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"Nestes 15 dias vamos saber se serão precisas medidas mais drásticas no Luxemburgo"
Luxemburgo 9 min. 02.04.2020

"Nestes 15 dias vamos saber se serão precisas medidas mais drásticas no Luxemburgo"

"Nestes 15 dias vamos saber se serão precisas medidas mais drásticas no Luxemburgo"

Foto cedida por Jöel Mossong
Luxemburgo 9 min. 02.04.2020

"Nestes 15 dias vamos saber se serão precisas medidas mais drásticas no Luxemburgo"

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
O epidemiologista Jöel Mossong,do LNS do Luxemburgo explica, em entrevista exclusiva ao Contacto, as previsões sobre a pandemia no país, porque o governo poderá ter de adotar normas mais rígidas, os novos testes médicos e quando poderemos sair do confinamento.

“Paciência”, “temos de ter paciência”, foram as palavras mais ditas e repetidas por Jöel Mossong, chefe do departamento de epidemiologia do Laboratório Nacional de Saúde do Grão-Ducado (LNS), durante a entrevista ao Contacto.

Segundo este especialista, um dos mais conceituados do país, o Grão-Ducado está a entrar num momento decisivo no combate à pandemia, que está a infetar o planeta e mantém fechada em casa toda a população mundial. Um isolamento fundamental para este novo vírus que teima em não dar tréguas. Quando poderemos voltar à nossa vida normal é a pergunta para um milhão de dólares.

 O primeiro caso de infeção pelo novo coronavírus no Luxemburgo foi registado há um mês e quatro dias. O primeiro-ministro Xavier Bettel decretou o confinamento da população por três meses. Iremos ter de passar todo esse tempo em casa?

Sinceramente, nesta altura ainda não lhe sei responder. Na próxima semana e meia, duas semanas, vamos começar a ver os efeitos das medidas impostas pelo governo, das restrições e do confinamento. Vamos saber se as medidas adotadas são suficientes para contrariar a propagação do vírus. Temos de ter paciência.

A resposta está na tendência da propagação do vírus no país?

 Sim. Analisa-se a variação diariamente e nos últimos dias, apesar do aumento de número de casos de infeção, a tendência parece ser de estabilização. Mas temos de esperar. Nas próximas duas semanas não se prevê grandes mudanças ao nível dos números.


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Estima-se que o pico da epidemia no Luxemburgo será daqui a semana e meia.

Assim parece. E até lá os casos vão continuar a aumentar. E mesmo depois vão continuar a aparecer novas pessoas infetadas, mas esperemos que em menor número.

Só aí saberemos quanto tempo ainda temos de isolamento social?

Nestes 15 dias vamos perceber se serão precisas medidas mais drásticas para travar a propagação da epidemia no Luxemburgo. Vamos ver se a tendência de estabilização dos casos se mantém ou diminui. Se se mantiver significa que as medidas estão a funcionar e, com os procedimentos adequados daqui a umas semanas, ainda largas, talvez se possa começar a pensar em aligeirar as medidas, como o confinamento. Permitir às pessoas alguma atividade. Mas isto ainda vai demorar. Se, pelo contrário, a tendência mostrar que o número de infeções deverá continuar a crescer, então é porque as medidas não estão a funcionar e há que implementar normais ainda mais drásticas. Temos de ter paciência, sei que estar fechado em casa é muito difícil, mas temos mesmo de respeitar o confinamento. É a única forma de combater a disseminação do vírus.

E depois do pico da epidemia?

Mesmo após o pico da epidemia vão continuar a surgir pessoas infetadas, não é?

Sim, mesmo depois do pico, mesmo que a taxa do contágio decresça, que as infeções diminuam entre a população, o número de doentes que serão hospitalizados continuará a aumentar, pois trata-se de pessoas que foram infetadas nas duas semanas anteriores.

O sistema de saúde do Grão-Ducado está bem preparado para todos os doentes poderem ser tratados ou poderá vir a colapsar como aconteceu em Itália e começa a acontecer em Espanha?

De momento não sei responder. Atualmente, a capacidade parece suficiente porque foi muito alargada. Mas será suficiente? É por isso é tão importante manter o confinamento até ser necessário. Para que todos os doentes que irão continuar a surgir possam ser tratados nos hospitais do país. Para não levar a essa rutura hospitalar.

A situação trágica de Itália

No seu entender quais as causas que levaram à situação catastrófica em Itália, com tantos mortos?

O problema em Itália é que o sistema de saúde submergiu, colapsou, em particular a norte de Itália. Há muita gente que precisa de tratamento e não tem, daí o elevado número de mortos. Porque as instituições de saúde já não têm capacidade para tratar todos os doentes, como está a acontecer em Bergamo, e na Lombardia, a região mais afetada. Por isso, há doentes que estão a ser transferidos para outros hospitais do país, e também para outros países como a Alemanha.

A questão da letalidade está então ligada à situação hospitalar italiana.

