100 quilómetros.

Mas são mais caros…

Não necessariamente. Há um conjunto de pessoas que conheço em França que começaram a pensar de que forma deveríamos mudar as questões da mobilidade. E eles argumentam que em vez de eletrificarmos tudo poderíamos ter carros que consumissem menos combustíveis fósseis. Obviamente seriam carros mais pequenos do que SUVs, tipo um [Renault] Twingo. E isso é algo que deveria ser dito às pessoas, que não é a melhor opção ter um carro grande. Há um grande espectro de possibilidades, obviamente podemos apostar tudo na energia elétrica mas não resolveria o problema do congestionamento rodoviário. Sendo mais económicos na forma como utilizamos os combustíveis é uma das opções, seja pela partilha de carro ou tendo carros mais pequenos. Ou o uso de transportes públicos que é uma das melhores maneiras de lidar com o problema. E, claro, a mobilidade elétrica. É necessário ter uma solução que misture todas estas opções.


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Numa entrevista ao Contacto, o ministro dos Transportes disse que é necessário desenvolver mais alternativas aos carros…

Isso é uma das coisas mais importantes. Como disse anteriormente a mobilidade elétrica não resolve o problema do número elevado de carros nas estradas, apenas resolve o problema das emissões. Tem de se tornar o sistema de transportes mais eficiente, que será por exemplo através da partilha de carros ou o uso de transportes públicos. Mas no caso da última é necessário fazê-lo bem de forma a que seja fácil para as pessoas utilizá-los, mais paragens de autocarros. Estamos a acabar um estudo sobre as deslocações diárias dos transfronteiriços e o que concluímos é que as pessoas não utilizam os transportes públicos se eles estão longe delas. Na Suíça, por exemplo, o sistema ferroviário é muito eficiente. As pessoas podem ir a qualquer lado de comboio, para muitas delas não há nenhuma razão para pegarem no carro.

E quanto mais ganhamos mais poluímos…

Sim, a tendência é essa. Mas esta tendência tende a abrandar quando se atinge um nível de vida mais elevado, visto que quanto mais ricos somos mais capacidade temos de tomar conta do ambiente, tomando medidas para reduzir as emissões. Por exemplo, os países mais ricos conseguem pagar para produzir eletricidade mais limpa do que o carvão. O Reino Unido está a fazer um ótimo trabalho para se ver livre do carvão e o impacto por pessoa nas emissões tem vindo a reduzir. Mas, em geral, a tendência é que este impacto seja cada vez maior.

Se a internet fosse um país seria o 6º ou 7º mais poluente em termos de emissões.

Thomas Gibon

Mas então e os países escandinavos? São bastante ricos mas também muito sustentáveis…

Sim, eles são muito sustentáveis mas o seu consumo é muito elevado, e estão mesmo a par com outros países. As suas casas precisam de ser aquecidas mais do que as nossas. Diria que eles são sustentáveis no modo de pensar. Em termos de toneladas de emissões per capita, no ano passado este valor foi mais elevado na Noruega do que na Alemanha por exemplo. A França é um dos países no fundo da tabela e a principal razão foi a construção massiva de centrais nucleares nos anos 80, o que torna a produção de eletricidade mais eficiente em termos de emissões de carbono, comparativamente ao gás ou carvão. Isto também aconteceu na Alemanha e no Reino Unido. Um dos grandes culpados por uma grande parte das emissões de CO2 é o carvão e é nisto que nos temos de focar. Se os países se começarem a ver livres do carvão, estão certamente a tomar a direção certa.


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Mas o Luxemburgo não tem centrais de carvão.

Não, mas importa eletricidade da Alemanha por vezes, e uma parte desta é oriunda das centrais de carvão. Mas isto são coisas onde as pessoas não conseguem ter opção de escolha. Se um governo estabelece um contrato ‘mais verde’ com uma empresa fornecedora de eletricidade, essa empresa irá provavelmente usar eletricidade produzida por combustíveis fósseis. Não há uma realidade física para a energia limpa. Digamos que se na Europa 20% da energia produzida fosse de fontes renováveis, se mais de 20% dos governos fizessem contratos de energia limpa ainda não haveria produção suficiente desta energia ainda para fornecer as pessoas.

A solução passa, por um lado, pelos governos e, por outro, pelos cidadãos e pelas suas ações individuais. Qual acha que é o mais difícil de mudar?