Sim. O que acontece em Itália é muito parecido com o início da epidemia na China, com o que aconteceu em Wuhan, o epicentro do novo coronavírus, onde tudo começou.  Só que nessa altura, quando os hospitais dessa região chinesa não estavam a conseguir responder ao número de doentes infetados, a China teve apoio, muitos médicos de outras partes do país viajaram até la, para ajudar. Em Itália, isso já não aconteceu porque a epidemia também já tinha chegado a outros países europeus.


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Já a Alemanha é dos países europeus com maior número de infeções, mas com um número mais reduzido de mortes. Qual é a explicação?

É uma boa questão, mas para a qual não tenho resposta. É verdade que na Alemanha, desde o início da epidemia, se têm realizado testes de despistagem em massa. Tal como o Luxemburgo está a fazer.

O drama dos médicos italianos: escolher quem salvar

Voltando à Itália, devido à gravidade da situação hospitalar, os médicos já estão a ter a dolorosa e difícil tarefa de escolher entre os doentes que tratam e os doentes que não vão receber tratamento, e por isso morrem. Em Espanha e Holanda também está a acontecer o mesmo.  

Essa é mesmo uma escolha muito difícil dos médicos, uma questão ética complicada, que pode acontecer em situações catastróficas. Então quando tudo colapsa os médicos tem de passar a escolher entre os doentes, entre quem tem mais condições e maior probabilidade de sobreviver à infeção e quem não tem. O Luxemburgo ainda está muito longe dessa situação, felizmente.

Mas pode chegar a esse ponto?

De momento ao lhe sei responder, mas espero e penso que não. No entanto, há sempre surpresas em situações de pandemia. Como a notícia da semana passada dos doentes infetados num lar de idosos no Luxemburgo.  São situações que têm de ser acautelas e evitadas ao máximo. São acontecimentos graves que podem aumentar o número de hospitalizações e, infelizmente o número de mortes.

O nosso sistema de saúde está a preparar-se e a tomar medidas antecipadamente.

Dou-lhe o exemplo do caso dos profissionais de saúde transfronteiriços, que trabalham nos hospitais do Luxemburgo, mas residem nos países vizinhos e que tanta inquietude motivou de início. No entanto, o governo conseguiu que eles continuassem a vir trabalhar, mesmo com o encerramento das fronteiras. E o executivo até disponibiliza quartos em hotéis no Grão-Ducado para estes profissionais poderem ficar cá.

O Luxemburgo já recebeu também doentes do Grand Est.

É a solidariedade entre países. Todos os países estão a colaborar em conjunto. Atualmente vemos que juntos somos mais fortes.

"A vacina vai demorar meses"

Ao nível dos avanços da medicina e da ciência quando é que será possível colocar no mercado uma vacina?

A vacina vai demorar ainda. Penso que vai demorar meses, embora laboratórios no mundo inteiro trabalhem sem parar para conseguir uma vacina eficaz. Mas até lá há medicamentos que poderão funcionar e também testes que podem contribuir para travar a contaminação da doença.


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Que novos testes são esses?

Trata-se de testes sanguíneos que poderão indicar se um doente infetado e que já recuperou, desenvolveu anticorpos para o vírus, ou seja, se está imune ao novo coronavírus e se já não contagia outras pessoas.  E isso é muito importante.

A ministra da Saúde Paulette Lenert anunciou sábado que a partir desta semana já vão testar essas análises numa amostra de habitantes do país.

Tem de ser testados porque se trata de testes novos e cuja sua eficácia tem de estar comprovada. O objetivo depois é testar as pessoas antes destas regressarem ao trabalho, à vida ativa para garantir que não há risco de contágio do vírus. A ideia é serem utilizados em grande escala entre a população. Mas, neste momento, no Luxemburgo a taxa de infeção não é assim tão elevada que necessite já destes testes.

Quando é que estes testes podem começar a ser feitos à população?

Esperamos que possam começar a ser utilizados nas próximas semanas, mas é difícil dar certezas. Eles estão numa fase evoluída, mas ainda é preciso ver se funcionam. Mas penso que é uma questão de semanas, mais do que meses.

"O mundo nunca mais será o mesmo"

A vacina é que ainda demora.

A vacina é mais complicada pode demorar vários meses, provavelmente só depois do verão se poderá pensar nela. Temos de ter garantias da sua eficácia, para não se correr riscos de fazer pior do que melhor. 

E há medicamentos em teste.

Estão também a ser estudados medicamentos já existentes para outras doenças que poderão revelar-se eficazes no tratamento da doença covid-19. Laboratórios do mundo inteiro estão a trabalhar em todos estes campos, ao nível dos testes sanguíneos, dos medicamentos e das vacinas.


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Disse que o mundo nunca mais será o mesmo depois desta pandemia.

Sim, há muitas mudanças e avanços a acontecer. No Luxemburgo, por exemplo, já ocorreram grandes mudanças, em duas semanas na sociedade, que penso que irão permanecer depois da crise passar. Quer na área da saúde, educação quer a nível do trabalho há mudanças importantes a ocorrer, como por exemplo, as teleconsultas dos médicos, por videochamada ou telefone, que já estão a funcionar. Sim, o mundo não será igual ao que era e irá mudar depois desta pandemia. Mas para já, de momento, o mais importante é a população cumprir as regras e ficar em casa, para prevenir a propagação da doença. Temos de ter paciência.

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