Há três categorias. Os governos, as empresas e as pessoas. E é preciso que trabalhem juntos. O que eu posso fazer do meu lado é tentar limitar o meu consumo ou mudá-lo, pelo menos passar a usar transportes públicos em vez do carro, usar o comboio em vez do avião, tentar reduzir o consumo de carne, se for possível morar perto do trabalho. Fazendo tudo isto, conseguimos provavelmente reduzir a nossa pegada de carbono em 30, 40% por ano. O que é muito bom mas não é suficiente. Porque ainda temos de consumir eletricidade, temos de consumir outras coisas que são feitas em sítios onde não controlamos a forma como elas são feitas. E aqui o que o governo pode fazer é mudar a forma como a energia é produzida, dar primazia a outras formas de mobilidade, melhorando as vias ferroviárias. Mas mesmo trocar o carros pelos transportes públicos é difícil, perdemos flexibilidade. A mudança que vejo acontecer entre colegas é que quando se tem filhos torna-se muito complicado abdicar do carro. Mas para a grande maioria das pessoas que se deslocam todos os dias de casa para o trabalho, os transportes públicos deveriam ser suficientes e é aqui que os governos podem atuar. Mas é aqui que as coisas começam a ficar um pouco mais complicadas. Ver-se livre do carro poderia ser uma das coisas a fazer mas é muito complicado.

O que é o melhor que posso fazer, no imediato, para causar o mínimo impacto possível no ambiente? É preciso reduzir a carne?

Absolutamente. A carne é um dos principais contribuidores das alterações climáticas. Não só por causa do metano emitido pelo gado mas também porque 60% do solo para plantação no mundo é para a ração do gado. Portanto 60% dos cereais que são produzidos não são para consumo humano mas sim para os animais, que são, por sua vez, comidos pelas pessoas. É uma indústria que consome muita energia, causa vários problemas em termos da emissão de gases poluentes mas também em termos da ocupação dos solos, poluição. Portanto, reduzir o consumo de carne é o melhor. Eliminar completamente a carne é difícil para muita gente e eu aconselharia a dar primazia à qualidade em vez de quantidade. Em vez de comer carne todos os dias porque não algumas vezes ou mesmo uma vez mas de qualidade, ir a um bom restaurante, tornar isso a exceção mas uma coisa boa. Outra coisa relacionada com isto é o desperdício de comida. Os restos de carne que ficam no final de uma refeição são o produto com a maior pegada de carbono que deixamos no prato. A carne vai para o lixo, mas não é só a carne, é todo o processo que aconteceu antes de chegar à mesa que estamos a desperdiçar. Isto devia ser evitado a todo o custo.


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E quanto ao uso do wifi e da internet em geral?

É um problema atual que deve ser discutido. A infraestrutura que tem de existir para conseguirmos fazer tudo o que fazemos na internet é gigante. Usamos dados, seja para consumir via streaming no Netflix, mas também armazenamos muita informação. E esta informação precisa de espaços físicos [servidores] que consomem muita energia, porque precisa de estar disponível a toda a hora. É necessária muita energia para arrefecer os servidores. Também precisamos de eletricidade para carregar os nossos dispositivos eletrónicos a toda a hora, tudo isto está incluído nas 1,2 toneladas de CO2 emitida por ano por pessoa. Se a internet fosse um país seria o 6º ou 7º mais poluente em termos de emissões.

E quanto ao uso do avião? O que podemos fazer?

Devemos começar com o que é mais conveniente para nós. Obviamente que se eu preciso de ver a minha família que está em Portugal é normal que use o avião. Isto é também um efeito da nossa geração o que é excelente. A mistura de nacionalidades e culturas nunca foi tão forte como é hoje. Mas ao mesmo tempo isto tem o custo de deslocar toda esta gente, algo que nós não podemos fazer muito para combater. A aviação devia ser uma das grandes preocupações, não porque tem de deixar de existir mas porque temos de a usar de forma mais inteligente. Tirar o máximo de proveito de uma viagem. Por exemplo, apanhar um avião para uma escapada de fim de semana é capaz de não ser assim tão ‘ok’. Precisamos também de refletir de que forma passamos o nosso tempo, é uma questão de abrandar. É difícil de aceitar mas se quero voar quero tirar o maior partido disso. Mesmo que vá a uma conferência posso tirar uns dias de férias para tirar maior proveito da viagem. Precisamos de ser mais eficientes na forma como utilizamos o avião.


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Mas li recentemente que a pegada de carbono do avião não é muito mais elevada do que a do uso do carro…

Globalmente não, porque apenas mil milhões de pessoas utilizam o avião, e existem quatro ou cinco mil milhões que conduzem. É uma questão de escala. Apenas os ricos viajam e eles viajam muito. E atualmente não há uma forma plausível de a indústria da aviação ver-se livre dos combustíveis fósseis.


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